quarta-feira, 19 de agosto de 2026
exportação de carne

Goiás equilibra exportações para China e EUA e mira mercado interno

Com a cota chinesa próxima do limite, os Estados Unidos ganham espaço como destino da carne goiana, enquanto o setor acompanha os efeitos de uma possível maior oferta no mercado brasileiro

Anna Salgadopor Anna Salgado em
carne exportação
Legenda: Carne bovina de Goiás amplia espaço nos Estados Unidos enquanto restrições da China pressionam o setor a buscar novos destinos | Foto: Divulgação/Abiec

O setor pecuário de Goiás atravessa um período de ajustes diante das restrições impostas pela China à carne bovina brasileira. Com a cota de exportação próxima do limite e a possibilidade de aumento da tarifa de importação, produtores e frigoríficos goianos acompanham os efeitos sobre os embarques, os preços e o mercado interno. Nesse cenário, os Estados Unidos ganharam espaço como principal destino da carne bovina produzida no estado.

Para 2026, a China estabeleceu uma cota de 1,106 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira. Caso o volume seja ultrapassado, a tarifa de importação passa de 12% para 67%. No início de agosto, o Ministério do Comércio da China informou que 90% do limite já havia sido preenchido.

A proximidade do teto provocou redução preventiva nos embarques. Em julho, as vendas para a China caíram 47% na comparação anual. Em Goiás, onde as exportações correspondem a cerca de 30% a 40% da produção total de carne bovina, os efeitos da medida são acompanhados pelo setor. Segundo Luiz Carlos Ongaratto, economista do setor, a cota estabelecida pela China para 2026 foi cerca de 30% menor que a de 2025. A redução ocorreu em um cenário de alta demanda e de preço competitivo da carne brasileira, fatores que contribuíram para o preenchimento mais rápido do limite.

Apesar da redução das exportações para o principal parceiro comercial, o mercado goiano ainda não registrou queda acentuada nos preços pagos ao produtor. De acordo com Marcelo Penha, analista de mercado do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), a arroba segue sustentada pela oferta reduzida de animais terminados, em um momento do ciclo pecuário marcado pela retenção de fêmeas.

Consultores apontam que parte do volume que deixaria de ser exportado poderia ser direcionada ao mercado interno. A avaliação é de que o mercado doméstico dificilmente absorveria a totalidade desse volume. Caso não haja redistribuição para outros destinos, o estoque acumulado poderia pressionar os preços para baixo e afetar a rentabilidade do pecuarista goiano.

O varejo também integra essa cadeia. O economista aponta que um eventual aumento da oferta de carne bovina no mercado interno poderia ampliar a disponibilidade do produto, mas a manutenção desse cenário dependeria da capacidade de consumo da população brasileira. Nesse contexto, a diversificação dos destinos aparece entre as estratégias consideradas pelo setor para reduzir os efeitos de uma eventual concentração da produção no mercado doméstico.

Além do mercado interno, países como Chile, México, Rússia e Egito são apontados como alternativas para ampliar a comercialização. Também estão entre os mercados de interesse destinos de maior valor, como Coreia do Sul e Japão.

EUA ganham espaço

Os Estados Unidos ganharam espaço nesse cenário e já se tornaram o principal destino da carne bovina produzida em Goiás. A mudança ocorre em meio à redução do rebanho norte-americano, que chegou a 86,2 milhões de cabeças, o menor nível desde 1951. Com a oferta interna reduzida, a expectativa é de que os Estados Unidos importem cerca de 2,75 milhões de toneladas de carne neste ano.

A demanda norte-americana possui características específicas. O mercado consumidor dos Estados Unidos exige cortes de alta qualidade, como a categoria prime, enquanto a escassez de gado local também abriu espaço para a carne brasileira em outras linhas de demanda e processamento. A JBS, por exemplo, registrou receita recorde, mas teve prejuízo nos Estados Unidos em razão do alto custo do gado local, cenário que evidencia a diferença de competitividade entre a produção doméstica e a carne importada.

A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, no entanto, também ocorre em meio a tensões políticas. O governo brasileiro notificou Washington sobre o início do processo para aplicação da Lei da Reciprocidade, em resposta a tarifas americanas de até 37,5% sobre outros produtos nacionais. A estratégia brasileira prevê o uso de áreas como propriedade intelectual para pressionar os Estados Unidos sem ampliar os prejuízos à economia brasileira.

Planejamento

Para os frigoríficos que atuam em Goiás, o planejamento também considera os próximos meses. Como a cota chinesa é anual e será renovada em 1º de janeiro de 2027, há expectativa de recuperação dos preços e aumento do ritmo de abates a partir de novembro. O planejamento considera que a carne esteja pronta para embarque e possa chegar à China no início do novo período de cota, com aplicação da menor tarifa possível.

 

 

 

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