sexta-feira, 16 de outubro de 2026
RELIGIÃO

Anitta conta o que a fez esconder o Candomblé por anos

Em participação no programa Sem Censura, da TV Brasil, a cantora contou que o medo de perder contratos publicitários a fez adiar a decisão de assumir sua fé, mesmo enquanto era atacada nas redes por um silêncio que, na verdade, era religioso

Luana Avelarpor em
Anitta

Houve um tempo em que Anitta preferiu ser chamada de covarde a ser chamada de macumbeira. A confissão, feita ao programa Sem Censura, da TV Brasil, reconstitui um episódio específico da carreira da cantora, quando ela escolheu proteger sua religião calando sobre política, e pagou por isso com uma das ondas de crítica mais duras que já enfrentou nas redes sociais.

O caso remonta a um período de forte pressão para que artistas se posicionassem publicamente sobre a conjuntura política brasileira. Anitta desapareceu das redes justamente nesse momento, e o silêncio, em plena era da resposta instantânea, foi lido como omissão. “Eu fui muito apedrejada e atacada por estar em silêncio. E, com essa coisa da internet, um dia, dois, três, quatro, uma semana de silêncio é muito tempo”, relembrou.

O que o público não sabia era que a cantora estava, em suas palavras, “fazendo o santo”, expressão do Candomblé para o período de recolhimento espiritual que a afasta de qualquer contato com o mundo exterior por cerca de um mês. Sem celular, sem notícias, sem saber sequer da proporção que seu silêncio ganhava lá fora. “Você não tem informação de pessoas, ninguém fala para você o que está acontecendo. Então, eu não fazia ideia do que estava acontecendo”, disse.

A ironia do episódio é dupla. Ao mesmo tempo em que era cobrada por um posicionamento que não queria dar por não entender de política, Anitta escondia o verdadeiro motivo do silêncio porque temia justamente o oposto do que estava recebendo: não queria ser vista, queria sumir sem ser notada. Não conseguiu.

Uma religião mantida em segredo por cálculo

Anitta reconhece que a demora em assumir o Candomblé publicamente não teve nada de espontâneo. Foi decisão calculada, sustentada pelo medo de perder contratos publicitários numa fase da carreira em que ainda não tinha estabilidade financeira. “Eu comecei sem dinheiro nenhum e fui construindo. Aí imagina o medo. ‘Eita, se descobrirem que eu sou macumbeira, acabou. Eu paro de ganhar dinheiro'”, contou.

A cantora também associou sua trajetória a um padrão que enxerga no mercado. “O povo fala que não tem preconceito, mas você, quando é macumbeiro, ‘tem que sair do armário'”, afirmou, usando o termo em referência ao peso simbólico de declarar uma religião de matriz africana num ambiente publicitário majoritariamente avesso ao tema.

O ponto de ruptura

A guinada veio quando o desgaste de manter o segredo superou o medo de perder dinheiro. “Teve uma hora que eu não aguentei. Falei: ‘gente, eu sou macumbeira. Eu estava presa e não podia falar'”, relatou. Segundo ela, não havia, à época, referências de outras artistas de sua geração no pop que tratassem o Candomblé abertamente, o que tornou a decisão mais solitária. Depois de assumida a fé, veio o alívio. “Comecei a falar e me senti livre, me senti liberta.”

O peso de ser mulher bem-sucedida

A conversa no Sem Censura seguiu por outro território sensível para a cantora: a forma como o sucesso feminino segue amarrado, no imaginário coletivo, à escolha de um homem. Para Anitta, o volume de conquistas profissionais pouco altera essa régua social. “Não importa o quanto você trabalhe, não importa o quanto você tenha construído coisas inacreditáveis. Para a sociedade, a mulher só alcança esse sucesso quando ela é escolhida por um homem. Isso é uma coisa que me pega muito e me deixa muito triste”, disse. A percepção, segundo ela, mudou até a forma como hoje lida com relacionamentos e com a própria exposição pessoal.

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