terça-feira, 28 de julho de 2026
Agronegócio

El Niño exige preparação e pressiona produtores endividados

Com ondas de calor e possibilidade de atraso do período chuvoso, o fenômeno tem 81% de probabilidade de ocorrer e deve atingir o pico entre setembro e novembro

João Césarpor João César em 27 de julho de 2026 às 22:29
El Niño
Especialista diz que produtores precisam fortalecer o planejamento da safra e a gestão de riscos - Foto: Wenderson Araújo/Trilux/CNA

Para os próximos meses, o El Niño deve começar a mostrar seus efeitos, com a possibilidade de ondas de calor e atraso no início do período chuvoso. Em Goiás, o fenômeno deve ser sentido entre os meses de setembro e novembro.


O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) explica que o El Niño é caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, alterando a circulação da atmosfera em diferentes regiões do planeta. No Centro-Oeste, o fenômeno tende a favorecer temperaturas acima da média e maior irregularidade na distribuição das chuvas.

 

Esse momento gera atenção para os agricultores de Goiás, que atualmente entram na preparação da safra 2026/27, diante da previsão de um El Niño de forte intensidade, que deve provocar irregularidade nas chuvas, veranicos prolongados e temperaturas acima da média durante o plantio. Segundo os relatórios mais recentes da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o fenômeno tem 81% de probabilidade de ocorrer.  

 

As projeções indicam aquecimento das águas do Oceano Pacífico superior a 2°C acima da média no Estado. Ao contrário de anos com precipitações bem distribuídas, o El Niño tende a concentrar chuvas em períodos isolados, seguidos por estiagens prolongadas. Esse comportamento climático afeta principalmente a germinação e o desenvolvimento inicial das lavouras de soja e milho, culturas que dependem de umidade uniforme no solo para manter o potencial produtivo.

Nesse sentido, o analista técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Lucas Lopes, explicou ao O HOJE que o produtor precisa fortalecer o planejamento da safra e a gestão de riscos. “O acompanhamento contínuo das previsões meteorológicas será essencial para definir o momento mais adequado para a semeadura, evitando o plantio em condições de baixa disponibilidade hídrica”, comenta. 

Outro ponto que pode ajudar a mitigar os danos é o uso de sementes mais tolerantes ao déficit hídrico e às altas temperaturas, associado ao manejo adequado da fertilidade do solo e às práticas de conservação da água e do solo. “O uso de ferramentas de agricultura de precisão e de monitoramento climático também permite decisões mais assertivas, reduzindo os impactos provocados pelas oscilações climáticas”, acrescenta.


Pressão do endividamento


Com a alta taxa de endividamento rural, os produtores têm menos margem para investimentos e para problemas durante a safra. Para Lopes, a restrição ao crédito rural, as elevadas taxas de juros, os custos de produção ainda elevados e a ausência da Política de Seguro Rural no Plano Safra 2026/27 reduzem a capacidade de investimento dos produtores e aumentam sua exposição aos riscos climáticos.

Por conta disso, o especialista recomenda aos produtores que invistam em práticas que promovam maior eficiência na produção e reduzam os riscos de impactos climáticos. Para a economista Greice Guerra, o desafio climático esbarra em um cenário financeiro delicado. “A situação climática chega a um produtor rural que se encontra financeiramente apertado, enfrentando endividamento e inadimplência, e agravado pelo atual cenário de juros altos, com a taxa Selic a 14,25%”, pontua.

As recomendações da economista, para que os produtores não tenham surpresas, é a antecipação e a proteção. “O produtor tem que se preparar, ele precisa adotar técnicas de manejo, adaptar a sua lavoura à tecnologia e ter um planejamento financeiro”, aconselha.

Guerra também disse ao O HOJE que, além do preparo do produtor, o governo federal precisa estar atento e fornecer mecanismos de auxílio, uma vez que o setor representa uma grande parcela da produção econômica e os efeitos do clima podem trazer consequências para toda a economia nacional.

Leia mais:

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Veja também