Depois da grama sintética, Goiânia aposta em jardins de chuva para conter alagamentos
Prefeitura inicia a implantação do primeiro jardim de chuva da Capital, no Setor Oeste, e prevê a construção de 100 estruturas voltadas à drenagem sustentáel
A Prefeitura de Goiânia finaliza os preparativos para a implantação do primeiro jardim de chuva da Capital, na Rua 4, no Setor Oeste. A estrutura marca o início da Agenda Goiânia Mais Verde, programa que prevê a construção de 100 jardins de chuva, 16 quilômetros de corredores verdes e nove trilhas ecológicas para conectar o Bosque dos Buritis ao Lago das Rosas. Apresentada pela gestão municipal como uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas e de redução dos alagamentos, a iniciativa chega em meio a questionamentos sobre a coerência das políticas ambientais adotadas pelo município.
Os jardins de chuva são classificados tecnicamente como sistemas de biorretenção. As estruturas consistem em áreas escavadas e preenchidas com camadas de solo de alta permeabilidade e material granular, projetadas para captar, filtrar e infiltrar a água da chuva no próprio local onde ocorre a precipitação.
Como funcionam os jardins de chuva
Segundo o projeto da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), o modelo adotado em Goiânia contará com uma área rebaixada e vegetada. A água da enxurrada será direcionada ao local por meio de rebaixamentos de calçada, atravessará camadas de solo e vegetação que retêm sedimentos e poluentes e, posteriormente, alcançará uma camada de brita conectada a um tubo perfurado. Caso o volume exceda a capacidade de infiltração, o excedente será encaminhado de forma controlada para a rede convencional de drenagem.
O prefeito Sandro Mabel afirma que as estruturas contribuirão para reduzir o escoamento superficial e aliviar a sobrecarga do sistema público de drenagem. A proposta também prevê benefícios ambientais, como a recarga de aquíferos e a redução das ilhas de calor por meio da ampliação da cobertura vegetal.
Estudos científicos realizados em outras capitais brasileiras apontam resultados positivos na utilização desse tipo de infraestrutura. Um projeto piloto desenvolvido na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife, demonstrou elevada eficiência hidráulica. Em simulações de chuvas críticas, com intensidade de 156,63 milímetros por hora, o sistema suportou o volume sem atingir a capacidade máxima de armazenamento.
Resultados dependem da escala
Especialistas, contudo, destacam que a eficácia dos jardins de chuva depende da escala de implantação e da manutenção permanente. Um único equipamento na Rua 4 pode produzir impactos localizados, mas a redução de alagamentos em uma bacia hidrográfica depende da implantação integrada das 100 unidades previstas pela prefeitura.
Experiências internacionais reforçam essa avaliação. O programa Green City, Clean Waters, na cidade de Philadelphia, nos Estados Unidos, conta com mais de 2,8 mil estruturas de infraestrutura verde voltadas à gestão das águas pluviais. Outro fator considerado determinante é a escolha das áreas de implantação. A permeabilidade do solo e a profundidade do lençol freático precisam ser avaliadas para garantir o funcionamento adequado das estruturas, especialmente em regiões com maior concentração de solos argilosos.

Contradições na política ambiental da Capital
A implantação do primeiro jardim de chuva ocorre em um contexto de críticas a intervenções urbanas anteriores realizadas pela própria administração municipal, especialmente à instalação de grama sintética em canteiros centrais e áreas públicas. A medida, adotada em pontos como as avenidas Castelo Branco e 44, foi defendida pela Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) como uma alternativa para reduzir custos de manutenção em locais onde a vegetação natural apresentava dificuldades de adaptação.
A iniciativa, no entanto, provocou questionamentos de moradores, urbanistas e entidades ligadas ao meio ambiente. Especialistas apontaram que a cobertura sintética reduz a permeabilidade do solo, dificulta a infiltração da água da chuva e contribui para o aumento das temperaturas em áreas urbanizadas, características que contrariam estratégias de adaptação às mudanças climáticas e de mitigação de alagamentos.
O conselheiro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO), David Finotti, afirmou, à época da instalação, que a utilização de materiais plásticos em áreas verdes representa um retrocesso em termos de planejamento urbano sustentável. Especialistas também alertaram para a possibilidade de liberação de microplásticos e para a perda das funções ecológicas desempenhadas pela vegetação natural.
As críticas levantaram questionamentos sobre a coerência das políticas ambientais da administração municipal. Enquanto a prefeitura passou a defender soluções baseadas na natureza por meio dos jardins de chuva, parte das intervenções recentes na paisagem urbana da Capital seguiu caminho oposto ao ampliar a impermeabilização de áreas antes ocupadas por vegetação.
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Desafio da coerência urbana
O relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta a falta de coordenação entre o manejo da água e o uso do solo como um dos principais desafios na gestão de inundações. Segundo especialistas, investimentos em infraestrutura verde precisam estar acompanhados de políticas de preservação ambiental e de planejamento urbano integrado, sob risco de terem efeitos limitados.
Experiências em cidades brasileiras também são utilizadas como referência. Belo Horizonte possui 66 jardins de chuva e desenvolveu programas de adoção comunitária para garantir a conservação das estruturas. Em São Paulo, a Rua Major Natanael abriga um dos maiores sistemas de jardins de chuva do País, com mais de 2,8 mil metros quadrados de área verde.
A presidente da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), Zilma Peixoto, afirmou que o equipamento da Rua 4 servirá de modelo para a expansão da Agenda Goiânia Mais Verde. O programa prevê a implantação de 100 jardins de chuva, 16 quilômetros de corredores verdes e nove trilhas ecológicas em diferentes regiões da Capital.
A prefeitura também informou que estuda a utilização de materiais sustentáveis, como resíduos de construção reciclados na base dos jardins, e que a iniciativa integra o conjunto de ações voltadas à ampliação da infraestrutura verde em Goiânia.