Daniel precisa impedir enxurradas de adesistas que beiram o Palácio
Exemplo lapidar para o novo governador foi dado por seu pai, Maguito Vilela, que venceu disputas internas no MDB e nas urnas sem fomentar a divisão em partidos aliados nem viver cercado de oportunistas
Em 1990, Iris Rezende estava voltando às atividades em Goiás. Havia acabado o tempo como ministro da Agricultura de José Sarney. Tentara concorrer à Presidência da República pelo PMDB, mas perdera a convenção para Ulysses Guimarães e Waldir Pires, ambos no auge como Sr. Constituinte e governador da Bahia, respectivamente. Àquela altura, Iris só tinha a comemorar. Havia aprontado todas com seu inimigo estadual Henrique Santillo, que estava terminando melancolicamente seu mandato de governador com baixíssima popularidade, depois de Iris vetar o aval de Sarney a empréstimos internacionais para pavimentação no interior do Estado e o metrô de superfície de Trindade a Senador Canedo.
Também com o presidente, Iris conseguiu impedir a vinda de recursos federais para acudir os gastos com o maior acidente nuclear do mundo. Com Fernando Collor, que apoiou nos dois turnos de 1989, Iris conseguiu a liquidação de um dos bancos do Estado, a Caixego, onde estavam os recursos para pagar três folhas dos servidores quando foi liquidada pelo Banco Central. Nada de técnica, só política. Então, com os inimigos arrasados e em alta com Sarney e Collor, Iris voltaria ao Governo de Goiás. Faltava escolher seu vice, que teria mais uma dádiva: como não havia reeleição, talvez fosse o sucessor de Iris. Como Maguito conquistou essa vaga é uma aula de ciência política para ser estudada por seu filho Daniel Vilela, atual governador e pré-candidato à reeleição, que passou a existir em 1997.
Maguito Vilela sabia agir na hora certa e calar quando necessário
Maguito era o que hoje é chamado de ninja, sabia agir na hora certa, calar quando necessário, falar se fosse indispensável. Seu mandato de deputado federal estava no fim e as bases eram como são, podres, com prefeitos e outras lideranças municipais querendo dinheiro, deputados estaduais tentando cacifar as dobradinhas, enfim, o leilão de sempre. A família Vilela é bilionária há diversas gerações, porém, Maguito não vendia bens para gastar em campanha eleitoral. Resumindo, eram esquálidas suas chances de reeleição, que para cargos proporcionais nunca foram vedadas. O que Maguito fez foi se mostrar confiável. Não era um tocador de obras, como Mauro Miranda, que poderia concorrer com Iris, que tinha a mesma imagem. Não era um perigo para o líder do partido. Discreto e agregador, Maguito venceu a disputa interna e olha lá a chapa com sua cara e seu nome.
A mesma guerra se repetiria quatro anos depois. O MDB reunia as grandes lideranças e Maguito havia tido uma participação do tamanho que Iris lhe reservara. Não tentou encher o governo de aliados, que até hoje é um grupo de oportunistas que cercam os detentores de cargos. Não tentou fazer dinheiro, que àquela época era uma praga de gafanhotos maior que a presente na Bíblia, alguns deles bilionários não por herança, como Maguito, mas por roubança. Enfim, só dava um passo quando percebia que não pisaria em alguém. E isso nos traz para 2026.
Turma do governo não interessa para nada, em nada contribui, nada significa
A turma do governo, que é praticamente a mesma dos tempos de Marconi Perillo e Ronaldo Caiado, não interessa para nada, em nada contribui, nada significa. É essa turba que estimula o cerco aos partidos ligados aos concorrentes. Nas duas mais retumbantes derrotas da política goiana, a de Iris em 1998 e de Marconi/José Eliton em 2018, o candidato do governo contava com mais de 200 dos 246 prefeitos. E esse exército de inúteis deu com os burros n’água e os cavalos na sequidão. Daniel precisa se inspirar em Maguito, que deixou lições impagáveis não somente ao filho, mas a todos os políticos.
Em seus governos no Estado e em Aparecida, Maguito não tentou destruir a oposição. Pelo contrário, conviveu com os adversários, tornou-se amigo da maioria sem tentar cooptá-los e muito menos comprá-los. Eventuais incentivos a Daniel para que aniquile os adversários vêm de adesistas que estiveram com o regime militar, aderiram a Iris, depois pularam no barco de Marconi e por fim viraram caiadistas desde crianças. É uma gente pérfida.
Impedir malfeitores de tratar o Palácio como boca de lobo é providência para Daniel
Outra providência para Daniel é impedir que malfeitores tratem o Palácio das Esmeraldas como boca de lobo pronta para receber enxurradas de prefeitos, vices, primeiras-damas, secretários municipais e outros que adoram trair quem está na oposição. Se a liderança é vagabunda o suficiente para trair o partido que a apoiou, inclusive financeiramente, durante a campanha municipal e agora ela se sente à vontade para jogar fora esse relacionamento político, o mesmo fará contra Daniel sem nem pestanejar.
As ervas daninhas com mandato na Assembleia Legislativa também são especialistas em fazer inferno. Para esses insetos, só serve de companheiro quem os apoia nos municípios. Às vezes, seu adversário interno é uma pessoa de valor, mas o deputado estadual sem ter o que fazer inventa todo tipo de fofoca para minar as relações com o governador. Marconi e Ronaldo Caiado adoram fofoca. Daniel precisa imitá-los em outras atitudes, não nessa.
Outro verme a ser evitado a essa altura da pré-campanha é o arrecadador não oficializado. Costuma ser ladrão, pega até todo o dinheiro que recolhe. Em vez de conseguir doações no caixa 1, fica com o caixa 2 para si. Tem de escolher um tesoureiro e concentrar nele todas as atribuições relativas a recursos. Quando aparecerem os demais, chame a polícia, mesmo que seja alguém com pinta de aliado.
Mais uma vez, Daniel precisa se inspirar em Maguito
Chame alguém com um trator de esteira e passe por cima dos que tentarem intrigá-lo com Ronaldo Caiado, Gracinha Caiado e todos os demais que tiverem esse sobrenome. Mais uma vez, Daniel precisa se inspirar em Maguito, que nunca foi amigo de Iris, mas sempre o obedeceu. Mandruvás levavam mentiras, Maguito os recebia, ouvia, ria e ficava nisso. Quando o malandro ia embora, lavava as orelhas e tchau para mais um fofoqueiro. (Especial para O HOJE)