sexta-feira, 14 de agosto de 2026
73 solicitações

Goiás é 2º Estado com mais pedidos de recuperação judicial no agro

Dos 474 pedidos registrados no País no 1º trimestre de 2026, 73 ocorreram em Goiás, que ficou atrás apenas de Mato Grosso, com 135 solicitações

Lalice Fernandespor Lalice Fernandes em
agro
Com 137 pedidos, soja lidera solicitações no País, enquanto Conab projeta alta na produção de grãos (Foto: Jesse Gardner/Unsplash)

O agronegócio de Goiás registrou 73 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, segundo a Serasa Experian. O Estado teve o segundo maior número de solicitações do País, atrás apenas de Mato Grosso, que contabilizou 135. No Brasil, foram 474 pedidos no período, alta de 21,9% em relação aos três primeiros meses de 2025.

O número ocorre após Goiás registrar 296 solicitações ao longo de 2025, quando o agronegócio brasileiro alcançou o maior volume da série histórica da Serasa Experian, iniciada em 2021, com 1.990 pedidos. Além disso, o avanço ocorre mesmo com uma previsão de aumento da produção brasileira de grãos na safra 2025/26.

Segundo o 11º Levantamento da Safra de Grãos, divulgado nesta quinta-feira (13) pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a colheita deve chegar a 360,8 milhões de toneladas, 2,4% acima do ciclo anterior. A estimativa considera expansão de 2,1% da área cultivada, para 83,5 milhões de hectares, enquanto a produtividade média deve ficar próxima à da safra passada, em 4.322 quilos por hectare.

Para Leonardo Machado, diretor-executivo da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja-GO), os 73 pedidos de recuperação judicial refletem um processo que vem se acumulando. “A recuperação judicial representa a etapa mais extrema de um problema financeiro que normalmente começa muito antes: perda de margem, redução da geração de caixa, aumento do endividamento, renegociação de operações e maior dificuldade de acesso ao crédito”, afirma ao O HOJE.

Pressão sobre o agro

O economista Leonardo Ferraz avalia que os 73 pedidos registrados em Goiás mostram que uma parcela do agro enfrenta dificuldades de caixa e endividamento, mas ressalta que o dado não representa uma crise generalizada. “O problema está mais concentrado em produtores e empresas que acumularam dívidas e agora enfrentam crédito mais caro e margens menores”, afirma ao O HOJE.

No recorte nacional, a soja concentrou 137 pedidos no primeiro trimestre, seguida pela criação de bovinos, com 42. A Serasa não detalhou os 73 pedidos de Goiás por atividade. Ferraz, porém, aponta a soja, a pecuária e empresas ligadas à cadeia de insumos entre os segmentos que merecem atenção.

Machado destaca que produtores de soja e milho estão expostos a preços menos favoráveis, custos elevados, eventos climáticos adversos, aumento do custo financeiro e maior seletividade das instituições na concessão de crédito.

“Um produtor pode possuir terra, máquinas e outros ativos, mas não necessariamente ter liquidez suficiente para cumprir seus compromissos financeiros e, ao mesmo tempo, financiar a próxima safra”, afirma.

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Dívidas acumuladas

Os pedidos de produtores constituídos como pessoa jurídica cresceram 73,5% no primeiro trimestre, para 196, enquanto os de pessoas físicas recuaram 6,7%, para 182. Entre os produtores classificados como “sem propriedades”, categoria que pode envolver arrendatários, foram 60 solicitações.

A Aprosoja-GO afirma não ter base própria para quantificar produtores que estão renegociando dívidas ou enfrentando dificuldades para cumprir financiamentos. O diretor-executivo da associação, porém, relata aumento na procura por orientação sobre endividamento, renegociação e acesso ao crédito.

Segundo dados apresentados pela entidade, Goiás tem aproximadamente R$ 81 bilhões em operações de crédito rural. Desse montante, cerca de R$ 7,52 bilhões estavam em operações em atraso ou inadimplentes e R$ 12,25 bilhões correspondiam a operações renegociadas ou prorrogadas. Somadas, as duas categorias representam aproximadamente R$ 19,8 bilhões, cerca de 24% do estoque citado. Segundo Machado, “esse dado é importante porque demonstra que a recuperação judicial é apenas a parte mais visível de um problema financeiro muito maior”.

Ainda, “quando o produtor enfrenta uma deterioração financeira, essa dificuldade pode se transmitir para os demais elos da cadeia”, afirma Machado, citando empresas de insumos, revendas, distribuidores, transportadoras, armazenadores e indústrias de processamento.

 

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