Mais uma vez, Mabel redefine prioridades e, desta vez, aposta na zeladoria
O cenário político e administrativo da capital goiana passou, nas últimas semanas, por uma inflexão estratégica. O prefeito Sandro Mabel (UB) anunciou que o ano de 2026 será prioritariamente voltado à zeladoria urbana, adiando para a segunda metade do mandato a execução de grandes obras estruturantes, anteriormente apresentadas como eixo central de sua gestão. A […]
O cenário político e administrativo da capital goiana passou, nas últimas semanas, por uma inflexão estratégica. O prefeito Sandro Mabel (UB) anunciou que o ano de 2026 será prioritariamente voltado à zeladoria urbana, adiando para a segunda metade do mandato a execução de grandes obras estruturantes, anteriormente apresentadas como eixo central de sua gestão.
A mudança ocorre no contexto da tentativa de consolidar a chamada “Nova Comurg” como referência de eficiência administrativa. No entanto, a alteração de prioridades tem gerado questionamentos por parte de setores da sociedade, sindicatos e especialistas, que apontam possíveis fragilidades no planejamento. Paralelamente, intensificam-se comparações com a gestão de Rogério Cruz, especialmente em função da continuidade de problemas na saúde pública municipal.
No início do mandato, Mabel estruturou seu discurso em torno da solução de problemas históricos de infraestrutura, com destaque para drenagem urbana e grandes intervenções viárias. Posteriormente, o próprio prefeito reconheceu que obras dessa magnitude exigiam projetos técnicos complexos e processos licitatórios demorados, o que inviabilizou entregas no curto prazo. Com isso, as ações mais robustas foram reprogramadas para o período entre 2027 e 2028. Para 2026, a estratégia passa a priorizar uma “força-tarefa” focada em limpeza urbana, manutenção de áreas públicas, paisagismo, pavimentação e iluminação.
Para o arquiteto e urbanista Fred Le Blue, essa mudança de foco representa um risco do ponto de vista estrutural. Ele avalia que o adiamento de intervenções em drenagem, em favor de ações de zeladoria, pode agravar problemas já existentes. Segundo o especialista, a chamada “desgovernança hidrológica” tende a intensificar impactos como alagamentos e deterioração viária, justamente os problemas que a manutenção busca amenizar.
Em metáfora, Le Blue afirma que “a zeladoria é o dever de casa, enquanto as soluções macro estruturantes são as provas e os trabalhos de feira de ciência”. Ele também critica o que define como “ilusionismo” urbano, em que intervenções visuais, como canteiros floridos e áreas revitalizadas, podem mascarar a ausência de políticas estruturais capazes de gerar resultados de longo prazo.
Essa leitura é reforçada pelo estrategista político Marcos Marinho, que aponta a zeladoria como uma ferramenta de forte apelo comunicacional. Segundo ele, investimentos mais intensos nessa área tendem a produzir uma percepção imediata de ação governamental. “Sempre que há esse investimento mais acentuado em zeladoria, é justamente para que haja uma percepção da sociedade de que está havendo trabalho”, afirma. Ainda assim, ele pondera que tais ações podem ser percebidas como insuficientes quando não acompanhadas de resultados em áreas críticas, como a saúde pública.
Saúde com ponto de pressão
A saúde permanece como um dos principais pontos de pressão sobre a gestão. Durante a campanha e nos primeiros meses de governo, Mabel afirmou que resolveria os problemas da rede municipal ainda no primeiro ano. No entanto, o cenário observado em 2026 é de continuidade de dificuldades, evidenciadas por episódios como o da Maternidade Célia Câmara.
A unidade teve o contrato com a Organização Social responsável suspenso após a constatação de incapacidade técnica, falta de insumos, falhas no atendimento médico e riscos à segurança dos pacientes. A interrupção do contrato gerou insegurança entre os trabalhadores, com temor de demissões em massa, além de provocar a sobrecarga de outras unidades da rede, como a Maternidade Dona Iris.
A presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde-GO), Néia Vieira, critica o modelo de gestão por Organizações Sociais, afirmando que ele contribui para a precarização do serviço e fragiliza as relações de trabalho. O sindicato também aponta perdas salariais reais para os profissionais da saúde. De acordo com a entidade, enquanto a inflação medida pelo IPCA/IBGE no período foi de 5,53%, a reposição proposta pela gestão municipal foi de 4,83%, o que representa redução do poder de compra dos servidores que atuam diretamente no atendimento à população.
Em resposta, Mabel argumenta que herdou uma dívida de aproximadamente R$ 500 milhões na área da saúde e que serviços básicos, como partos, apresentavam custos elevados devido à falta de controle e a irregularidades em gestões anteriores. Como estratégia, o prefeito tem defendido a implementação de um modelo de repasse direto de recursos a diretores de unidades para pequenas intervenções e melhorias, inspirado em iniciativas adotadas na área da educação.
Comurg vira aposta de eficiência em meio a ajuste fiscal e contrato bilionário
Se na saúde a gestão enfrenta críticas, na Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) Mabel busca consolidar a imagem de eficiência administrativa. A empresa, que acumulava um passivo estimado em R$ 2,8 bilhões, passou por um processo de renegociação fiscal, reduzindo a dívida para R$ 366 milhões após acordos firmados com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e o FGTS.
Além disso, foi firmado um novo contrato no valor de R$ 7,5 bilhões, com duração de cinco anos, que institui o conceito de “Nova Comurg”. O modelo prevê pagamento condicionado à execução comprovada dos serviços, com o objetivo de combater práticas que o prefeito classifica como históricas, incluindo corrupção e uso político da estrutura. “A Comurg ficou 30 anos à deriva. Agora, as coisas começam a se ajustar”, afirmou o vereador Heyler Leão, em apoio à iniciativa.
Mabel sustenta que sua gestão será marcada pela austeridade fiscal e pelo uso de tecnologia para otimizar a prestação de serviços públicos. Ele também negou, neste momento, a intenção de privatizar a companhia, afirmando que a prioridade é reestruturá-la financeiramente. Ainda assim, Fred Le Blue alerta que intervenções focadas exclusivamente em desmonte de estruturas ou terceirizações podem comprometer a credibilidade da empresa, que, segundo ele, possui capacidade técnica e operacional para desempenhar papel estratégico no planejamento urbano da cidade.
A reorientação de prioridades tem alimentado comparações com a gestão do ex-prefeito Rogério Cruz. Observadores apontam semelhanças no percurso administrativo, destacando que ambos iniciaram seus mandatos com propostas voltadas à inovação tecnológica e a grandes obras estruturantes, para, posteriormente, concentrarem esforços na manutenção cotidiana da cidade.
De acordo com Marcos Marinho, embora parte da população não acompanhe detalhadamente as mudanças estratégicas da gestão, a quebra de expectativas pode gerar impactos no médio e longo prazo. Para ele, a ausência de entregas concretas em áreas sensíveis tende a influenciar a percepção do eleitorado, especialmente em períodos próximos a disputas eleitorais.
Mabel, por outro lado, rejeita as críticas de falta de rumo e afirma que encontrou a prefeitura em situação de dificuldade financeira. Segundo o prefeito, o ano de 2025 foi dedicado à reorganização administrativa e ao equilíbrio das contas públicas, criando as condições necessárias para que 2026 seja o período de apresentação de resultados mais visíveis à população.