quinta-feira, 15 de outubro de 2026
redução

Goiânia perde 37,6% da malha cicloviária em cinco anos

Capital passou de 120,38 km de infraestrutura para bicicletas em 2021 para 75,04 km em 2026, segundo dados da SET

Anna Salgadopor em
Goiânia perde 37,6% da malha cicloviária em cinco anos
Redução representa perda de 45,34 km de infraestrutura cicloviária em cinco anos; trechos que permanecem apresentam problemas de sinalização e conservação | Foto: Divulgação/SET

Goiânia perdeu 37,6% da malha cicloviária nos últimos cinco anos, segundo dados da Secretaria Municipal de Engenharia de Trânsito (SET). A infraestrutura para ciclistas caiu de 120,38 quilômetros (km), em 2021, para 75,04 km em 2026. O total atual também está abaixo do registrado há dez anos, quando a Capital contava com 78,14 km de estrutura cicloviária.

Dos 75,04 km existentes atualmente, 23,62 km correspondem a ciclovias permanentes, 18 km a ciclofaixas e 33,42 km a ciclorrotas. Parte da infraestrutura apresenta problemas de conservação. Na ciclofaixa que liga os parques Areião e Vaca Brava, na Avenida T-12, há trechos com sinalização apagada após obras de asfalto. Nesses pontos, apenas a sinalização destinada aos veículos foi refeita. Situação semelhante ocorre na Alameda Coronel Eugênio Jardim.

Também houve supressão de trechos de infraestrutura cicloviária. Na Avenida T-6, a ciclofaixa instalada em 2024 foi retirada durante o recapeamento. Na Avenida T-3, a sinalização foi apagada após a implantação do binário com a T-10.

Projetos para bicicletas não saíram do papel

A redução da malha ocorre enquanto projetos de incentivo ao uso de bicicletas anunciados pela gestão municipal permanecem sem implantação. Em maio de 2025, o prefeito Sandro Mabel anunciou o City Bike, projeto de bicicletas elétricas compartilhadas integradas ao transporte público por meio do Bilhete Único. A proposta previa a retirada das bicicletas nos terminais, com possibilidade de utilização por até 12 horas sem custo adicional.

O projeto-piloto estava previsto para junho de 2025, no Terminal Recanto do Bosque, com 150 bicicletas. Em julho, a implantação foi adiada sem definição de uma nova data. Na ocasião, a SET atribuiu o adiamento a “entraves na cadeia de suprimentos”. Posteriormente, o Consórcio BRT (RedeMob) informou previsão de início para a segunda metade de 2026.

Até o momento, as bicicletas elétricas compartilhadas não foram implantadas. Também não foram instalados os 200 km de ciclovias prometidos por Mabel em dezembro de 2025. Paralelamente, a gestão municipal priorizou a chamada “metronização”, sistema de semáforos inteligentes previsto para 240 km de vias e que, segundo as informações apresentadas, não contempla integração cicloviária.

Especialistas criticam política de mobilidade

Para o engenheiro de trânsito e professor do Instituto Federal de Goiás (IFG), Marcos Rothen, a redução da infraestrutura indica que o transporte por bicicleta não está entre as prioridades da administração municipal. “Goiânia já não era uma cidade amigável para os ciclistas, a redução das existentes significa que esse modal não é uma prioridade para a prefeitura. Goiânia é talvez a única cidade grande no mundo que demonstra uma prioridade máxima para os automóveis”, afirma.

Rothen também questiona a utilização do termo “metronização” para definir o sistema implantado no transporte público. “Não tem relação com as ciclovias. É o nome fantasia para definir prioridade para os ônibus em cruzamentos. É importante, mas está longe de ser metrô. Goiânia se apropriou disso e adotou o termo para enfeitar”, afirma.

A integração entre bicicletas e transporte coletivo é defendida por Rothen como uma alternativa para ampliar o uso do modal. Sobre o projeto de bicicletas compartilhadas, o professor afirma que a iniciativa teria sido descontinuada por falta de interesse da prefeitura. Segundo Rothen, o modelo depende de patrocínio e cita São Paulo como exemplo de incentivo ao uso de bicicletas.

O arquiteto e urbanista Fred Le Blue relaciona a redução da malha cicloviária à forma de ocupação e distribuição do espaço público. “A redução da malha cicloviária interfere na forma como Goiânia ocupa e distribui o espaço público. Advém de uma perspectiva automóvel cêntrica, que pensa a mobilidade urbana alinhada ao tempo capitalista”, explica.

Le Blue também relaciona a supressão de ciclovias e praças ao incentivo ao uso de veículos individuais. “Com carros cada vez maiores (SUVs), percebemos uma tentativa de privatização blindada do espaço público, que deveria ser coibida com o aumento do IPVA proporcional ao tamanho do carro”, afirma.

Na avaliação do urbanista, o uso da bicicleta também está relacionado a questões ambientais e de saúde. “A bicicleta é limpa e mitiga o aquecimento global. Já o excesso de carros gera sedentarismo, depressão e acidentes graves”, afirma. Entre 2018 e 2022, a Grande Goiânia registrou 1.420 mortes no trânsito.

Le Blue também critica a chamada “metronização” por considerar que o sistema desconsidera “o direito de deslocamento, acessibilidade e inclusão de Pessoas com Deficiência (PcD), com Mobilidade Reduzida (PMR) e pedestres, ainda mais após o projeto ‘Direita Livre’”.

“GO Bike”

O coletivo “PcD/PcD”, do qual Le Blue participa, propõe a política “GO Bike”. A proposta inclui o programa Vou de Bike, que prevê desconto no IPTU para empresas que disponham de bicicletários, e o plano Ciclo é Via, voltado à implantação de ciclovias estruturantes.

A atual configuração da mobilidade cicloviária contrasta com períodos anteriores da história de Goiânia. Na década de 1950, a Capital era conhecida como a “capital brasileira das bicicletas”, devido ao intenso fluxo de bicicletas na região central. Em 1980, dados do IPLAN registravam 47.783 viagens diárias realizadas sobre duas rodas, correspondentes a 23% da população ativa.

A primeira ciclovia da Capital foi aberta em 1981, no Córrego Botafogo, mas posteriormente acabou ocupada por atividades informais.

 

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