terça-feira, 26 de maio de 2026
Segurança Pública

Atlas da Violência aponta menor taxa de homicídios do Brasil em 11 anos, mas alerta para avanço dos casos ocultos

País registrou 42,6 mil homicídios em 2024, com queda nos indicadores oficiais; pesquisadores alertam que número real pode chegar a quase 50 mil mortes

Nívia Menegatpor Nívia Menegat em 26 de maio de 2026
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Atlas da Violência aponta menor taxa de homicídios do Brasil em 11 anos, mas alerta para avanço dos casos ocultos. Reprodução

O Brasil registrou em 2024 a menor taxa oficial de homicídios dos últimos 11 anos, segundo o Atlas da Violência 2026, estudo elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e divulgado nesta terça-feira (26).

De acordo com o levantamento, foram contabilizados oficialmente 42.590 homicídios no país ao longo do ano passado, o equivalente a uma taxa de 20,1 mortes para cada 100 mil habitantes.

Na comparação com 2023, houve redução de 7,4% na taxa de homicídios e queda de 6,9% no número absoluto de vítimas. No ano anterior, haviam sido registrados 45.747 homicídios.

O estudo aponta que a redução acompanha uma tendência observada nos últimos anos. Entre 2019 e 2024, a taxa nacional caiu 8,6%, enquanto o total de mortes reduziu 6,4%. Em um recorte mais amplo, entre 2014 e 2024, a queda acumulada chegou a 33,4% na taxa de homicídios e 29,6% no número absoluto de vítimas.

Segundo os pesquisadores, diversos fatores ajudam a explicar o cenário. Entre eles estão mudanças nas políticas estaduais e municipais de segurança pública, adoção de estratégias baseadas em diagnóstico territorial do crime, alterações nas dinâmicas entre organizações criminosas e o envelhecimento populacional, considerando que jovens seguem sendo o principal grupo de vítimas.

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Atlas da Violência aponta menor taxa de homicídios

Apesar do resultado, o relatório recomenda cautela na interpretação dos números. O Atlas chama atenção para o crescimento das chamadas mortes violentas por causa indeterminada, registros em que não é possível identificar oficialmente a intenção da morte. Segundo os pesquisadores, parte desses casos pode esconder homicídios que deixaram de entrar nas estatísticas oficiais.

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Atlas da Violência aponta menor taxa de homicídios do Brasil em 11 anos, mas alerta para avanço dos casos ocultos. Reprodução

Utilizando metodologia baseada em aprendizado de máquina para reclassificação estatística desses registros, o estudo estima que o Brasil possa ter encerrado 2024 com 49.673 homicídios, número 16,6% superior ao total oficial.

Nesse cenário, a taxa nacional subiria para 23,4 homicídios por 100 mil habitantes e a redução em relação a 2023 seria praticamente anulada, chegando a apenas 0,4%.

O coordenador do Atlas da Violência e técnico de planejamento e pesquisa do Ipea, Daniel Cerqueira, defendeu o fortalecimento de políticas públicas orientadas por evidências.

Segundo ele, estratégias de repressão qualificada aliadas à prevenção social da violência vêm sendo implementadas em diferentes estados e municípios e apresentam potencial de ampliar resultados.

Regionalmente, o estudo mostra que a redução da violência não ocorreu de maneira uniforme.

Em 2024, dezoito unidades da federação registraram taxas acima da média nacional oficial de 20,1 homicídios por 100 mil habitantes. Os maiores índices foram observados no Amapá (45,7), Bahia (40,9), Pernambuco (37,3), Alagoas (35,9) e Ceará (34,3).

Entre os menores índices ficaram São Paulo (6,6), Santa Catarina (8,1), Distrito Federal (10,3), Minas Gerais (12,8) e Rio Grande do Sul (15,2).

Na comparação com 2023, apenas Maranhão e Ceará registraram crescimento relevante na taxa oficial de homicídios. As maiores reduções ocorreram no Amapá (-30%), Tocantins (-26,7%), Sergipe (-24,8%), Roraima (-22,8%) e Acre (-20,5%). Em números absolutos, as maiores reduções ocorreram no Rio de Janeiro, com 772 homicídios a menos, seguido pela Bahia (-555), Rio Grande do Sul (-280), Goiás (-229) e Amazonas (-229).

No recorte histórico de dez anos, Goiás aparece entre os estados com maior redução da taxa de homicídios do país, acumulando queda de 58,4%, atrás apenas do Distrito Federal (66,2%).

Crescimento dos chamados homicídios ocultos

Em 2024, o número estimado desses casos saltou de 3.755 para 7.083, aumento de 88,6%. A taxa correspondente passou de 1,8 para 3,3 mortes por 100 mil habitantes. Com isso, os homicídios ocultos passaram a representar 14,3% dos homicídios estimados no país, quase o dobro da participação registrada em 2023.

Desde 2014, o Brasil acumulou cerca de 55,2 mil homicídios ocultos.

No recorte municipal, o Atlas mostra forte concentração territorial da violência. Metade dos homicídios estimados do país ocorreu em apenas 99 municípios, cerca de 1,8% das cidades brasileiras. Entre os municípios com mais de 100 mil habitantes, os maiores índices estimados foram registrados em Maranguape (CE), Jequié (BA), Maracanaú (CE), Itapipoca (CE) e Caucaia (CE).

Entre as capitais, Salvador apresentou a maior taxa estimada de homicídios em 2024, com 52,7 mortes por 100 mil habitantes. Florianópolis registrou o menor índice, com 9,7. O relatório destaca ainda que diferenças entre dados oficiais e estimativas não significam necessariamente ocultação intencional de informações, mas refletem limitações técnicas na identificação e integração dos registros entre sistemas de saúde e segurança pública.

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