Muito além do Saci: folclore sobrevive na tradição oral
No Dia do Folclore, cantigas, brincadeiras e causos mostram que essa herança vai além dos personagens mais conhecidos.
Folclore não é só o que aparece nos livros escolares em agosto. Ele também sobrevive na cantiga aprendida com a avó, na brincadeira repetida no recreio, no provérbio repetido em casa e nos “causos” que atravessam reuniões de família. No Dia do Folclore, celebrado em 22 de agosto, esse repertório lembra que uma cultura continua existindo enquanto encontra quem a conte e quem a escute.
A narradora oral e escritora Clara Haddad conhece esse movimento desde a infância. Foi ouvindo histórias da avó que se aproximou da tradição oral, experiência que virou profissão. Há mais de 25 anos, trabalha com contação de histórias e já passou por mais de 12 países.
“Muito antes de existir a escrita, as histórias já eram transmitidas pela voz”, explica. Para Clara, essa circulação mantinha mitos, lendas, fábulas e cantigas na memória e permitia que chegassem às gerações seguintes.
Histórias que mudam sem desaparecer
Na oralidade, preservar não significa congelar uma narrativa. Quem conta interfere no ritmo, na entonação, nos gestos e na forma de organizar o que recebeu. “Ser guardião da memória não significa simplesmente repetir palavras. Exige escuta, sensibilidade e discernimento”, afirma.
Clara compara o registro escrito a uma imagem fixa. “Eu gosto de pensar que o livro é como uma fotografia: ele registra uma narrativa daquele jeito, naquele momento. A oralidade é diferente, porque coloca a história em movimento. Quem conta traz a sua voz, o seu ritmo e um pouco de si. Afinal, quem conta um conto acrescenta um ponto — e, às vezes, omite três”, brinca.
É também por isso que o folclore não se resume a Saci, Iara, Curupira e Boitatá. Ele aparece em práticas e saberes transmitidos dentro de casa ou em uma comunidade. “A cantiga que uma avó ensinou, a brincadeira aprendida na rua, o ‘causo’ repetido nas reuniões de família, o mito conhecido em uma determinada região. São histórias que podem parecer pequenas, mas carregam modos de viver, de lembrar e de compreender o mundo”, destaca.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconhece como patrimônio cultural imaterial conhecimentos, celebrações, formas de expressão e práticas transmitidas entre gerações. O registro ajuda a conservar esse patrimônio, mas não substitui a circulação.
Em uma rotina atravessada por vídeos, jogos e plataformas digitais, o desafio é continuar abrindo espaço para a transmissão. Clara resume essa continuidade em uma frase: “Cada história contada cria uma ponte entre quem veio antes, quem escuta agora e quem ainda virá.”
É nessa passagem de uma pessoa para outra que o folclore permanece vivo: muda de voz, ganha novas formas e segue adiante.
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