sexta-feira, 2 de outubro de 2026
OPINIÃO

PT faz qualquer negócio, com quem topar, para reeleger Lula

Ciro Nogueira, que queria ser vice de Flávio e foi o superministro de Jair Bolsonaro, é o novo amigo de infância do governo, assim como qualquer personagem, à direita ou à esquerda, que for tido como útil para o projeto de se manter no poder

Nilson Gomespor em
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A infidelidade partidária é a regra na política nacional. Por isso, o PSD do presidenciável oposicionista Ronaldo Caiado tem, desde o início, três integrantes na equipe de Lula - Foto: Divulgação/PP

Ciro Nogueira é igual a jabuticaba, uma espécie que só existe neste canto do Cone Sul. Praticamente governou o País a partir da Casa Civil nos dois últimos anos de mandato de Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, a sede do Executivo federal. Sabotou a candidatura de Ronaldo Caiado pelo União Brasil, forçando federalizá-lo com seu feudo, o PP, na tentativa de se cacifar para ser candidato a vice na chapa de Tarcísio de Freitas a presidente da República. Deu zebra geral. Para unir PP e UB, só com algemas. Jair preferiu lançar o filho Flávio e Tarcísio ficou no Governo de São Paulo. E a possibilidade de Ciro se reeleger senador pelo Piauí caía a cada semana, saiu do 1º lugar literalmente para os quintos. Como fundo de poço de político tem catapulta, apareceu o PT e o jogou para a superfície, desde que apoiasse a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A infidelidade partidária é a regra na política nacional. Por isso, o PSD do presidenciável oposicionista Ronaldo Caiado tem, desde o início, três integrantes na equipe de Lula. Nada de coisinha pouca, são ministérios graúdos, Minas e Energia, Pesca e Aquicultura, Agricultura e Pecuária. A federação liderada por Ciro Nogueira tem quatro pastas poderosas, além da Caixa Econômica Federal, um suculento prêmio para quem adora dinheiro. O MDB do governador Daniel Vilela refestelou-se em três paraísos, a picanha Transportes, que ergueu Renan Filho para competir em Alagoas; a maminha Cidades, com Jader Filho; o filé e o contrafilé Planejamento e Orçamento, que ficou com Simone Tebet até sair para ser candidata ao Senado em São Paulo pelo PSB. São três filhos de você sabe quem, os notórios Renan Calheiros, de Alagoas; Jader Barbalho, do Pará; e Ramez Tebet, do Mato Grosso do Sul. MDB mais raiz do que isso, só se acharem Ulysses Guimarães.

Para o PT, tudo isso foi lucrativo política, eleitoral e administrativamente

Assim como Jair Bolsonaro nos últimos dois anos, Lula em seus três mandatos tapou o nariz das ideologias e encheu a esquerda de direitistas, a direita de esquerdistas e o governo de oportunistas que estiveram nos cargos desde Getúlio Vargas. Para o PT, tudo isso foi lucrativo política, eleitoral e administrativamente, apesar de ter redundado nos escândalos do Mensalão e do Petrolão. Ajudou em votações no Congresso, tanto que ocorreram apenas duas derrotas significativas, o impeachment de Dilma Rousseff e, em menor grau, a rejeição a Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Ainda assim, não se pode falar em traição, já que a candidatura de Dilma proposta por Lula foi apenas a de 2010.

O HOJE ouviu de um personagem que presenciou a reunião do PT em que Dilma comunicaria aos companheiros de sigla a passagem do bastão para a volta de Lula em 2014. Integrantes da sigla da estrela vermelha dos mais diferentes rincões do Brasil fizeram assembleia em Brasília para ouvir de Dilma o agradecimento pelo apoio nos últimos três anos e o gesto esperado de erguer o braço de Lula para a plateia consagrá-lo candidato a presidente contra Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). A gestão e a figura de Dilma eram execradas pela população. Multiplicavam-se manifestações nas ruas e nas redes sociais, que não eram ainda o monstro que se tornaram, mas já influenciavam. Ainda assim, a inábil presidenta, como preferia ser tratada, lançou a si mesma, enterrou a pretensão de Lula e da esquerda inteira e deu no que deu: impeachment.

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Era para Dilma ter perdido a reeleição

Era para Dilma ter perdido a reeleição. Para sua vitória, foi preciso Campos morrer em um conturbado acidente aéreo, Marina Silva ser execrada no Horário Eleitoral e Aécio cometer todos os erros possíveis (quem aceita Aloysio Nunes de vice mostra desinteresse em ganhar). A história se repete. Para reeleger Lula, o PT fez aliança não apenas com seu novo amigo de infância, Ciro Nogueira, como lotou os ministérios de antipetistas, à direita e à esquerda. Seus novos filiados são inimigos de décadas, como Marina Silva, a vítima de 2014, e Simone Tebet, emérita anti-Lula. Ambas, agora, pleiteiam o Senado por São Paulo, onde nunca fizeram política.

Em Goiás, o PT namorou um direitista fanático, o ex-governador José Eliton, e forçou a barra para o casamento ocorrer com Marconi Perillo. Os dois fugiram, o que revela um erro duplo. Em 2022, quando Nogueira era o homem-forte de Jair Bolsonaro, então candidato a se reeleger com ajuda do já reeleito Ronaldo Caiado, Lula obteve dos goianos 42% dos votos. Todo esse capital político foi ignorado por Marconi, que não topou a aliança. Como O HOJE já publicou diversas vezes e o experiente ex-governador sabe de cor e salteado, sem estar em um lado da polarização, a dificuldade se amplia. (Especial para O HOJE)

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