segunda-feira, 14 de setembro de 2026
música independente brasileira

Bananada volta forte e deixa Goiânia à espera da próxima edição

Após anos sem edição presencial, festival encerra programação e reforça o papel da cidade na circulação da música independente brasileira

Luana Avelarpor em
Bananada
Felipe Cordeiro no Martim Cererê. Foto: Ariel Martini (

O último show terminou e Goiânia se despediu, neste domingo (23), de uma edição aguardada por anos. Mas o saldo do Bananada 2026 vai além dos seis dias de programação e das 102 atrações que passaram por 12 territórios da cidade. Sete anos depois da última edição presencial, o festival voltou a ocupar a capital e a recolocar em circulação uma ideia que ajudou a construir desde 1999: a de que a música brasileira também pode ser descoberta e projetada longe dos centros habituais.

Essa ocupação começou antes de o público chegar ao Centro Cultural Oscar Niemeyer. De terça (18) a quinta-feira (20), a programação passou pelo Centro Cultural Martim Cererê e por espaços como Shiva Alt-Bar, Monkey, Zona Pub, Zé Latinhas e Salve!. De sexta (21) a domingo, o eixo principal se deslocou para a Arena Bananada, onde artistas de diferentes gerações, gêneros e regiões dividiram a programação.

O formato ajuda a explicar por que o festival conquistou um lugar particular no calendário cultural brasileiro. Mais do que reunir nomes conhecidos, o Bananada criou, ao longo de sua história, um ambiente de circulação. Artistas encontram outros artistas, produtores acompanham novos trabalhos, públicos chegam por uma atração e descobrem outra. Para quem trabalha de forma independente, essas conexões podem se transformar em convites, parcerias e possibilidades de levar a música para além do lugar onde ela nasceu.

Arnaldo Antunes chegou ao festival carregando justamente a dimensão dessa história. Apesar da longa carreira, nunca havia tocado no Bananada. “Primeira vez que eu toco no Bananada, um festival que eu queria tocar já há muitos anos, porque é um festival que tem uma tradição incrível”, disse o artista. O encontro com o público de Goiânia transformou a espera em memória. “Foi maravilhoso, vocês foram incríveis, a gente cantando junto ali. Vou ter uma lembrança muito boa desse show pra sempre”, completou.

Se Arnaldo fala da tradição construída pelo festival, Felipe Cordeiro aponta para uma característica que ajuda a entender sua relevância no presente. Para o músico de Belém do Pará, o Bananada oferece uma leitura da produção nacional que não se restringe aos mesmos centros geográficos e econômicos.

“Bananada é um festival de extrema relevância e importância para a cultura brasileira, porque tem um olhar descentralizado da nossa música, tem um compromisso com isso”, afirmou Felipe. A percepção parte também de sua própria experiência como artista amazônida. “Eu sou da Amazônia. Pra mim trazer essa qualidade de percepção da realidade brasileira a partir de um olhar amazônico é fundamental”, comentou.

A própria localização de Goiânia, para ele, carrega uma espécie de síntese dessa proposta. “É quase uma utopia o Bananada. Ele acontece em Goiânia, na parte do meio do país, não é no litoral, não é no Norte, não é no Sul. É no meio do país”, observou o músico. A cidade aparece, assim, não como escala entre outros mercados, mas como ponto de encontro entre cenas que chegam de direções distintas.

Gaby Amarantos levou ao palco uma discussão semelhante por outro caminho. Ao apresentar “Rock Doido”, a cantora falou sobre independência, criação coletiva e sobre a rede necessária para fazer um projeto circular. “Foi a força de um coletivo de mais de 350 pessoas que fizeram esse projeto. Rock Doido não é da Gaby. Rock Doido é nosso”, afirmou.

A artista também ressaltou a participação do público na circulação de um trabalho independente. “Essa artista independente aqui não paga mídia. Ela está chegando porque vocês estão levando o Rock Doido junto com a gente para o mundo. Vocês estão ouvindo. Obrigada por serem os ouvidos e as mentes que se abriram para o novo”, agradeceu Gaby. 

Para a cantora, havia ainda uma conquista pessoal naquela noite. “Que felicidade que eu tô de estar aqui, pela primeira vez fazendo meu show e principalmente de ver o Bananada de volta, forte, potente, poderoso, como o maior entre os maiores festivais do Brasil”, celebrou.

Realizado por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobras, o Bananada voltou também com perspectiva de continuidade. Durante a coletiva de imprensa que antecedeu o festival, a organização apresentou a previsão de mais nove edições depois de 2026. A possibilidade abre um ciclo que pode significar mais do que novas datas no calendário: formação de público, fortalecimento dos espaços culturais, profissionalização da cadeia musical e novas oportunidades para artistas de Goiás circularem dentro e fora do Estado.

Foi com essa história em movimento que o Bananada chegou ao último domingo. Tuyo, Mateus Fazeno Rock, Jadsa, Tássia Reis, Don L e BaianaSystem estiveram entre os nomes escalados para o encerramento no Oscar Niemeyer, concluindo uma semana que começou espalhada pela cidade e terminou reunindo, em um mesmo espaço, diferentes formas de produzir e pensar a música brasileira.

Depois de anos de ausência, o Bananada 2026 lembrou por que o festival se tornou maior do que uma sequência de shows. Ao aproximar geografias musicais, abrir caminhos para artistas e reunir públicos de diferentes lugares em torno da cena independente e da cultura, devolveu a Goiânia um encontro que fazia falta. Se a semana terminou no domingo, ficou o gosto de continuidade. Depois de seis dias de música, descobertas e reencontros, a expectativa agora é simples: saber quando o Bananada volta a ocupar a cidade outra vez.

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