Endividamento cresce e atinge 75,8% das famílias em Goiás
Percentual de lares endividados subiu 11,6 pontos percentuais em um ano, enquanto 38,6% estavam com contas em atraso
O cenário financeiro das famílias goianas registrou aumento do endividamento em 2026. De acordo com dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 75,8% dos lares em Goiás possuíam algum tipo de dívida em março deste ano. No mesmo período de 2025, o índice era de 64,2%, uma alta de 11,6 pontos percentuais em 12 meses. O percentual representa praticamente três em cada quatro famílias no Estado.
Em Goiás, 38,6% das famílias estavam com contas em atraso. Entre as famílias inadimplentes, apenas uma em cada cinco afirmou ter condições de regularizar os débitos. O endividamento também varia conforme a faixa de renda. Entre as famílias que recebem até dez salários mínimos, o percentual de endividados chega a 77,7%.
No cenário nacional, o levantamento aponta que 84,9% das famílias com renda de até três salários mínimos estavam endividadas em julho de 2026. Nesse grupo, 38,5% tinham contas em atraso e 17,8% afirmaram não ter condições de quitar as dívidas. Essas famílias comprometiam, em média, 30,6% da renda mensal com o pagamento de dívidas.
Cartão de crédito lidera dívidas
O cartão de crédito permanece como a principal modalidade de dívida em Goiás e no País. Segundo especialistas, em períodos de orçamento mais apertado, o recurso pode ser utilizado para financiar despesas correntes e básicas, como alimentação, saúde e moradia. O uso do cartão para despesas essenciais também pode ampliar o comprometimento da renda quando os pagamentos deixam de ser feitos integralmente.
Quando a fatura não é paga integralmente, o consumidor pode entrar no crédito rotativo ou acumular parcelamentos. Os juros permanecem em patamares elevados, apesar do início de uma flexibilização monetária ao longo de 2026. O custo do crédito também afeta empréstimos e financiamentos, ao aumentar o valor final de operações contratadas pelas famílias.
A inflação é outro fator relacionado ao orçamento das famílias. Em junho de 2026, o IPCA acumulava alta de 4,64% em 12 meses. Em Goiânia, a inflação de junho foi de 0,26%. No País, entre as despesas recorrentes, o grupo habitação registrou alta de 0,63%.
As apostas on-line, conhecidas como bets, também passaram a integrar o cenário de pressão sobre o orçamento doméstico. Estimativas da CNC indicam que as apostas retiraram cerca de R$ 143 bilhões do comércio varejista entre 2023 e 2026. Segundo a estimativa, o desvio de recursos contribuiu para levar aproximadamente 270 mil famílias à inadimplência em todo o Brasil.
O comprometimento da renda também interfere no consumo. Com o aumento das parcelas de dívidas, famílias podem reduzir gastos não essenciais, adiar a compra de eletrodomésticos e diminuir o consumo geral. A inadimplência também pode dificultar o acesso a novos créditos, diante de avaliações mais rigorosas de risco e histórico de pagamento por parte das instituições financeiras. A redução do consumo pode ainda alterar a demanda por produtos e serviços no comércio.
Em 2026, o governo federal lançou o Novo Desenrola Brasil, com frentes de renegociação destinadas a famílias, empresas e estudantes. Em três meses, o programa movimentou R$ 44,1 bilhões em dívidas renegociadas. Na frente destinada às famílias, foram feitas 3,5 milhões de operações, que somaram R$ 20,9 bilhões. O desconto médio nas negociações foi de 82%, ao reduzir o saldo devedor desse grupo para R$ 3,7 bilhões.
Renegociação não elimina problema
Análises do Dieese apontam que a renegociação pode proporcionar alívio imediato, mas não elimina as causas do endividamento. Entre as medidas apontadas estão a ampliação da renda real, a redução do custo de vida e a qualificação dos serviços públicos que impactam o orçamento.
Para o advogado especialista em direito bancário Bruno Naide, o consumidor deve buscar alternativas quando as dívidas começam a comprometer despesas básicas. Entre as orientações estão identificar todos os débitos e os respectivos custos, procurar as instituições financeiras antes que a situação se agrave, avaliar o valor total e o número de parcelas das propostas de renegociação e verificar se uma nova parcela cabe no orçamento antes de contratar crédito para quitar outra dívida.
Leia mais:
Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.