Goiânia registra 660 casos de violência contra idosos no Junho Violeta
Levantamento da PCGO contabiliza 660 registros até 12 de junho; maus-tratos lideram as ocorrências, seguidos pela exploração financeira e pelo abandono
O avanço dos registros de violência contra pessoas idosas em Goiânia marca o Junho Violeta de 2026. Até 12 de junho, foram contabilizados 660 casos, segundo dados da Polícia Civil de Goiás (PCGO), o levantamento reúne 229 registros da Rede de Atenção ao Idoso (RAI) e 431 denúncias feitas por canais oficiais, como o Disque 100.
Entre os tipos de violência mais frequentes no período, os maus-tratos lideram com 142 ocorrências. Em seguida aparecem os casos de exploração financeira, com 64 registros, e abandono, com 23. As ocorrências reforçam um padrão recorrente de violência em ambientes de convivência próxima, principalmente no espaço doméstico.
A violência contra a pessoa idosa é tipificada pelo Estatuto da Pessoa Idosa (Lei nº 10.741/2003), que prevê punições para condutas como maus-tratos, abandono, negligência e exploração patrimonial e financeira. Em conjunto, o Código Penal também enquadra crimes como estelionato, apropriação indébita, extorsão e falsidade documental, a depender da prática investigada.
Junho Violeta
O tema ganha visibilidade no Junho Violeta, campanha de conscientização instituída a partir do Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e lembrado em 15 de junho. A mobilização busca reforçar a prevenção e o enfrentamento às violações de direitos dessa população.
Segundo a ONU, uma em cada seis pessoas com 60 anos ou mais sofre algum tipo de abuso no mundo, com tendência de aumento diante do envelhecimento populacional global.
Na avaliação da Polícia Civil, os registros chegam principalmente por meio de denúncias, muitas delas anônimas. “Na maior parte dos casos, é por via notícia anônima, se dá diretamente no telefone da Polícia Civil, ou aqui no balcão de atendimento”, afirma o delegado Alexandre Bruno de Barros, da Delegacia Especializada no Atendimento ao Idoso, a reportagem do O HOJE.
O delegado destaca que a maioria dos casos ocorre dentro das residências e envolve pessoas próximas da vítima. “Envolve as pessoas da família e pessoas próximas. Na maioria dos casos, acontece dentro de casa”, diz.
Barros aponta ainda a dificuldade de atuação em situações em que a própria vítima não reconhece a violência. “A dificuldade encontrada é o idoso, quando ele não procura e que ele está sendo vítima, e ele nega a violência, ele nega a exploração financeira, mas a Polícia Civil mesmo assim, ela persevera e acaba desvelando a prática desses crimes”, explica.
Tipos de violência contra o idoso
No campo jurídico, o advogado e professor Max Kolbe reforça que a legislação brasileira já prevê um conjunto amplo de proteção. “Os maus-tratos são enquadrados quando há exposição do idoso a situações que coloquem em risco sua integridade física ou psíquica”, afirma, com base no Estatuto da Pessoa Idosa. O especialista explica ainda que a exploração financeira pode “incidir estelionato, apropriação indébita, extorsão e falsidade documental, dependendo do caso concreto”.
O advogado destaca que muitos desses casos são de difícil apuração por ocorrerem, em grande parte, dentro do ambiente doméstico e sem testemunhas. Segundo Kolbe, isso dificulta a produção de provas e contribui para a subnotificação, já que nem todas as situações chegam ao conhecimento das autoridades.
Dados da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS), enviados em nota ao O HOJE, e referentes a 2025, apontam 9.253 notificações de violência no município. Desse total, 337 envolveram pessoas com 60 anos ou mais. Entre os idosos, 58,5% das vítimas são mulheres e 41,5% homens. A residência aparece como principal local de ocorrência, com 84,7% dos registros com local identificado. A violência interpessoal corresponde a 83,7% das notificações, enquanto a autoprovocada representa 15,7%.
Nos casos de violência interpessoal, a negligência lidera com 49,5%, seguida pela violência física (24,9%) e pela psicológica/moral (13,2%). Familiares aparecem como principais autores em 47,3% dos registros, podendo chegar a 72,1% quando considerados outros vínculos familiares.
A SMS informa que os “dados são preliminares e estão sujeitos à atualização, conforme a consolidação das notificações registradas no sistema”.
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