Daniel propõe gasto de R$ 500 milhões em novo Hugo, sem previsão orçamentária
Governador se confessa incapaz de reformar um hospital, por isso anuncia demolição e vai comprometer ainda mais a gigantesca dívida de Goiás tomando emprestado meio bilhão, para alegria dos especuladores imobiliários; Marconi tentou manobra semelhante e voltou atrás; ainda há tempo de Daniel recuar
O governador Daniel Vilela (MDB) e a presidente da Agência Goiana de Infraestrutura e Transporte (Goinfra), Eliane Simonini, nunca fizeram um prédio, jamais sequer ergueram uma parede. Essa inexperiência está custando caro a Goiás. Mais precisamente, R$ 500 milhões. Na quarta-feira (8), Daniel fechou, por meio bilhão de reais, a compra de um hospital oncológico particular na periferia da capital, ainda em fase de pré-acabamento, para mudar o objeto da obra e transferir para lá o Hospital de Urgências de Goiás (Hugo), inaugurado há 35 anos e reformado diversas vezes. A mais recente reforma começou em agosto de 2024 e foi concluída um ano depois, ao custo de R$ 100 milhões, juntamente com a entrega da gestão à Sociedade Beneficente Israelita Brasileira.
Dívidas e especulação imobiliária
Ao querer mudar com rapidez a operação do Hugo para o Conjunto Fabiana, a cerca de 18 quilômetros do atual hospital, Daniel ignora o estado falimentar das finanças públicas, tanto as sob seu comando quanto as da empresa com a qual assinou um protocolo de intenções. A intenção pode ter sido a melhor, porém, no mesmo momento em que fechava o negócio com o Governo de Goiás, a Oncoclínicas, dona do hospital em construção, frustrava em São Paulo mais uma assembleia para discutir os R$ 4 bilhões em dívidas que a levaram à recuperação judicial. O meio bilhão que Daniel pretende obter junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) seria um alívio e tanto para a empresa.
Outras cifras grandiosas estão se movimentando na pré-campanha em que o governador tenta a reeleição. Investidores do mercado imobiliário aplaudem a iniciativa, pois o Hugo está localizado em frente ao Parque Areião, próximo às alamedas Ricardo Paranhos e Eugênio Jardim, regiões valorizadas da capital. O HOJE apurou que, após conseguirem a privatização do terreno do Hugo, o interesse poderá se voltar também para a área onde está a sede do esvaziado Ipasgo, vizinha ao Hospital de Urgências.
Questionamentos sobre a mudança
As três notícias se complementam. Para início de análise, o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD) acaba sendo questionado por seu sucessor: ou o ex-governador não gastou os R$ 100 milhões anunciados na reforma da unidade, ou o serviço ficou tão ruim que Daniel prefere demolir o conjunto de prédios a realizar um novo remendo.
No mercado, porém, o que O HOJE ouviu foi diferente. Especialistas afirmam que é possível manter o hospital em funcionamento, afinal a unidade opera há mais de três décadas, enquanto existem hospitais centenários em atividade pelo país. Em Goiânia, há diversos edifícios mais antigos que continuam abrigando serviços de saúde, entre eles o Hospital Estadual Alberto Rassi (HGG).
Quanto à pressa pela desocupação, ela remete ao calendário eleitoral, já que o governador pretende disputar a reeleição. Uma negociação desse porte, segundo as críticas ouvidas, deveria ser conduzida pelo próximo governo, responsável pela implantação da nova unidade e pelos custos adicionais da mudança. Estima-se que despesas com equipamentos, adaptações e transferência possam elevar significativamente o investimento inicialmente previsto.
Também seria necessário ouvir especialistas sobre a conveniência de retirar o Hugo de uma região central e transferi-lo para uma área mais distante dos principais corredores viários de Goiânia. Não se pode comparar o Conjunto Fabiana ao Setor Pedro Ludovico em termos de logística para atendimentos de urgência.
O precedente de Marconi
No debate sobre especulação imobiliária, o artigo recorda a tentativa do ex-governador Marconi Perillo (PSDB) de vender áreas públicas por meio da Lei nº 17.909, de 2012. Uma das áreas era o complexo da Polícia Militar, localizado entre as alamedas Ricardo Paranhos e Eugênio Jardim e o Parque Areião. Após forte reação da sociedade, o projeto acabou sendo abandonado.
Segundo a avaliação do articulista, Daniel ainda teria tempo para rever a decisão. Caso mantenha o projeto, acrescentará mais um capítulo ao histórico de alienação de bens públicos para enfrentar dificuldades financeiras e custear despesas da administração estadual.
Impacto para a saúde pública
O HOJE ouviu diversas críticas à proposta. Para parte dos entrevistados, Goiás poderá perder duas unidades hospitalares: uma privada, o futuro Câncer Center, e uma pública, o Hugo. Além disso, o Estado assumiria uma dívida de aproximadamente R$ 500 milhões, que se somaria aos mais de R$ 20 bilhões renegociados recentemente com o governo federal.
Ao longo de seus 35 anos de funcionamento, o Hugo esteve envolvido em diferentes polêmicas, especialmente relacionadas às Organizações Sociais (OSs). A partir dele surgiu a Rede Hugo, que passou a incluir unidades como Huapa, Hutrin, Huana e Hugol.
O grupo econômico que adquirir a área do Hugo e do Ipasgo dará continuidade ao processo de valorização imobiliária entre as avenidas 85, S-1, 90 e 1ª Radial, no Setor Marista, uma das regiões mais valorizadas de Goiânia. Já o prédio atualmente ocupado pelo Hugo poderá receber um empreendimento voltado a um público completamente diferente do atendido hoje pela unidade.
Críticas à justificativa do governo
Nas entrevistas concedidas pelo governador, a principal justificativa para a mudança é que o Hugo seria uma instalação antiga e de difícil reforma. “É uma instalação muito antiga, muito obsoleta e nos traz muitos desafios”, afirmou Daniel. Segundo ele, “é inviável conseguir reformar um prédio tão antigo em pleno funcionamento”.
Para o articulista, a justificativa não se sustenta. Um prédio com 35 anos, submetido a manutenção permanente e recentemente reformado, não poderia ser considerado “muito antigo” ou “obsoleto”. Também questiona como a reforma realizada durante o governo Caiado teria sido possível se, agora, uma nova intervenção é tratada como inviável.
Como observou um engenheiro ouvido pela reportagem, “o mínimo que se pode pensar do governador é que está deixando transparecer sua falta de vocação para construir”. O articulista conclui afirmando que a queda da aprovação de Daniel Vilela, apontada por pesquisas recentes, refletiria esse cenário.
Ao justificar a compra do novo hospital, Daniel destacou que o futuro Câncer Center possui 500 leitos, 90 unidades de terapia intensiva (UTIs) e 20 salas cirúrgicas. Segundo o articulista, mesmo sem equipamentos instalados, apenas pela estrutura física o Governo de Goiás pretende desembolsar cerca de R$ 500 milhões.
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