AGRONEGÓCIO

Renegociação de dívidas rurais avança e gera debate sobre impactos no crédito

Texto aprovado pelo Senado prevê condições especiais para renegociação de débitos do setor rural e depende de nova análise da Câmara dos Deputados

Lalice Fernandespor Lalice Fernandes em 21 de junho de 2026
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Proposta amplia prazos de pagamento, reduz juros e cria condições especiais para renegociação de dívidas do agro (Foto: Antônio Cruz/ABr)

Uma proposta aprovada pelo Senado no início de junho estabelece condições especiais para renegociação de dívidas do setor rural, com juros reduzidos, ampliação de prazos e período de carência. A medida, que busca permitir o alongamento de débitos de produtores rurais em diferentes faixas de crédito, ainda precisa passar por nova análise da Câmara dos Deputados.

A proposta permite o refinanciamento de débitos do setor agropecuário com juros reduzidos, prazo de pagamento de até dez anos e carência que pode chegar a três anos. Pela medida, poderão ser renegociadas dívidas de crédito rural, empréstimos e Cédulas de Produto Rural contratadas até 31 de dezembro de 2025.

Os juros variam conforme o perfil do produtor: 3,5% ao ano para agricultores enquadrados no Pronaf e pequenos produtores, 5,5% para beneficiários do Pronamp e médios produtores e 7,5% para os demais.

Além disso, os débitos serão recalculados sem multa, mora e outros encargos relacionados à inadimplência. O projeto também prevê a possibilidade de suspensão temporária de cobranças e execuções das operações abrangidas.

Debate sobre impactos da proposta 

Entre os defensores da proposta, o argumento é que a medida oferece uma alternativa para produtores que enfrentaram dificuldades provocadas por eventos climáticos e por fatores econômicos que afetaram a atividade nos últimos anos.

Durante a votação, senadores favoráveis ao projeto destacaram a importância do agronegócio para a economia brasileira e defenderam a necessidade de criar mecanismos para evitar o agravamento do endividamento no campo.

Já as críticas se concentram nos possíveis reflexos para o sistema financeiro. Em entrevista à Folha, o presidente do Comitê Independente de Riscos e Capital da Caixa Econômica Federal, Francisco Petros, afirmou que a proposta pode gerar pressão adicional sobre os bancos ao exigir o alongamento de operações problemáticas.

Segundo Petros, as instituições financeiras já convivem com aumento da inadimplência no setor rural e teriam de direcionar mais capital para sustentar as renegociações previstas no projeto. Na avaliação do especialista, isso poderia reduzir a capacidade dos bancos de conceder novos financiamentos para outros segmentos da economia.

“É como se fosse um bolo. Se você usa mais capital para o sistema rural, você vai ter que diminuir o estoque dos bancos de empréstimos, porque você vai ter que alocar mais capital para o rural”, disse à Folha.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, também vem demonstrando preocupação. Durante audiência conjunta das comissões de Finanças e Tributação e de Agricultura da Câmara dos Deputados, na quarta-feira (17), Durigan afirmou que “parte das medidas apresentadas […] pode trazer prejuízos para o crédito do agronegócio a médio e longo prazo”.

Possíveis efeitos da proposta de renegociação de dívidas do agro

Para o economista Luiz Carlos Ongaratto, ainda é cedo para medir os impactos efetivos da proposta. “É cedo para falar do que irá mudar na prática, pois ainda depende da Câmara e do presidente da República sancionar a lei, podendo haver modificações, veto ou até mesmo uma MP”, afirma ao O HOJE.

Na avaliação do economista, o principal objetivo da iniciativa é permitir que produtores endividados recuperem condições de acesso ao crédito para financiar as próximas safras. “A ideia é fazer com que o produtor possa voltar a estar adimplente com os financiadores para tomar mais crédito para as próximas safras”, diz. Segundo o especialista, a proposta não representa perdão das dívidas, mas “uma forma de o produtor conseguir diminuir a parcela paga de juros e amortização”.

Ongaratto avalia que a medida pode contribuir para reduzir pedidos de recuperação judicial no setor, ao diminuir o peso das parcelas pagas pelos produtores. “Desta forma, poderá contribuir para a redução de pedidos de recuperação judicial, cada vez mais presentes”, destaca.

Sobre os impactos em outras áreas da economia, Ongaratto avalia que a medida não deverá produzir efeitos sobre os demais segmentos. Segundo o economista, trata-se de uma ação direcionada ao setor agropecuário. “Não terá impacto para outros setores. É uma ação específica”, pontua.

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