sexta-feira, 29 de maio de 2026
OPINIÃO

Goiás está na era pré-industrial e novo governador precisa agir

O que ocorreu em lugares desenvolvidos em meados do Século XVIII pode ser que chegue por aqui em 2027, pois os pré-candidatos estão com a chance de incluir o Estado em rotas do desenvolvimento, já que existe vida além de garimpo e cana

Nilson Gomespor Nilson Gomes em 29 de maio de 2026
Captura de tela 2026 04 23 231345 e1777551422444
Há ilhas de prosperidade, como o Distrito Agroindustrial de Anápolis, o Daia, algumas fábricas na Grande Goiânia, aqui, acolá. O restante se contenta com programas sociais dos governos, garimpo e agropecuária - Foto: Daniel Vilela / Marconi Perillo / Wilder Morais

Moradores de cidades pequenas e médias em Goiás estão assustados, pois nunca viram tantos entregadores de coisas, todas as coisas. O comércio local perdeu as compras de adolescentes e jovens, que adquirem TUDO pela internet. Novamente, e como sempre, na contramão da modernidade, os prefeitos continuam querendo atrair empresas, de preferência fábrica. Não conseguem sequer que sua população consuma na loja da esquina. É um desafio para o próximo governador, pois o Estado permanece como nunca deixou de ser, no coração do Brasil e fora de TUDO.

A Revolução Industrial começou na Inglaterra, na 2ª metade do Século XVIII, quando Goiás estava engatinhando, com as primeiras habitações de europeus e seus descendentes. Pois o que ocorreu na Europa quase 300 anos atrás até agora não chegou por aqui. Há ilhas de prosperidade, como o Distrito Agroindustrial de Anápolis, o Daia, algumas fábricas na Grande Goiânia, aqui, acolá. O restante se contenta com programas sociais dos governos, garimpo e agropecuária. Essa tomografia nos coloca ainda mais na vanguarda do atraso, pois quando os portugueses chegaram à costa brasileira encontraram o mesmo cenário de Goiás atualmente, o ócio, algumas brigas dos tupis, quase ninguém produzindo para guardar, geração de riqueza nenhuma.

A tarefa é gigantesca para o próximo governador. São quatro os principais pré-candidatos ao cargo, Daniel Vilela (MDB), Marconi Perillo (PSDB), Wilder Morais (PL) e alguém que o PT ainda não lançou. Em maior ou menor grau, todos eles estiveram no Poder Executivo. A tristeza é saber que há algum contentamento com a situação, um grupo comparando suas realizações às de seus adversários, não ao que o Estado realmente precisa, que é chegar ao Século XXI. A distribuição de miçangas, comparada às bolsas e doações de hoje, os portugueses já faziam com os índios 500 anos atrás. E o resultado foi a quase extinção dos indígenas.

A geringonça administrativa é sustentada por quem trabalha e produz

Os grupos políticos têm ficado no poder tempo suficiente para transformar ao menos o viés de Goiás: os militares e seus indicados ficaram de 1964 a 1982, o MDB mandou de 1983 a 1998, o marconismo governou de 1999 a 2018 e o caiadismo está desde então. No entanto, a obediência às leis federais tem um custo alto, não podem reduzir a máquina estatal e, aliás, nenhuma turma que mandou no Estado se interessou por isso, todas incharam a folha de pagamento o tanto que deram conta. A isso se soma a luta para se manter no governo, o que leva o restante de dinheiro em programas sociais, isenções e outras formas de engessar qualquer decisão por progresso. Assim, mesmo se todas as pessoas das equipes dos governantes fossem honestas e competentes não haveria como ajudarem Goiás a sair do século XVIII.

A seu modo, diversos participantes dos governos se propuseram a desatolar. As chamadas instituições impedem, até porque elas também são formadas por servidores públicos, têm salários altíssimos. Essa geringonça administrativa inteira é sustentada por quem trabalha e produz, ou seja, as vítimas. Nos últimos meses, vê-se o resultado da escolha por depender do campo: as terras se desvalorizaram até 80% quando são pagas em dinheiro, grande parte dos produtores está falida e, mesmo sendo a fração da economia com mais avanços tecnológicos, depende de a China continuar comprando, de a Europa não plantar, de os Estados unidos não criarem.

 

Leia também:

Portarias de prédios vão continuar parecendo almoxarifado, de tanta entrega

As portarias de prédios vão continuar parecendo almoxarifado, de tanta entrega feita por iFood, 99, Mercado Livre, Amazon e Correios. A molecada não tem sentimento algum em relação ao comerciante do bairro, quer é que sua mercadoria seja mais barata. Diante disso, o que fizeram os inteligentes da administração pública de Goiás? Deram incentivos fiscais, terrenos e tudo o mais que as plataformas e grandes redes pediram para aqui instalarem seus centros de distribuição. Uma ideia de jerico que só poderia triunfar em um Estado que se orgulha de se manter no Cavern Club. Só faltava o governo federal liberar a importação não tributada de quinquilharias da China. Não falta mais.

Em vez de apostar na ambição da juventude, as autoridades dão-lhe o mau exemplo de que pode esperar do poder público o dinheiro na mão, ainda que faça dele um vendaval. Está fechado o ciclo do anacronismo: torra com a máquina pública e os programas sociais as verbas que deveriam construir a infraestrutura, insiste num currículo escolar dominado por matérias inúteis e enterra as perspectivas de melhora ensinando à nova geração que sua vida pode ser tocada sem sacrifício, sem esforço, sem ganância, sem derrota nenhuma além da maior delas, viver numa cápsula do tempo parado na era pré-máquina a vapor.

É vital industrializá-los antes de vendê-los para o exterior

O novo governador tem a obrigação de agir. Não vai consertar TUDO em quatro anos, mas pode viciar os goianos em vontade de crescer, de sair da ditadura de mineração, cana, grão e gado e exportá-los como saem do solo. É vital industrializá-los antes de vendê-los para o exterior. Para isso, os pré-candidatos precisam assumir o compromisso com a ciência, a tecnologia, a inovação, a educação. Apresentar como fariam isso.

De onde vão tirar os recursos, e não adianta esperar TUDO do governo federal, terão de cortar na folha de pagamento, nos concursos públicos, nas farras de Legislativos e Tribunais de Contas, nos gastos com doença (o verdadeiro nome do que eles chamam de saúde). Assim, o que aconteceu em países desenvolvidos em meados do Século XVIII pode ser que chegue por aqui em 2027, pois os pré-candidatos estão com a chance de incluir o Estado em rotas do desenvolvimento.

(Especial para O HOJE)

Siga o Canal do Jornal O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do Jornal O Hoje.
Veja também