A 40 dias da eleição, Lula coloca o bolso do eleitor no centro da agenda
Salário mínimo maior, mais beneficiários do Bolsa Família e possível fim da “taxa das blusinhas” formam sequência de anúncios com potencial eleitoral; segundo Marcos Marinho, governantes usam a máquina para produzir notícias positivas na disputa pela reeleição
A pouco mais de um mês do primeiro turno das eleições, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acumula anúncios e medidas com potencial de impacto direto sobre o bolso do cidadão. A sequência reúne a previsão de aumento do salário mínimo para R$ 1.741 em 2027, o crescimento do número de beneficiários unipessoais do Bolsa Família e a articulação para encerrar a chamada “taxa das blusinhas”, cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, deixando 40 dias entre o cenário atual e a votação, em um momento em que a disputa pela Presidência começa a entrar na fase mais decisiva.
A nova projeção para o salário mínimo, que ainda precisa ser confirmada na tramitação do Orçamento de 2027, representa uma alta de R$ 120 em relação aos atuais R$ 1.621, equivalente a 7,4%. O valor também serve de referência para benefícios previdenciários e assistenciais, ampliando o alcance da medida para além dos trabalhadores que recebem o piso nacional. Já o Bolsa Família chegou a 3,9 milhões de beneficiários que vivem sozinhos em julho, 344 mil acima do registrado em janeiro. O crescimento ocorre depois de uma trajetória de redução provocada por revisões cadastrais e reacende o debate sobre a expansão dos benefícios em um ano eleitoral, embora o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social negue indícios de uso eleitoral e afirme manter mecanismos de fiscalização.
Na outra frente, Lula anunciou que pretende discutir e anunciar nesta quarta-feira (26) o fim da “taxa das blusinhas” em reunião com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). A cobrança está temporariamente suspensa por uma medida provisória que perde validade em 8 de setembro caso não seja analisada pelo Congresso, o que faria a tributação voltar a vigorar menos de um mês antes do primeiro turno. O próprio presidente tem tratado o tema como uma pauta de interesse popular e afirmou que pretende anunciar o fim da cobrança ao lado de Alcolumbre. A medida, por atingir diretamente o preço de produtos comprados no exterior, tem potencial para alcançar um público diferente daquele beneficiado diretamente por programas sociais ou pelo reajuste do salário mínimo.
Para o cientista político Marcos Marinho, a movimentação de governos em períodos eleitorais é um comportamento recorrente entre os chamados incumbentes, aqueles que já ocupam o cargo e disputam a permanência no poder. Segundo ele, a estrutura governamental permite que o candidato à reeleição produza ações capazes de gerar repercussão positiva junto ao eleitorado. “Todo incumbente, ele sempre vai tentar usar da capacidade da máquina de gerar ações que impactem no eleitorado no período eleitoral, isso é um fato, todo mundo faz isso”, afirma. Na avaliação de Marinho, ao anunciar medidas que beneficiam determinados grupos, o governo busca melhorar a percepção da população sobre sua própria gestão, o que pode se refletir na disputa eleitoral.
O efeito político, segundo o cientista político, passa também pela capacidade de transformar a medida em notícia e fazê-la chegar justamente aos segmentos que podem se sentir contemplados. “Ao anunciar medidas que podem, sim, beneficiar de alguma forma a população, os governos tudo fazem para tentar melhorar a percepção do eleitorado em relação às suas gestões”, afirma. Para ele, a estratégia não se limita ao benefício concreto, mas envolve também a comunicação política produzida a partir dele. “Isso ele o faz é para que se gere um fato noticiável e essa notícia possa alcançar a franja eleitoral que vai se sentir melhor atendida, mais beneficiada pela ação do governo”, explica.
