quarta-feira, 8 de julho de 2026
Planejamento Urbano

Projeto propõe redes subterrâneas e retirada gradual da fiação aérea em Goiânia

Proposta da CEI dos Fios Soltos prevê redes subterrâneas em novos loteamentos e empreendimentos, além da substituição gradual da fiação no Centro da Capital

João Césarpor João César em 8 de julho de 2026 às 19:58
Rede Subterrânea
Arquitetura da Capital pode ser valorizada com a redução das fiações aéreas - Foto: Alex Malheiros

Na Comissão Especial de Inquérito (CEI) dos Fios Soltos, um projeto estuda retirar as fiações de energia e telecomunicações expostas na cidade. Nesse caso, novos empreendimentos e novos loteamentos deverão utilizar redes subterrâneas. Além disso, a proposta prevê a substituição gradual da fiação no Centro de Goiânia.

Segundo o presidente da CEI dos Fios Soltos, vereador Urzeda (PL), o documento será entregue ao prefeito de Goiânia como sugestão para a criação de um novo código de infraestrutura urbana. A estratégia é que o Executivo avalie a proposta e encaminhe o texto à Câmara Municipal, evitando possíveis questionamentos sobre vício de iniciativa.

A proposta prevê que novos loteamentos e empreendimentos passem a adotar redes subterrâneas, em substituição à fiação aérea. Também há a intenção de iniciar, de forma gradual, a retirada dos cabos no Centro da Capital.

O vereador explicou que a proposta ainda não possui estimativa de custos, já que caberá ao Executivo elaborar o projeto definitivo. A iniciativa também leva o nome de Natály Rodrigues do Nascimento, jovem que morreu após ser atingida por um fio solto na região central de Goiânia.

De acordo com o projeto, o foco central é estabelecer um marco normativo para a organização, fiscalização, manutenção e modernização da infraestrutura aérea da cidade. Entre os principais pontos estão a preservação da vida, a eliminação de fios irregulares, a organização, a padronização das redes e a melhoria da paisagem urbana.

Transição para rede subterrânea

A proposta apresentada pelo vereador estrutura um plano de transição para a rede subterrânea de energia e de telecomunicações. Esse plano reconhece que uma mudança imediata e integral não é viável. Portanto, o processo ocorrerá de forma progressiva, contínua, planejada em fases e alinhada ao Plano Diretor da cidade.

A implantação seguirá critérios técnicos e urbanísticos. A prioridade será dada às áreas centrais e de relevância histórica e comercial, seguidas por corredores de transporte coletivo, eixos viários com grande circulação de pedestres e veículos, regiões com equipamentos públicos essenciais e novas áreas de expansão urbana.

Para reduzir custos e evitar intervenções repetidas no solo, a conversão das redes deverá ser integrada a obras públicas de grande porte, como recapeamento asfáltico, drenagem, revitalização de calçadas, modernização da iluminação pública e implantação de ciclovias. Nesses casos, cada intervenção deverá incluir estudo técnico de viabilidade para a instalação da infraestrutura subterrânea.

No caso de novos projetos urbanísticos, como loteamentos, avenidas e parques, será necessário que as redes subterrâneas estejam presentes desde a fase inicial. O município poderá, ainda, criar galerias técnicas compartilhadas, destinadas a abrigar cabos de energia, telecomunicações e dados de forma organizada.

As concessionárias e empresas que utilizam a rede terão prazos definidos pelo Executivo para transferir os cabos para a infraestrutura subterrânea. Durante o período de transição, as empresas continuarão responsáveis pela segurança da fiação aérea existente.

Em entrevista ao O HOJE, o arquiteto e urbanista Fred Le Blue afirmou que essas novas exigências podem evitar que a cidade continue a perpetuar um modelo antigo de infraestrutura urbana. Além disso, com essas mudanças, os riscos de acidentes diminuem.

Centro da Capital

Outro ponto de destaque para o urbanista é a redução da fiação aérea no Centro de Goiânia, já que a região tem potencial “de ser tombada como patrimônio histórico arquitetônico mundial pela Unesco, que tem esse item como uma das exigências da candidatura”. A Rua do Lazer é um exemplo da possibilidade de implantação de rede subterrânea em regiões adensadas, pois possui infraestrutura para permitir a expansão desse tipo de fiação.

Le Blue ainda pontuou que o acervo Art Déco da Capital pode ser valorizado com a redução das fiações aéreas. “Nessas áreas históricas e comerciais da Capital, o ganho de embelezamento e fruição estética da paisagem será grande, melhorando também a autoestima local, o que, certamente, favorece a valorização e a consciência patrimonial”, comentou.

Especialistas avaliam viabilidade da proposta

A proposta da CEI dos Fios Soltos da Câmara de Goiânia para reduzir a fiação aérea na Capital é considerada tecnicamente viável, mas depende de planejamento, articulação entre poder público, concessionárias e empreendedores, além da definição clara sobre quem irá arcar com os custos da implantação, de acordo com especialistas. Do ponto de vista técnico, a mudança apresenta benefícios importantes.

Segundo o engenheiro eletricista Jovanilson Faleiro de Freitas, há vantagens claras na adoção das redes subterrâneas, como maior vida útil e durabilidade do sistema, mais segurança nas vias urbanas, valorização do espaço público, menor necessidade de manutenção preventiva periódica e maior proteção contra surtos e descargas indiretas.

Apesar disso, a substituição da rede aérea por infraestrutura subterrânea em uma área consolidada, como o Centro de Goiânia, exige cuidados específicos. O processo envolve interferências com estruturas já existentes, limitações de espaço físico, presença de patrimônios históricos e arquitetônicos, condições complexas do solo, necessidade de manter a continuidade do fornecimento de energia e gestão dos impactos no trânsito, na acessibilidade e na atividade econômica local.

O arquiteto e urbanista Fred Le Blue também aponta que o período de implantação tende a ser difícil, principalmente pela necessidade de abertura e perfuração de calçadas, além de eventuais desligamentos momentâneos de energia. Para Le Blue, a modernização da infraestrutura urbana precisa ser conciliada com os custos impostos às concessionárias, aos empreendedores e aos consumidores.

O impacto financeiro é um dos principais pontos de atenção. De acordo com Jovanilson, a implantação de uma rede subterrânea nova tem custo médio estimado em R$ 450 mil por quilômetro. Já a retirada da rede aérea convencional e a instalação de uma rede subterrânea podem chegar a aproximadamente R$ 850 mil por quilômetro. Esse valor pode se tornar um fator de inviabilidade caso não haja definição sobre a fonte de custeio.

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