segunda-feira, 5 de outubro de 2026
CRISE

Disputa entre facções provoca crise em presídio de Catalão (GO) e transferência de presos

Operação preventiva retirou detentos da unidade após ameaças de morte atribuídas à disputa entre grupos criminosos

Anna Salgadopor em
catalão
Legenda: Polícia Penal realizou operação preventiva na Unidade Prisional de Catalão após tumulto e ameaças de morte entre detentos que se declaravam integrantes de facções rivais | Foto: Reprodução

Uma crise de segurança na Unidade Prisional de Catalão, no Sudeste de Goiás, provocou a transferência preventiva de detentos após presos de facções rivais iniciarem um tumulto na noite de sexta-feira (21). Segundo informações divulgadas sobre o caso, ameaças de morte relacionadas à filiação a grupos criminosos levaram à intervenção da Polícia Penal de Goiás na manhã de sábado (22).

A operação foi concluída às 11h e mobilizou equipes do Grupo de Operações Penitenciárias Especiais (GOPE), do Grupo de Intervenção Tática (GIT) e do Grupo Tático de Ações de Escolta (GTAE). Sob forte escolta, os detentos foram transferidos para unidades da 4ª Coordenação Regional de Polícia Penal, incluindo presídios de Caldas Novas, Pires do Rio e da região.

Há divergência quanto ao número de presos removidos. Comunicados oficiais mencionam 60 transferidos, enquanto dados extra oficiais registraram a retirada de até 85 detentos de uma única ala.

O prefeito de Catalão, Velomar Rios, afirmou não ter sido informado formalmente pela Polícia Penal ou pela Diretoria-Geral de Polícia Penal (DGPP) sobre as ameaças ou a transferência de presos. Segundo Rios, a prefeitura tomou conhecimento da operação por meio da imprensa local.

A Comunicação Setorial da Polícia Penal de Goiás informou que a movimentação começou na noite de 21 de agosto, quando alguns custodiados, que se declaravam integrantes de organizações criminosas, teriam ameaçado a ordem e a disciplina da unidade em razão de suposta vinculação a facções rivais.

Em nota, a DGPP afirmou que a operação realizada no sábado teve caráter preventivo e foi fundamentada nas atribuições legais previstas na Lei estadual nº 19.962/2018. Conforme o órgão, os presos foram removidos da Unidade de Catalão para outras unidades da Polícia Penal integrantes da 4ª Coordenação Regional. A nota também informou que “foram realizadas as devidas comunicações que o caso requer”.

A transferência ocorreu em meio ao discurso do governo estadual sobre o enfrentamento às organizações criminosas. O governador Daniel Vilela afirma que “Em Goiás a regra é simples e clara: faccionado não tem vez”.

Para a pesquisadora Kênia Fernanda da Silva Machado, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) estabeleceram ramificações em Goiás a partir de 2014. Segundo a análise apresentada pela pesquisadora, o crime organizado atua de forma estruturada e empresarial, tendo o tráfico de drogas como principal fonte de faturamento e expansão.

Kênia Fernanda também aponta o aprisionamento massivo e a superlotação como fatores relacionados ao crescimento das facções no sistema carcerário goiano. “A persistência ao endurecimento da legislação penal a estes crimes está longe de cumprir sua efetividade”, afirma.

A pesquisadora destaca ainda a atuação da Delegacia Estadual de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO) no desmantelamento de lideranças. Segundo Kênia Fernanda, alerta para a possibilidade de reorganização dos grupos após a retirada de integrantes. “Não adianta enviar alguns detentos a unidades federais. Se você separa, outros vão surgir”, afirma.

A situação do sistema prisional brasileiro também foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 347, que caracterizou o sistema carcerário nacional como um “Estado de Coisas Inconstitucional”. A decisão aponta para violações massivas de direitos fundamentais, além de problemas relacionados à superlotação e às políticas de ressocialização.

No caso de Catalão, a crise resultou em uma medida preventiva de transferência de presos para outras unidades da região. A operação ocorreu após o tumulto registrado na unidade e diante de ameaças atribuídas a disputas entre detentos que se declaravam integrantes de facções rivais.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Estado da Segurança Pública de Goiás (SSP-GO) para solicitar um posicionamento sobre o caso, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

 

 

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