terça-feira, 27 de outubro de 2026
TEATRO GOIANO NO MUNDO

Espetáculo goiano “Espécie” é o primeiro do Centro-Oeste a ser apresentado em festival no Reino Unido

Grupo Casa 107 vai realizar nove apresentações na Escócia durante o mês de agosto

Luana Avelarpor em
Espécie
Protagonizado por Rodrigo Cunha e dirigido por Valéria Braga, “Espécie” usa corpo, silêncio e escuridão para investigar as fronteiras entre o humano e o animal

Depois de mais de 200 apresentações e passagens por palcos da América Latina e da Europa, o espetáculo goiano “Espécie” chega a uma das principais vitrines internacionais das artes cênicas. O grupo Casa 107 embarcou na última segunda-feira (3) para a Escócia, onde cumprirá uma temporada de nove sessões no Festival Fringe de Edimburgo, entre os dias 9 e 15 de agosto.

A participação marca a primeira presença de um trabalho produzido por um grupo do Centro-Oeste brasileiro na programação do festival. Em cena, a montagem dispensa palavras e concentra sua força no corpo, na escuridão, no silêncio e no movimento para investigar os limites entre humanidade e animalidade, memória, diversidade e transformação.

Criado pela diretora Valéria Braga e pelo ator Rodrigo Cunha, ambos goianos, “Espécie” será apresentado no Braw Venues Alba Theatre. A circulação conta com apoio da Política Nacional Aldir Blanc do Estado de Goiás e amplia uma trajetória internacional construída ao longo dos últimos anos, com temporadas em países como Espanha, Portugal, Alemanha e Áustria.

Além de ocupar o palco, o espetáculo passa a integrar o Market Place do Fringe, plataforma que funciona como vitrine para programadores e curadores interessados nos trabalhos apresentados no festival. 

“O espetáculo irá compor o market place até 2029, isto é um feito inédito para um grupo do coração do Brasil”, afirma Wellington Dias, produtor da turnê. Para ele, a presença da Casa 107 no festival também evidencia o papel das políticas públicas no deslocamento de produções locais para circuitos internacionais.

“A PNAB é essencial para mostrar que projetos artísticos goianos têm a mesma qualidade que se encontra em qualquer país. Levar Goiás para a maior vitrine de artes do mundo é uma honra e uma responsabilidade”, diz.

A produção logística é de Reginaldo Melo, enquanto João Bosco Amaral responde pela produção internacional. Antes de voltar ao país, no dia 25 de agosto, o grupo participará ainda de rodadas de negócios e ações voltadas à internacionalização do trabalho.

Para Valéria Braga, a circulação não representa apenas a ampliação geográfica da peça. O contato com outras plateias também interfere na leitura e na continuidade da montagem.

“Ao nos depararmos com outras culturas, aprendemos, sobretudo, mais sobre quem somos em um mundo marcado pelas alteridades. Nesse contexto, a PNAB é decisiva para a manutenção, o fortalecimento e a representatividade da diversidade cultural incentivando um mundo mais tolerante”, afirma.

Classificado como teatro físico, “Espécie” foi concebido a partir de uma linguagem que substitui o texto falado pela presença corporal. Em um espaço completamente escuro, iluminado apenas por um telefone celular, Rodrigo Cunha constrói imagens, presenças e metamorfoses que embaralham as fronteiras entre o humano e o animal, o visível e o invisível, o conhecido e aquilo que ainda não pode ser nomeado.

A pergunta que atravessa a encenação — quem olha quem? — desloca a plateia da posição confortável de observadora. O silêncio e a pouca luz formam o próprio ambiente da peça, no qual respiração, gestos e movimentos ganham dimensão narrativa.

Sem diálogos, o monólogo exige que o público acompanhe as transformações do corpo e formule suas próprias associações a partir do que vê, ou acredita ver. A experiência propõe um mergulho na escuridão não apenas do palco, mas também em aspectos da condição humana, acionando imagens ligadas à ancestralidade, à memória e à mudança.

A montagem completa 12 anos de circulação ininterrupta em 2026. Nesse período, percorreu praticamente todas as capitais brasileiras e integrou projetos como o Palco Giratório e iniciativas da Funarte. Fora do país, consolidou uma agenda de apresentações, oficinas e encontros com artistas, diretores e produtores.

Especialmente entre 2025 e 2026, o espetáculo ampliou sua circulação internacional com projetos contemplados pelas leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc. As temporadas também foram acompanhadas por ações formativas e conversas sobre o processo de criação, fortalecendo o intercâmbio com profissionais dos países visitados.

Após o retorno a Goiás, a Casa 107 compartilhará parte da experiência em uma atividade gratuita realizada em parceria com a Secretaria de Estado da Cultura. Valéria Braga, Rodrigo Cunha e Wellington Dias ministrarão a palestra “Circulação Internacional nas Artes da Cena: caminhos, estratégias e experiências a partir do espetáculo ƎSPÉCIE”.

O encontro abordará estratégias, desafios e oportunidades para grupos interessados em alcançar circuitos fora do país. Assim, a passagem por Edimburgo não terminará com a última apresentação: será transformada em repertório para outros artistas que buscam compreender como uma produção criada no Centro-Oeste pode atravessar fronteiras.

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