Estratégia do governo diante do tarifaço dos EUA preocupa setor produtivo de Goiás
Setor produtivo e especialistas defendem a diplomacia como principal caminho para reduzir os impactos das novas tarifas sobre produtos brasileiros
A imposição de novas tarifas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros ampliou a preocupação do setor produtivo goiano e colocou em debate a estratégia adotada pelo governo federal diante das medidas anunciadas pela gestão de Donald Trump.
As sobretaxas, que podem elevar a carga tributária de alguns produtos para até 37,5%, afetam segmentos importantes da economia goiana, como o açúcar orgânico e a mineração. Enquanto o Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva mantém a posição de não negociar temas como o PIX e a regulação das plataformas digitais, representantes do setor produtivo e especialistas avaliam os impactos dessa condução para Goiás.
Entre entidades e economistas consultados, há consenso de que a negociação diplomática deve prevalecer sobre uma resposta baseada na Lei da Reciprocidade. A avaliação é de que uma escalada tarifária ampliaria os prejuízos para a economia brasileira.
O analista técnico do Getec/Faeg, Lucas Lopes, afirma que a Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás defende a diplomacia como principal instrumento para solucionar o impasse comercial. Segundo Lucas Lopes, a adoção de novas barreiras comerciais tende a aumentar a insegurança para investimentos e para o comércio internacional.
O economista Luiz Carlos Ongaratto também considera inadequada uma resposta com tarifas equivalentes. Na avaliação de Ongaratto, a principal consequência seria o aumento da inflação, com maior impacto sobre a população de menor renda. Para o economista, a negociação aliada a políticas públicas de apoio aos setores afetados representa a alternativa mais viável.
O governo brasileiro contesta as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos para a adoção das tarifas, que incluem críticas ao PIX e a outras políticas nacionais. Para a economista Greice Guerra, além das questões comerciais, as medidas possuem forte componente político. A avaliação é de que uma reação com novas tarifas poderia ampliar o conflito, tornando a negociação o caminho mais adequado para reduzir os impactos.
Os efeitos já preocupam municípios goianos com forte dependência das exportações para o mercado norte-americano. Goiatuba e Goianésia estão entre os cem municípios brasileiros mais afetados em razão das vendas de açúcar orgânico. Goiás é o maior produtor nacional do produto e exportou cerca de 100 mil toneladas para os Estados Unidos no último ano. Com as novas medidas, a tarifa incidente sobre o açúcar orgânico poderá chegar a 37,5%.
Segundo Lucas Lopes, o açúcar orgânico é um produto de nicho e de alto valor agregado, o que dificulta a abertura de novos mercados em curto prazo. Como alternativa, parte da produção poderia ser direcionada ao mercado convencional de açúcar, embora isso reduza o valor agregado.
Já Ongaratto avalia que empresas como Jalles e Goiasa possuem condições de redirecionar parte da produção para outros mercados ou ampliar a fabricação de açúcar cristal e etanol, movimento que já ocorre em razão da queda dos preços internacionais do açúcar.
Brasil Soberano 3
Como medida de apoio aos exportadores, o governo federal lançou o programa Brasil Soberano 3. A iniciativa, porém, é vista com cautela por especialistas. Greice Guerra considera que os R$ 18,5 bilhões previstos podem ser insuficientes diante da dimensão dos impactos e questiona se os recursos chegarão ao setor produtivo em volume capaz de preservar empregos.
Além das perdas diretas nas exportações, entidades como a Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e a Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás (Adial) alertam para o aumento da insegurança jurídica e da imprevisibilidade dos negócios. O presidente da Adial, Edwal Portilho, afirma que as barreiras comerciais afetam toda a cadeia produtiva.
O setor de mineração também acompanha os desdobramentos das medidas. A vermiculita produzida em São Luís de Montes Belos passará a ser tributada em 25%, ante os 10% anteriores, cenário que pode reduzir em até 30% o faturamento da indústria local. Já os minerais classificados como terras raras ficaram isentos das novas tarifas por serem considerados estratégicos para a indústria norte-americana.
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