Bethânia, Caetano, Gal e Gil: 50 anos de um encontro
Livro-reportagem narra bastidores, censura e a gênese dos Doces Bárbaros, grupo que estreou há exatamente meio século
O encontro durou uma temporada, mas deixou rastros por décadas. Em 24 de junho de 1976, Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil subiam juntos ao palco do Anhembi, em São Paulo, pela primeira vez como Os Doces Bárbaros. Meio século depois, um livro-reportagem reconstitui os bastidores daquele projeto, do impulso inicial à perseguição sistemática da ditadura militar.
“Mistério sempre há de pintar por aí – Uma História dos Doces Bárbaros”, publicado pela Garota FM Books, é assinado pelo pesquisador Luiz Abrahão, doutor em Filosofia pela UFMG. A pré-venda foi aberta na última quarta-feira (24), data que marca o aniversário da estreia. O autor passou anos acumulando acervos jornalísticos sobre os quatro artistas antes de sistematizar o material em livro.
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Da ideia ao palco
A iniciativa partiu de Bethânia. Ela levou a proposta a Caetano sem saber que ele alimentava o mesmo desejo. As canções foram compostas no início de 1976 e finalizadas em cerca de duas semanas. Os ensaios, a princípio só com o quarteto, aconteciam na casa de Bethânia ou na de Caetano. A banda entrou no circuito apenas em maio daquele ano, quando os arranjos vocais já estavam praticamente prontos.
O impulso, conforme Abrahão apurou, era rever a leveza dos primeiros anos, quando os quatro eram jovens artistas em Salvador, antes da Tropicália, do exílio e do reconhecimento nacional. O projeto não nasceu de uma estratégia comercial, mas da vontade de resgatar afetos e uma descontração que o sucesso havia tornado mais rara. Rita Lee, que mantinha laços próximos com Caetano, Gil e Gal desde os tempos da Tropicália, foi homenageada no show com a canção “Quando”, composta por Gil em parceria com Gal Costa. A celebração da estreia paulistana aconteceu na casa dela.
Prisão, internação e a estreia carioca
Nem tudo correu sem tropeços. Em julho de 1976, Gilberto Gil e o baterista Chiquinho Azevedo foram presos por porte de maconha e internados em uma clínica psiquiátrica. Os dois ficaram impedidos de participar do ensaio geral para a estreia no Rio de Janeiro. O resultado apareceu no palco: a crítica registrou desencontros pontuais na primeira noite carioca.
Com o tempo, o espetáculo se ajustou. Os Doces Bárbaros viraram fenômeno. O Canecão, segundo Abrahão, chegou a registrar recorde de público, superando uma marca de Roberto Carlos.
Censura nos arquivos
Um dos achados mais expressivos da pesquisa diz respeito à vigilância que o regime militar mantinha sobre o quarteto. Abrahão acessou documentos classificados como confidenciais que revelam monitoramento, perseguição e censura sistemática durante a turnê. O dado alterou a leitura do pesquisador sobre o projeto e ampliou o escopo do livro para além da dimensão artística e comercial.
A descoberta levou o autor a incluir um posfácio com leitura filosófica da experiência do grupo. Recorrendo ao conceito de “gaia ciência”, de Friedrich Nietzsche, ele interpreta a busca de liberdade que os Doces Bárbaros encarnavam naquele Brasil ainda sob a ditadura militar.
Da morte de Gal ao livro
A morte de Gal Costa, em novembro de 2022, foi o estopim. Ao acompanhar as referências à cantora como “doce bárbara” nos dias seguintes ao falecimento, Abrahão percebeu que havia lacunas na historiografia do grupo e que seu acervo poderia preenchê-las. O que começou como um ensaio foi ganhando corpo até se tornar um livro-reportagem.
O prefácio é assinado pelo cineasta Jom Tob Azulay, que dirigiu o documentário original sobre o grupo na mesma época do LP duplo ao vivo gravado durante a turnê.