quarta-feira, 29 de julho de 2026
Alerta Ambiental

Tombamento na BR-153 despeja produtos químicos em córrego de Professor Jamil em Goiás

Carreta transportava ácido sulfúrico, fenol, ácido sulfônico e ácido fosfórico. Órgãos ambientais monitoram a qualidade da água e investigam os impactos sobre o Rio Dourados

Renata Ferrazpor Renata Ferraz em 28 de julho de 2026 às 23:44
Tombamento na BR-153 despeja produtos químicos em córrego de Professor Jamil em Goiás
Reprodução

O tombamento de uma carreta carregada com produtos químicos na BR-153, nas proximidades de Professor Jamil, no sul de Goiás, transformou um acidente de trânsito em uma ocorrência ambiental de grandes proporções. O incêndio que atingiu o reboque do veículo provocou o vazamento de ácido sulfúrico, ácido sulfônico, fenol e ácido fosfórico, formando uma extensa mancha rosada em um córrego que deságua no rio Dourados.

O acidente mobilizou equipes da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), Corpo de Bombeiros, Polícia Rodoviária Federal (PRF) e Saneago, que suspendeu preventivamente a captação de água na região. A principal preocupação é que as substâncias químicas comprometam não apenas o córrego atingido, mas também outros mananciais da bacia hidrográfica, afetando a fauna, a flora e atividades desenvolvidas ao longo do curso da água.

A Semad notificou a transportadora para adotar medidas emergenciais de contenção e recuperação ambiental. No entanto, até a tarde de terça-feira (28), o órgão informou que ainda não haviam sido instaladas barreiras físicas para impedir o avanço da contaminação.

Mistura de substâncias amplia risco de contaminação

Os produtos transportados apresentam características distintas, mas todos oferecem riscos ao meio ambiente quando entram em contato com cursos d’água. O ácido sulfúrico é altamente corrosivo e pode alterar rapidamente o pH da água, comprometendo a sobrevivência de peixes, plantas aquáticas e microrganismos.

O fenol é considerado uma das substâncias mais preocupantes por sua elevada toxicidade. A substância pode permanecer dissolvida na água por dias ou semanas, dependendo das condições ambientais, exigindo monitoramento contínuo.

Já o ácido fosfórico favorece processos de eutrofização, caracterizados pelo crescimento excessivo de algas, reduzindo o oxigênio disponível na água e aumentando o risco de mortandade de peixes. O ácido sulfônico também altera as propriedades físico-químicas da água e pode agravar os impactos ambientais.

Segundo especialistas, a rapidez na contenção é determinante para evitar que os contaminantes sejam levados pela correnteza e atinjam outros corpos hídricos. Os impactos ambientais não podem ser avaliados apenas nas primeiras horas após o acidente. A extensão dos danos dependerá da quantidade de produto derramada, das características do córrego, das condições climáticas e da eficiência das medidas de contenção.

Equipes da Semad permanecem realizando coletas de água e monitorando a área para identificar alterações na qualidade do recurso hídrico e possíveis impactos sobre a fauna e a vegetação.

Como medida preventiva, o órgão recomendou a suspensão da captação superficial de água no rio Dourados e no córrego Pernambuco, em todos os trechos situados a jusante do acidente, até que análises laboratoriais confirmem a segurança da água. A Saneago informou que utiliza sistemas alternativos de abastecimento, evitando, até o momento, prejuízos aos consumidores.

Impactos podem ultrapassar o local do acidente

Embora a mancha tenha sido registrada no córrego próximo ao local do tombamento, os impactos podem se estender por quilômetros. Levados pela correnteza, os contaminantes podem alcançar outros cursos d’água e comprometer diferentes ecossistemas.

O gestor ambiental e geógrafo Juliano Cardoso explica que os danos não se limitam à água. Segundo Cardoso, o solo, a vegetação e os animais que dependem do córrego também podem sofrer consequências por meses ou até anos.

“O problema não termina quando a água perde a coloração. Algumas substâncias permanecem no ambiente e a recuperação depende de monitoramento constante e de ações de remediação”, afirma.

Segurança no transporte de cargas volta ao debate 

Além dos impactos ambientais imediatos, o acidente reacendeu o debate sobre a segurança no transporte de produtos perigosos pelas rodovias brasileiras. Goiás é cortado por importantes corredores logísticos, como a BR-153, por onde circulam diariamente caminhões carregados com combustíveis, fertilizantes, defensivos agrícolas e substâncias químicas de alto potencial poluidor. Especialistas alertam que, diante desse cenário, a prevenção é tão importante quanto a resposta às emergências.

As circunstâncias do tombamento ainda são investigadas. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) informou que o motorista da carreta não possuía o curso específico exigido para o transporte de cargas perigosas, fato que será apurado durante a investigação. A documentação do veículo, da transportadora e da carga também passa por análise para verificar se todas as exigências legais eram cumpridas.

Enquanto isso, a Semad instaurou procedimento para apurar as responsabilidades ambientais. De acordo com o órgão, a empresa responsável pelo transporte foi notificada para adotar medidas imediatas de contenção, mitigação e recuperação da área atingida, conforme determina a legislação ambiental. Além da limpeza do local, a empresa poderá ser responsabilizada pelos custos de monitoramento e recuperação dos recursos naturais afetados.

Para o gestor ambiental, o episódio evidencia a necessidade de fortalecer a fiscalização e os protocolos de resposta para acidentes envolvendo produtos químicos. Segundo Cardoso, quanto mais rápida for a atuação das equipes especializadas, menores são as chances de que os contaminantes se espalhem para outros corpos hídricos.

“Esses acidentes exigem uma resposta imediata. A instalação de barreiras de contenção, a retirada do material contaminado e o monitoramento constante da água são fundamentais para reduzir os danos ambientais. Quanto mais tempo o produto permanece em contato com o ambiente, maior é o risco de impactos sobre a fauna, a flora e até sobre atividades econômicas que dependem desses recursos hídricos”, explica.

Outro ponto destacado pelo especialista é que a recuperação de um curso d’água não ocorre de forma imediata. Mesmo após a retirada dos resíduos visíveis, parte das substâncias pode permanecer retida no solo, nos sedimentos e nos organismos aquáticos, exigindo acompanhamento técnico por semanas ou até meses.

A Prefeitura de Professor Jamil informou que segue acompanhando a situação em conjunto com a Semad, a Saneago e os demais órgãos envolvidos. Segundo o município, até o fechamento desta edição, os monitoramentos indicavam que o material derramado ainda não havia alcançado o rio Dourados, responsável pelo abastecimento da cidade.

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