quinta-feira, 25 de junho de 2026
OPINIÃO

Michelle Bolsonaro descobriu — tarde — por que as mulheres precisam do feminismo

Ao relatar ter sido desrespeitada e humilhada por Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro expôs mais que um conflito familiar: revelou, ainda que tardiamente, como estruturas de poder frequentemente aceitam mulheres apenas até o ponto em que elas deixam de obedecer e passam a reivindicar voz

Luma Silveirapor Luma Silveira em 25 de junho de 2026
Michelle Bolsonaro
Em vídeo de 26 minutos, Michelle Bolsonaro expôs o desgaste com Flávio Bolsonaro e afirmou ter sofrido humilhação e desrespeito durante ligação telefônica. Foto: Reprodução

Há ironias que a política brasileira produz com requintes de crueldade. Uma delas aconteceu nesta semana, quando Michelle Bolsonaro tornou público o desentendimento com o senador Flávio Bolsonaro. Entre lágrimas e desabafos, Michelle relatou ter sido “desrespeitada”, “maltratada” e “humilhada” pelo enteado durante uma ligação telefônica.

Mas reduzir o episódio a uma crise familiar ou a um ruído partidário seria um erro. O que veio à tona expõe algo muito maior: uma disputa por poder — e, sobretudo, os limites que estruturas historicamente masculinas impõem às mulheres quando elas deixam de ser apoio e passam a reivindicar protagonismo.

Há um elemento central nessa história que não pode ser ignorado: Michelle não brigava apenas por si. Ela estava lutando pelo direito de influenciar decisões estratégicas do partido e, em certa medida, pelo espaço político de outra mulher dentro de um ambiente em que candidaturas, alianças e sucessões são negociadas por homens. Sua atuação, portanto, ia além de uma opinião pessoal sobre o Ceará. Era a reivindicação de voz em um território onde, tradicionalmente, mulheres são ouvidas até o ponto em que deixam de concordar.

É justamente aí que a tensão emerge.

Durante anos, Michelle Bolsonaro ocupou um lugar confortável dentro do imaginário conservador: o da mulher religiosa, disciplinada, leal, que fortalece a imagem do líder sem disputar seu espaço. Esse papel, porém, parece ter se tornado pequeno demais. Nos últimos anos, Michelle acumulou capital político próprio, ampliou sua popularidade, conquistou interlocução com o eleitorado feminino e evangélico e deixou de ser apenas “a esposa de”. Tornou-se um ativo político real.
E ativos políticos geram disputa.

O relato da ex-primeira-dama sobre a fala de Flávio é emblemático. Ao ouvir que deveria ficar fora das decisões partidárias porque “chegou ontem” e “não entende nada de política”, Michelle se deparou com uma lógica conhecida por muitas mulheres em espaços de liderança: aceitação não é sinônimo de pertencimento.

Você pode ser útil. Pode mobilizar votos. Pode fortalecer narrativas. Mas existe uma fronteira invisível. E ultrapassá-la — especialmente quando isso significa disputar poder real — costuma provocar reação.

Esse é um dos pilares do feminismo, ainda tão incompreendido por setores conservadores: a desigualdade de gênero não se manifesta apenas em agressões explícitas ou violência física. Muitas vezes, ela opera de forma sofisticada, por meio da desqualificação da fala, da exclusão de mesas de decisão e da constante necessidade de provar competência em ambientes que presumem autoridade masculina.

Há uma ironia adicional no caso de Michelle. Durante anos, setores da direita trataram o feminismo como exagero, vitimismo ou ideologia hostil à família. Como se mulheres fortes não precisassem de movimentos de emancipação — bastariam mérito, fé e postura correta.

A realidade, porém, é menos ideológica e mais dura.

O machismo estrutural não escolhe por espectro político. Ele não poupa mulheres conservadoras, religiosas ou alinhadas a discursos tradicionais. Ele opera onde há hierarquia e, sobretudo, onde há poder.

E, no bolsonarismo, poder nunca foi um tema secundário.

A disputa atual dificilmente se resume ao Ceará. O que está em jogo parece ser algo mais profundo: influência, sucessão e herança política. Quem fala em nome do bolsonarismo? Quem define seus rumos? Quem herdará capital eleitoral quando Jair Bolsonaro deixar de centralizar completamente esse campo?

Michelle, ao que tudo indica, entrou nesse tabuleiro.
E talvez essa seja a verdadeira origem do conflito.

Porque, no instante em que uma mulher deixa de representar simbolicamente um projeto e passa a disputar espaço dentro dele, ela deixa de ser apenas necessária — e pode se tornar ameaça.

Talvez Michelle ainda não perceba completamente, mas esta briga vai muito além de Flávio Bolsonaro. Trata-se de uma guerra por poder. E guerras desse tipo raramente são vencidas apenas com legitimidade moral ou apoio popular. São vencidas por quem controla estruturas, alianças e lealdades.
Por isso, é possível — e talvez provável — que Michelle não vença essa disputa.
Mas essa talvez nem seja a questão mais importante.

O que realmente importa é que sua experiência individual revela uma lógica coletiva. Muitas mulheres só compreendem a profundidade da desigualdade quando batem de frente com o teto invisível do poder — o momento em que deixam de ser bem-vindas porque passaram a disputar, e não apenas a apoiar.

Talvez Michelle Bolsonaro tenha entendido isso tarde.

Mas muitas mulheres conhecem essa realidade cedo demais.

O feminismo, afinal, nunca foi apenas sobre teoria ou ideologia. Ele nasce, quase sempre, da experiência concreta de perceber que, em muitos espaços, respeito continua condicionado à obediência.

E talvez essa tenha sido a punhalada mais profunda de todas: descobrir que, no jogo do poder, ser indispensável não significa ser igual.

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