A sequência de medidas anunciadas pelo governo alcança públicos distintos. O reajuste do salário mínimo conversa diretamente com trabalhadores de menor renda e milhões de brasileiros que recebem benefícios vinculados ao piso nacional. A ampliação dos beneficiários unipessoais do Bolsa Família atinge principalmente a população em situação de vulnerabilidade social, enquanto o possível fim da “taxa das blusinhas” pode produzir uma percepção de economia entre consumidores que realizam compras internacionais. Embora tenham naturezas diferentes, as três pautas possuem em comum a capacidade de gerar uma percepção concreta de ganho financeiro ou redução de custos para parcelas do eleitorado.
Marinho avalia ainda que, em uma campanha de reeleição, existe uma disputa pela narrativa sobre o desempenho do governo. Medidas positivas, obras e entregas podem ser utilizadas para tentar ocupar o espaço de notícias negativas acumuladas durante o mandato. “A grande questão é, né, o Lula, como todo governador que tá em reeleição, quer que nesse período eleitoral notícias boas venham suplantar as notícias ruins dos seus mandatos atuais, já que estão em busca da reeleição”, afirma. Segundo ele, os governantes tendem a aproveitar o período para ampliar a exposição de ações que possam fortalecer a relação com grupos específicos do eleitorado. “Então eles vão tentar trazer benefícios, entregar obras, fazer ações que possam reverberar na sociedade e, com isso, chamar a atenção ou, realmente, consolidar uma relação positiva com grupos sociais específicos que vão ser mais beneficiados pela ação, pela medida ou pela obra”, diz.
Para o cientista político, a capacidade de utilizar a estrutura de governo durante a disputa também pode ser especialmente relevante quando o candidato à reeleição enfrenta dificuldades nas pesquisas de aprovação ou intenção de voto. “Quando o governo, o governante, principalmente, que tá em disputa da reeleição, percebe que precisa melhorar nas pesquisas de intenção de voto e nas pesquisas de aprovação, porque isso também impacta nas pesquisas de intenção de voto, ele vai sempre lançar na cartela de termos de voto”, afirma. Na sequência, Marinho resume o papel dessa vantagem institucional na disputa: “A máquina na mão e usando a máquina poder fazer algo que melhore a perspectiva que tem sobre ele o eleitorado”.
A avaliação, entretanto, não significa que toda medida anunciada às vésperas de uma eleição tenha necessariamente sido criada com finalidade eleitoral. Marinho chama atenção para o peso do processo legislativo e para a demora na aprovação de projetos que dependem do Congresso. Segundo ele, pacotes mais amplos de benefícios podem enfrentar obstáculos, seja pela burocracia, seja pela falta de acordo político. “Pacotes muito complexos, muito amplos de benefícios demanda a aprovação do Congresso, muitas vezes o Congresso pode travar o processo, a burocracia pode fazer demorar e isso naturalmente vai se arrastando”, explica.
Nesse contexto, o momento em que uma medida é finalmente aprovada ou anunciada pode acabar sendo politicamente relevante mesmo que sua tramitação tenha começado muito antes. “Aí no período eleitoral o governo vai tentar que isso seja aprovado, poderia ter sido aprovado antes talvez, mas não o foi, porque o Congresso sentou eleitoral em cima e não botou pra andar ou então o próprio governo também não fez força suficiente para aprovar antes e deixou para última hora para que se torna um fato noticiável durante a campanha”, afirma Marinho. Para ele, existem, portanto, diferentes possibilidades para explicar por que determinadas medidas chegam ao eleitor justamente na reta final da disputa.
A combinação entre o calendário eleitoral e a agenda econômica e social cria, de todo modo, uma conjuntura favorável para que o governo explore temas capazes de produzir percepção imediata de benefício. A 40 dias do primeiro turno, salário mínimo, Bolsa Família e redução de custos para consumidores passam a integrar uma agenda que conversa diretamente com diferentes segmentos da população. O efeito eleitoral dessas medidas dependerá da capacidade de o governo transformar anúncios em percepção positiva e, posteriormente, essa percepção em voto, mas, como observa Marinho, a utilização da estrutura administrativa para produzir ações e notícias favoráveis é uma característica recorrente de governos que disputam a própria continuidade no poder.
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