Infraestrutura

7 anos após relatório, Marginal Botafogo em Goiânia continua com problemas estruturais

Mesmo após obras emergenciais em alguns pontos, debate se concentra na criação de mecanismos permanentes de prevenção e fiscalização

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 20 de junho de 2026
7 anos após relatório, Marginal Botafogo em Goiânia continua com problemas estruturais
Após ação civil pública, Goiânia passou a executar obras prioritárias - Foto: Joabe Mendonça

Um novo alerta sobre a situação das pontes e viadutos de Goiânia voltou a colocar em discussão um tema que há anos acompanha a Capital: a falta de uma política contínua de manutenção preventiva das estruturas urbanas. A preocupação foi levantada pelo engenheiro Idalino Hortêncio, do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Goiás (Crea-GO), que apontou a Marginal Botafogo como uma das regiões que mais demandam atenção imediata.

Para o especialista, apesar de algumas intervenções realizadas nos últimos anos, a cidade ainda trabalha muito mais na lógica da correção de problemas já instalados do que na prevenção de futuros desgastes.

O debate ganha relevância porque a Marginal Botafogo é um dos principais corredores viários da Capital. A via concentra diariamente milhares de veículos e serve como importante eixo de ligação entre diferentes regiões de Goiânia. Justamente por suportar um grande fluxo de trânsito, suas estruturas estão submetidas a um desgaste constante provocado pela ação do tempo, pelas chuvas, pela umidade e pela sobrecarga gerada pelo intenso movimento de veículos.

Marginal Botafogo preocupa especialistas 

Na avaliação de Idalino Hortêncio, a situação exige intervenções estruturais urgentes e um acompanhamento permanente. “Os viadutos e pontes da Marginal Botafogo comportam um grande volume de trânsito. Apesar disso, eles não receberam os mesmos trabalhos de reforma pelos quais passou recentemente, por exemplo, a ponte do cruzamento das avenidas T-63 e 85”, afirmou.

Mais do que um problema de engenharia, a discussão envolve mobilidade urbana, segurança pública e planejamento de longo prazo. Especialistas defendem que a cidade precisa abandonar a cultura de agir apenas diante de situações críticas e adotar um modelo contínuo de preservação da infraestrutura existente.

Relatório de 2019 segue atual

O alerta também traz novamente à tona um documento produzido pelo Crea-GO em 2019. Na ocasião, um amplo levantamento técnico identificou 230 ocorrências de deterioração avançada em diversas Obras de Arte Especiais (OAEs) espalhadas pela Capital.

O termo é utilizado pela engenharia para definir estruturas como pontes, viadutos, passarelas, trincheiras e túneis. Algumas dessas construções apresentavam problemas relacionados a infiltrações, desgaste do concreto, corrosão interna e necessidade de intervenções mais profundas.

Entre os locais que receberam destaque estavam o viaduto da T-63, a estrutura localizada na Praça do Ratinho, no Setor Oeste, além de obras nas avenidas das Pirâmides, Acary Passos, T-9 e Dr. José Hermano, sobre a GO-020.

Segundo Idalino Hortêncio, boa parte desses pontos já recebeu intervenções estruturais corretivas. Porém, isso não significa que o problema tenha sido solucionado definitivamente.

A preocupação agora é impedir que estruturas recuperadas voltem a apresentar deterioração nos próximos anos por falta de monitoramento. “Acontece da mesma forma como ocorre em uma casa. Quando você deixa de recuperar um jardim, uma torneira ou uma parede, o desgaste vai se acumulando. Se essa deterioração for permitida gradativamente, o comprometimento pode se tornar estrutural e chegar a um ponto em que será necessário demolir toda a edificação para construir uma nova”, comparou o engenheiro.

A avaliação do especialista é que a manutenção preventiva ainda não ocupa um papel central dentro do planejamento urbano da cidade.

Falta de política permanente é o principal ponto de preocupação

Uma das principais propostas defendidas pelo Crea-GO desde 2019 é a criação da Política Estadual de Segurança das Obras de Arte Especiais (Pesoae). A iniciativa prevê a realização de inspeções periódicas, a elaboração contínua de laudos técnicos e a criação de um banco de dados atualizado sobre as condições de pontes, viadutos, passarelas e demais estruturas espalhadas pelo Estado.

No entanto, a recomendação nunca foi implementada pelo poder público. Para especialistas, a ausência dessa política representa hoje um dos maiores gargalos da infraestrutura urbana, já que grande parte das estruturas depende apenas de avaliações pontuais ou de intervenções realizadas quando o problema já atingiu um estágio avançado.

A preocupação é ainda maior diante do crescimento populacional e da expansão urbana de Goiânia, fatores que aumentam diariamente a pressão sobre equipamentos que, em muitos casos, já acumulam décadas de utilização. Além disso, eventos climáticos extremos, como chuvas intensas e longos períodos de umidade, contribuem para acelerar o desgaste natural das estruturas.

A reportagem entrou em contato com a Agência Goiana de Infraestrutura e Transportes (Goinfra) para saber se o Governo de Goiás pretende implementar a Política Estadual de Segurança das Obras de Arte Especiais (Pesoae) ou adotar alguma medida semelhante de monitoramento permanente. Entretanto, até a publicação desta matéria, não houve retorno.

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Ações emergenciais avançaram, mas especialistas cobram continuidade

Apesar da ausência de uma política permanente, algumas intervenções foram realizadas nos últimos anos. Entre elas estão as obras executadas na ponte da Avenida T-63, no Jardim América, na ponte da Avenida 24 de Outubro, na Vila Abajá, e na estrutura sobre o Córrego Botafogo, entre os setores Criméia Leste e Oeste.

Parte das intervenções executadas nos últimos anos ocorreu após a atuação de órgãos de controle e do Ministério Público de Goiás. Com base no relatório elaborado pelo Crea-GO em 2019, a 81ª Promotoria de Goiânia propôs, no início de 2026, uma ação civil pública para cobrar da Prefeitura a adoção de medidas voltadas à recuperação e ao monitoramento de estruturas consideradas prioritárias. A iniciativa levou a juíza Simone Monteiro, da 2ª Vara da Fazenda Pública, a determinar a elaboração de um plano emergencial de intervenções. 

Mesmo com esses avanços, especialistas avaliam que o maior desafio continua sendo transformar ações emergenciais em uma política pública permanente. A crítica é que o modelo atual ainda funciona de forma reativa, ou seja, as intervenções costumam ocorrer somente quando os sinais de deterioração já são evidentes. 

Na prática, isso torna as obras mais caras, mais demoradas e mais complexas, além de aumentar os riscos para a população que utiliza diariamente essas estruturas.

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