Infantojuvenil

Goiás está entre os dez estados com mais casos de trabalho infantil

Goiás está na oitava posição, com 71.337 crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil

João César Almeidapor em
Goiás
Especialista aponta riscos para desenvolvimento das crianças e adolescentes expostas a essa realidade - Foto: Valter Campanato/ABr

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC), em 2024, Goiás figurava entre os dez estados com mais crianças e adolescentes em situação de exploração de trabalho infantil. Segundo o levantamento, o estado está na oitava posição, com 71.337 crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, com 15 mais de 15 mil ocorrências somente na região metropolitana da capital goiana.


No Brasil, a legislação proíbe o trabalho para menores de 16 anos, permitindo apenas a condição de jovem aprendiz a partir dos 14. Essa restrição se estende até os 18 anos incompletos para atividades noturnas, insalubres, perigosas ou que integrem a lista TIP, classificadas como as piores formas de exploração infantil.


Goiás registrou aumento de 13,8% nos casos de trabalho infantil entre 2023 e 2024. O número de ocorrências passou de 62.695 para 71.337 em apenas um ano, um acréscimo de 8.031 casos. Com isso, o estado concentrou 4,3% de todos os registros de trabalho infantil do país. A taxa de trabalho infantil entre crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em Goiás também alcançou 5,3%, colocando o estado na 7ª posição do ranking nacional.


Entre as atividades exercidas por essas crianças e adolescentes, o levantamento foca na realidade dos centros urbanos. Nesses casos, o trabalho infantil nas regiões metropolitanas assume características específicas, estando frequentemente associado à informalidade, ao trabalho familiar não remunerado e às atividades de risco.

Outro dado que chama atenção é o avanço das chamadas piores formas de trabalho infantil, classificadas na Lista TIP (Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil), que inclui atividades como extrativismo e construção civil. Segundo o levantamento, cerca de 20 mil crianças e adolescentes estavam inseridos em ocupações consideradas de alto risco à saúde, à integridade física e à vida.

 

Em relação ao ano anterior (2023), houve aumento de 8.031 casos nessa categoria, o que representa crescimento de 38,3%, um dos maiores percentuais registrados no país. Com esse resultado, Goiás passou a ocupar a 8ª posição nacional nesse indicador. Os fatores que contribuem para isso são: vulnerabilidade social, dificuldades de acesso a creches e escolas públicas e a necessidade de complementação da renda familiar contribuem para a permanência de crianças e adolescentes em situações de trabalho precoce.


Impactos


Para a psicóloga Kelyane Olanda, os mais de 71 mil casos de trabalho infantil registrados em Goiás representam um problema que vai muito além da violação de direitos. Segundo ela, a inserção precoce de crianças e adolescentes em atividades laborais pode comprometer etapas fundamentais do desenvolvimento e gerar consequências que acompanham o indivíduo por toda a vida.

 

A especialista explica que a infância e a adolescência são períodos essenciais para a construção de habilidades cognitivas, emocionais e sociais. Quando crianças assumem responsabilidades incompatíveis com sua faixa etária, acabam perdendo experiências importantes para seu crescimento.

 

“A exploração do trabalho infantil interfere diretamente em etapas fundamentais do desenvolvimento cognitivo, emocional, social e acadêmico. Crianças e adolescentes precisam de tempo para brincar, estudar, desenvolver habilidades sociais e construir sua identidade”, afirma.

 

Segundo Kelyane, entre os impactos mais imediatos estão prejuízos na aprendizagem, dificuldades de socialização e aumento dos níveis de estresse. No entanto, os efeitos não se limitam à infância. A psicóloga alerta que a exposição prolongada ao trabalho infantil pode contribuir para problemas que se manifestam na vida adulta.

 

“É importante nos atentarmos aos efeitos que podem se estender para a vida adulta, como maior risco de baixa escolaridade, dificuldades profissionais, problemas de autoestima e vulnerabilidade a transtornos mentais”, destaca.

 

Ela ressalta que a sobrecarga precoce também pode dificultar o desenvolvimento de competências importantes para a vida, como a regulação emocional, a resolução de problemas e a construção de relacionamentos saudáveis.

Embora não exista uma relação direta de causa e efeito, a psicóloga explica que a exploração do trabalho infantil está associada a um risco maior para o desenvolvimento de transtornos como ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, síndrome de burnout, distúrbios do sono e até problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas.

 

A discussão também se estende ao ambiente digital. Com o crescimento da presença de crianças e adolescentes nas redes sociais, surgem questionamentos sobre a chamada exploração infantil no mercado de influência digital.

 

Kelyane explica que nem toda participação de menores em conteúdos online configura trabalho infantil. No entanto, quando há produção sistemática de conteúdo, metas de engajamento, gravações frequentes, geração de lucro ou pressão para participar das publicações, o cenário pode se aproximar de uma relação de trabalho.

 

“Do ponto de vista psicológico, o principal critério é verificar se a atividade está preservando o desenvolvimento saudável da criança ou se ela está sendo instrumentalizada para atender interesses econômicos ou expectativas dos adultos”, observa.

Leia mais: Goiás tem 17,3% do crédito rural comprometido e vê alívio em projeto aprovado no Senado

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