OPINIÃO

O atraso: era do tráfego pago, Goiás ainda tem tráfego de carroça

O Estado a que chegamos: os dois maiores rios não aguentam hidrovia, as principais BR têm só duas pistas e as ferrovias não valem 1 dólar

Nilson Gomespor Nilson Gomes em 27 de junho de 2026
carroça
Até um século e pouco atrás, que é um piscar de olhos na história, quem de Goiás quisesse ir ao Rio de Janeiro teria de ir em barcos e a pé até Belém, no Pará, e pegar um navio. Centipoucos anos atrás chegaram os trilhos do que hoje é a Centro-Atlântica e… mais nada Foto: Divulgação/Prefeitura de Trindade

Na série de textos que O HOJE está apresentando como contribuição para se discutir o Estado antes do voto para os maiores cargos de gestão e parlamentar, observe-se inicialmente o que aconteceu às ferrovias. Até um século e pouco atrás, que é um piscar de olhos na história, quem de Goiás quisesse ir ao Rio de Janeiro teria de ir em barcos e a pé até Belém, no Pará, e pegar um navio. Centipoucos anos atrás chegaram os trilhos do que hoje é a Centro-Atlântica e… mais nada. Parou aí. Ficou nisso.

Corta para o governo de Dilma Rousseff (2011-2016), quando a Norte-Sul, iniciada por José Sarney (1985-1990), foi a leilão e conseguiu de lance apenas 1 dólar. Isso: 1 mísero dólar. Motivo: sua bitola não combina com a da própria Centro-Atlântica, que é anacrônica, e só tem um sentido, o que não faz sentido algum, o trem que vai não pode cruzar com o que vem simplesmente porque nenhum vem. Não dá para entender mesmo, como tudo que cerca os eixos viários do Estado.

Na era das infovias, as cidades goianas ainda têm fretes em carroças

Na era das infovias, as cidades goianas ainda têm fretes em carroças e, na Romaria de Trindade, que começou nesta sexta-feira (2)6, se endeusa mais o carro-de-bois que o Divino Pai Eterno. O déficit de conhecimento é tamanho que as autoridades lançam nos balanços de obras que fizeram tantos milhares de quilômetros de rodovia sem terem aberto 1 centímetro sequer. Aliás, há mais de 50 anos não se faz uma rodovia estadual ou federal em Goiás. Por isso, o peregrino aceita ser atropelado indo à Igreja Matriz de Trindade por GOs estreitas e sem acostamento. A fé é imensa, porém menos que a responsabilidade de quem constrói estradas com poucos passos de largura.

Quem mais investiu no transporte em Goiás foi Dilma, que duplicou a BR-060 de Goiânia a Jataí. Depois dela, outros três presidentes passaram e nenhum milímetro foi aumentado no número de pistas múltiplas do paralelo 13 até o Rio Paranaíba.

A menção ao curso d’água que faz a divisa com Minas Gerais leva à lembrança de um erro que só a falta de planejamento impinge a um povo. O último governador de Goiás a se preocupar com isso foi José Couto de Magalhães, nome de município no Tocantins, na beira do Araguaia, fronteira com o Pará. Isso foi há 160 anos. Desde então, só discurso e militância.

O Paranaíba é a via de escoamento da produção agropecuária e industrial. As mercadorias são levadas por gigantescas barcaças, a partir de Itumbiara até São Simão, depois em barcas ainda maiores até o Porto de Paranaguá, no Paraná. Por que não se intensifica esse meio de transporte, tirando caminhões das rodovias e barateando os fretes? Porque até hoje Goiás não teve prestígio nacional suficiente para conseguir verbas e licenças ambientais e baixar o calado do Paranaíba.

Ninguém se preocupou e hoje o Araguaia tem mais areia que peixe e água

Por que não faz o mesmo com o Araguaia? As autoridades goianas caíram no engodo segundo o qual o rio famoso pelas praias e a pesca, além do mais lindo pôr do sol do planeta, seria destruído se abrigasse uma hidrovia. Os governadores não quiseram imitar seu antecessor Couto Magalhães, que provou o contrário em 1862 ao descer o Araguaia até cruzar com o Tocantins. Se tivesse a hidrovia, os investidores e os empresários de modo geral seriam os primeiros a pressionar para que se preservassem os afluentes, pois mais água significaria mais dinheiro. Ninguém se preocupou e hoje o Araguaia tem mais areia que peixe e água.

Uma análise da estrutura mostra o estado a que chegamos, o de calamidade, também para quem se locomove nos ares. Simplesmente não existem aeroportos, nem simples helipontos. Nas pistas, que mais servem a traficantes de drogas e minerais, reina o descaso. Só dispõem de notícias desanimadoras os destemidos que se atrevem a acreditar tanto em Goiás a ponto de seu transporte ser de avião e helicóptero para chegar mais rápido e mais longe, trabalhar mais e aumentar a competitividade. Nem as seguradoras querem vender para eles. E olhe que há companhias que vendem apólice até para garantir glúteos. (Especial para O HOJE)

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