Dívida de R$ 54 bilhões leva Braskem a pedir recuperação extrajudicial
Braskem pede recuperação extrajudicial para renegociar dívida de R$ 54 bilhões
A Braskem protocolou um pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar parte de suas dívidas. A empresa enfrenta uma combinação de endividamento elevado, custos relacionados ao desastre geológico em Maceió e um cenário de menor rentabilidade na indústria petroquímica.
A recuperação extrajudicial permite que a companhia negocie diretamente com seus credores. Depois, o acordo precisa passar pela homologação da Justiça. A estratégia busca ampliar os prazos para pagamento, reduzir os custos financeiros e estabelecer períodos de carência.
A crise financeira da Braskem se desenvolveu ao longo dos últimos anos. Nesse período, a companhia precisou lidar com os custos do desastre provocado pela exploração de sal-gema em Maceió. Ao mesmo tempo, a indústria petroquímica enfrentou aumento da produção mundial e redução das margens.

Segundo informações apresentadas no processo de reestruturação, a dívida da companhia chegou a cerca de R$ 60 bilhões, considerando também os passivos da Braskem Idesa, subsidiária no México. A recuperação extrajudicial envolve mais de US$ 10 bilhões em dívidas das operações no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa.
O desastre de Maceió e a conta bilionária
A crise da Braskem está diretamente relacionada ao desastre geológico registrado em Maceió. A companhia explorou sal-gema na capital alagoana durante décadas. A partir de 2018, bairros da cidade passaram a registrar rachaduras e sinais de instabilidade no solo.
Em maio de 2019, o Serviço Geológico do Brasil concluiu que o fenômeno estava relacionado à atividade de mineração de sal-gema realizada pela empresa.
Como consequência, mais de 14 mil imóveis foram desocupados. Cerca de 60 mil pessoas foram afetadas pelo deslocamento urbano. A Braskem passou a firmar acordos com autoridades para indenizar moradores, comerciantes e o poder público.
Até agora, a empresa desembolsou mais de R$ 4,2 bilhões em indenizações, auxílios temporários e ações de apoio à realocação. Além disso, mantém R$ 3,24 bilhões provisionados para despesas futuras relacionadas ao desastre.

Em 2023, a Braskem firmou um acordo que previa o pagamento de R$ 1,7 bilhão ao município de Maceió. Já em novembro de 2025, assinou outro compromisso, desta vez com o governo de Alagoas, no valor de R$ 1,2 bilhão.
Enquanto a conta aumentava, o setor perdeu força
Além dos custos relacionados a Maceió, a Braskem passou a enfrentar dificuldades no mercado internacional.
A indústria petroquímica registrou aumento da capacidade produtiva nos últimos anos. A China teve participação importante nesse movimento. Segundo relatório da consultoria ICIS, o país adicionou mais de 18 milhões de toneladas por ano de nova capacidade produtiva em 2024.
Com mais produtos disponíveis, os preços recuaram. Ao mesmo tempo, a inflação e os juros elevados reduziram o ritmo de consumo em diferentes mercados.
Esse cenário pressionou as margens das empresas do setor. A Fitch projeta que os spreads petroquímicos permaneçam baixos pelo menos até 2028.
Na Braskem, a pressão apareceu nos resultados. O EBITDA recorrente, indicador utilizado para medir a geração de caixa operacional, somou US$ 557 milhões em 2025. O resultado representou uma queda de 49% em relação ao ano anterior.

Endividamento aumenta a pressão sobre a empresa
Com o aumento dos custos e a redução da geração de caixa, a situação financeira da Braskem se tornou mais difícil.
No fim de 2025, a dívida líquida da companhia somava US$ 7,5 bilhões. A relação entre a dívida e a geração de caixa chegou a 14,7 vezes. Esse indicador é utilizado pelo mercado para avaliar a capacidade de uma empresa de cumprir suas obrigações financeiras.
As dificuldades também afetaram as ações da companhia. Desde o início da crise em Maceió, os papéis da Braskem acumulavam queda de aproximadamente 82% até junho de 2026. As ações passaram de R$ 42,05, em fevereiro de 2018, para R$ 7,51 em 18 de junho deste ano.
Além disso, a crise alcançou as operações internacionais. A Braskem Idesa, no México, deixou de pagar juros de títulos com vencimento em 2029 e 2032. A situação caracterizou um evento de inadimplência.
Mudança no controle antecedeu a reestruturação
A Braskem também passou por uma mudança em sua estrutura de controle.
Em abril, a Novonor, antiga Odebrecht, assinou contrato para vender o controle da petroquímica ao fundo Shine I, assessorado pela IG4 Capital. A operação envolveu aproximadamente 50,1% das ações com direito a voto.
A transação também estava relacionada a cerca de R$ 20 bilhões em dívidas da holding garantidas por ações da própria Braskem.
Com a conclusão do negócio, em junho, a IG4 passou a dividir o controle da companhia com a Petrobras. A nova controladora assumiu as negociações com bancos e demais credores e iniciou a elaboração de um plano para reorganizar as finanças.
A proposta apresentada aos credores prevê prazos maiores para pagamento, redução dos juros e períodos de carência. O plano, contudo, não inclui novos aportes dos acionistas nem a conversão de parte das dívidas em participação na empresa.
Credores rejeitaram primeira proposta
As negociações com os credores avançaram ao longo de agosto. Entretanto, a empresa ainda enfrentava resistência a alguns pontos do plano.
Uma das propostas previa carência de cinco anos para o pagamento do principal e de dois anos e meio para os juros. Os credores rejeitaram essas condições.
Parte dos credores também pressionava a Petrobras a realizar um novo aporte na Braskem. A estatal, porém, resistia à possibilidade. Entre os motivos estava o risco de aumentar sua participação na petroquímica e incorporar a dívida da empresa ao próprio balanço.
Além disso, a estrutura discutida previa um período de 90 dias para suspender cobranças enquanto Braskem e credores negociavam os termos da reestruturação.
A Braskem também negociava a reorganização de aproximadamente US$ 2 bilhões em dívidas da Braskem Idesa. Na semana anterior, a subsidiária mexicana entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos após alcançar um acordo com credores e acionistas.
Assim, a recuperação extrajudicial representa a mais recente etapa do processo de reorganização financeira da Braskem. A empresa agora busca um acordo com os credores para alongar os pagamentos e reduzir a pressão sobre o caixa.
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