Candidato criativo pode furar a bolha da gastança para deputado
Para Assembleia e Congresso, a receita é a mesma: apoio de prefeitos, gastança desenfreada e nada de novo. Os que não têm mandato precisam inovar na campanha, sob risco de o índice de reeleitos ser novamente alto
Toda eleição é a mesma novela: xinga-se o nível dos parlamentares, que não valem nada, que são isso e aquilo, blá-blá-blá. E o final é infeliz: os mesmos nomes vão empilhando mandatos. Em 2022, a maioria dos deputados goianos foi reeleita, apesar de nem todos terem tentado. Resta aos que estão de fora sair do ramerrão, conforme alguns já fizeram com sucesso. Como exemplos há dois políticos da direita que chegaram à Câmara dos Deputados, o delegado de Polícia Civil Waldir Soares, campeão de votos em 2014 e 2018, e o empresário Gustavo Gayer, 2º colocado em 2022. Com gasto bem reduzido, menos que vereador em Trindade, chegaram ao Congresso Nacional graças às mídias sociais.
Os métodos que levam ao triunfo nas urnas, em 90% dos casos, são ilegais e revelam que ainda se vive na República Velha, as quatro primeiras décadas depois do golpe que derrubou o imperador Pedro II. Os parlamentares federais e estaduais elegem prefeitos ou cacifam seus partidos. Na sua vez de precisar de voto e dinheiro, recebe a retribuição. Aquela balbúrdia toda sobre emendas ao Orçamento da União e dos Estados não fazem nem cosquinha em deputados e senadores: sem elas, eles simplesmente não existem. Para dar ideia do volume de dinheiro envolvido, apenas na véspera da votação no Senado em que o governo queria fazer de Jorge Messias ministro do Supremo Tribunal Federal foram liberados R$ 12 bilhões. E ele, ainda assim, não conseguiu. Ou seja, o que para uns é uma montanha de dinheiro, para outros sequer conquista um voto.
A criatividade tem sido eficiente
Como competir com quem se deita em tanta verba? A criatividade tem sido eficiente. Além de Waldir e Gayer em Goiás durante eleições passadas, houve quem furasse a bolha nos mais diversos nichos. O palhaço Tiririca está no 4º mandato de deputado federal por São Paulo, agora se transferiu para o Ceará, tudo tributário de um único slogan em 2010: “Pior do que tá não fica”. Das 61 vagas atuais nas bancadas goianas na Assembleia, no Senado e na Câmara, apenas Gayer não foi eleito por força de partido, veículo de comunicação, governo, prefeitura. Na Câmara de Vereadores de Goiânia e Região Metropolitana, mesmo efeito. Não tem adiantado nem fazer palhaçadas e apresentar slogans ridículos como Tiririca.
Na eleição passada, um jovem de 21 anos, Amom Mandel, conseguiu a maior votação do Amazonas para deputado federal tendo apenas 1 segundo de tempo de TV, 15 vezes menos que Enéas Carneiro, outro que se destacou pelo exotismo, apesar de inteligente. Mandel, do Cidadania, dizia apenas “Beba água”. Pronto!, obteve 288.55 votos, mais que Silvye Alves em Goiás. Portanto, não é a idade que significa renovação, é o método.
Dinheiro não é tudo, mas é 100%
Dinheiro não é tudo, mas é 100%, já diria o filósofo Falcão. Porém, em 2018, houve cinco casos de sucesso para a Câmara Federal e quatro deles seriam imitados em 2022 sem tanto êxito assim. O quinteto ganhou sem gastar 1 único centavo, nada, nada, nada. O quarteto era de militares, o subtenente Bernardo (RJ), os capitães Macedo (RS) e Alden (BA), além do coronel Henrique (MG). No pleito seguinte, choveram representantes de quartéis, mas aí já foi tarde, patente não era mais o suficiente. Ah, na mesma leva, Goiás mandou para a Câmara Federal o então desconhecidíssimo Major Vitor Hugo, hoje vereador em Goiânia.
Não adianta dar uma de artista. O cantor José Rico, da dupla com Milionário, se candidatou a deputado federal em 2014, teve o apoio do então senatoriável Ronaldo Caiado, mas em vão. Na eleição anterior, o cantor Renner, companheiro de Rick, tentou ser senador. Derrota vexatória. A má notícia continua valendo: apesar de ser uma terra de sertanejos, Goiás nunca elegeu qualquer deles a deputado federal. E olha que dezenas já tentaram. O único sucesso foi com Wellington Camargo, irmão de Zezé Di Camargo e Luciano, que em 2002 se elegeu à Assembleia. Porém, foi mais pela publicidade que acabara de obter por ter sido sequestrado e perder parte de uma orelha.
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Cabe aos novatos derramar dinheiro ou alguma criatividade
Jogadores de futebol também não desistem, mas até agora apenas Túlio Maravilha chegou lá. Lá à Câmara Municipal. E só. Piloto, também, nada: Alencar Jr. bem que tentou e não conseguiu. Influencers, que neste 2026 vão se candidatar em massa, nada obtiveram até agora – a menos que Waldir e Gayer sejam assim considerados.
O receituário de o deputado de daqui a dois anos financiar a campanha dos prefeitos que vão apoiá-lo nunca foi interrompida pela Justiça nem pelo Ministério Público eleitorais. A troca impune é praticada desde sempre e sempre dá certo. Cabe aos novatos derramar dinheiro ou alguma criatividade. Nem precisa ser muita. Houve o caso da família Lemos, em que Euler Ivo e Isaura Lemos levaram as filhas e estas, as netas, para o Horário Eleitoral. Só obtiveram mandatos municipais e estaduais.
Não se elege quem faz igual a todos, a menos que tenha um plus
Se nada funciona, então, o jeito é aceitar os que aí estão? Nem pense nisso. As mídias digitais, que no início eram um fim, se tornaram o foram desde o começo, um meio. Difícil de entender? Não. Apenas para explicar que ninguém ganha voto por causa de post, mas a depender do que está no post. Como existe há séculos, ou é na força do poder e do dinheiro ou na do convencimento. E não se elege quem faz igual a todos, a menos que tenha um plus – que pode ser “Beba água”. Só que essa não vale, já passou por baixo da ponte. (Especial para O HOJE)