Financiamento de R$ 500 mi ao novo Hugo deixa dúvida sobre prioridades da Saúde de Goiás
Estado avalia contratar empréstimo junto ao BNDES para comprar a futura sede do hospital, enquanto especialistas defendem cautela fiscal
O Governo de Goiás estuda contratar um financiamento de aproximadamente R$ 500 milhões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para adquirir o imóvel que abrigará a nova sede do Hospital Estadual de Urgências de Goiás (Hugo), na região Sudeste de Goiânia. A proposta ainda está em fase de estudos e dependerá da aprovação da operação financeira. Embora o objetivo seja substituir o atual modelo de locação pela aquisição definitiva do prédio, a iniciativa já desperta discussões sobre o impacto do investimento nas contas públicas e sobre as prioridades da saúde estadual.
O projeto prevê que o Estado deixe de pagar aluguel e passe a ser proprietário da unidade hospitalar. Na avaliação do governo, a medida pode representar economia no longo prazo e garantir maior segurança patrimonial. No entanto, especialistas ressaltam que a decisão exige estudos técnicos detalhados, principalmente diante da necessidade de manter o equilíbrio fiscal conquistado nos últimos anos.
Prioridades da saúde entram no debate
O financiamento também ocorre em um momento em que a saúde pública de Goiás ainda enfrenta desafios importantes. Apesar dos investimentos realizados pelo Estado, pacientes continuam relatando dificuldades para conseguir consultas com especialistas, demora na realização de exames e cirurgias eletivas, além da pressão constante sobre leitos hospitalares em períodos de maior demanda.
Nos últimos anos, o sistema estadual também enfrentou mudanças na gestão de unidades hospitalares, investigações envolvendo organizações sociais responsáveis pela administração de hospitais e discussões sobre contratos e financiamento da saúde pública. Esse cenário faz com que especialistas defendam que novos investimentos em infraestrutura sejam acompanhados de medidas voltadas ao fortalecimento da assistência, ampliação de equipes, redução das filas e melhoria da oferta de serviços.
Outro ponto levantado é o impacto financeiro da operação. Embora financiamentos públicos sejam instrumentos comuns para investimentos estruturantes, a contratação de uma nova dívida exige planejamento para evitar que compromissos assumidos hoje reduzam a capacidade de investimento das próximas gestões.
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Especialista vê oportunidade, mas faz alerta fiscal
Para a economista Greice Guerra, a intenção do Governo de Goiás não deve ser analisada apenas pelo valor da operação. Segundo ela, recorrer ao BNDES pode ser uma estratégia financeiramente interessante, desde que o Estado mantenha o controle das contas públicas e respeite os limites estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal.
“A ideia não é ruim. Goiás apresenta hoje uma situação fiscal relativamente equilibrada quando comparada a outros estados. Não existe um desajuste alarmante nas contas públicas, mas o Estado demorou muitos anos para alcançar esse equilíbrio e precisa evitar qualquer medida que possa provocar novo endividamento”, afirma.
A especialista explica que um dos principais benefícios do financiamento é preservar os recursos próprios do Estado. Em vez de utilizar dinheiro do caixa para adquirir o imóvel, Goiás passaria a utilizar uma linha de crédito federal, normalmente com juros inferiores aos praticados por instituições financeiras privadas.
“Quando o Estado trabalha com recursos federais, ele preserva seu caixa e pode direcionar investimentos para outras áreas importantes, como saúde, educação, segurança e infraestrutura. Além disso, esse tipo de operação também movimenta a economia, gera empregos, renda e arrecadação”, destaca.
Apesar das vantagens apontadas, Greice ressalta que o sucesso da operação depende de planejamento de longo prazo.
“É fundamental que o governo comprove capacidade de pagamento mesmo com a mudança de futuras gestões. Se houver descontrole fiscal, quem acaba pagando essa conta é a própria sociedade. Por isso, a observância da Lei de Responsabilidade Fiscal é indispensável.”
Segundo a economista, caso a operação seja conduzida com responsabilidade, a compra poderá representar um investimento sustentável para o Estado.
Falta de informações ainda gera questionamentos
Apesar do anúncio dos estudos para contratação do financiamento, diversos pontos da operação ainda permanecem sem esclarecimento público. Entre eles estão o prazo de pagamento, o custo total do financiamento com juros, a economia estimada com o fim da locação e os impactos que a nova dívida poderá provocar no orçamento estadual ao longo dos próximos anos.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Estado da Economia para esclarecer em que fase está a negociação junto ao BNDES, por que o governo optou pela aquisição definitiva do imóvel em vez da manutenção do aluguel, qual será o prazo de pagamento do financiamento, quanto o Estado estima economizar com a medida e se a operação poderá comprometer investimentos em outras áreas da saúde. Até a publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestação do governo.
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