Sem poder para abrir sigilo, Lula transforma caso Master em discurso político
Presidente defende quebra total do sigilo das investigações, mas não tem poder para determinar medida; discurso de transparência parece mais uma jogada política do que ação concreta
Bruno Goulart
O presidente Lula da Silva (PT) decidiu assumir protagonismo na crise que envolve o Banco Master e o Supremo Tribunal Federal (STF). Nesta quarta-feira (9), o presidente defendeu a quebra completa do sigilo das investigações e afirmou que todos os envolvidos precisam ser conhecidos. Em uma rede social, Lula classificou o episódio como o “maior crime financeiro da história do Brasil” e cobrou explicações e medidas imediatas. O discurso, porém, precisa ser analisado para além da retórica: Lula não tem poder para determinar a abertura do sigilo de uma investigação conduzida pelo Judiciário.
É justamente aí que está a principal fragilidade da declaração presidencial. Executivo, Legislativo e Judiciário são Poderes independentes e harmônicos, com atribuições próprias. Cabe às autoridades responsáveis pelo processo decidir sobre sigilos, divulgação de documentos e andamento das investigações, dentro dos limites estabelecidos pela legislação. Portanto, mesmo que Lula peça publicamente a quebra do sigilo, é muito improvável que a declaração presidencial, por si só, produza qualquer efeito concreto sobre a investigação. Lula sabe disso. Por isso, a manifestação tem muito mais características de um discurso político do que de uma medida que possa ser efetivamente executada pelo Palácio do Planalto.
Lula e Flávio empatados
A oportunidade da manifestação também chama atenção. Pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira mostra Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados no primeiro turno. O presidente aparece com 38,4% das intenções de voto, contra 37,3% de Flávio. No segundo turno, o empate é numérico: 46% para cada um. A margem de erro é de 2,5 pontos percentuais e o levantamento está registrado sob número BR-07935/2026.
Politicamente, a estratégia de Lula é compreensível. Ao defender a abertura das investigações, o presidente tenta assumir o discurso de quem não teme o esclarecimento dos fatos. A mensagem é: não importa quem apareça nas investigações, todos devem ser conhecidos. É uma maneira de tentar colocar a responsabilidade sobre eventuais irregularidades nos indivíduos envolvidos e, ao mesmo tempo, impedir que a oposição monopolize o discurso de combate à corrupção e de cobrança por transparência.
Para o deputado federal Alberto Fraga (PL-DF), a manifestação é consequência do desgaste eleitoral do presidente. “Desespero, porque a situação atual prejudica o presidente na eleição”, afirma. Fraga diz ser favorável à abertura das investigações, mas questiona a iniciativa de Lula: “Não é papel do presidente da República pedir isso. Ele está querendo angariar apoio, mas é um pouco tarde”.
O deputado estadual Eduardo Prado (PL) também classificou a iniciativa como eleitoral. Na avaliação do parlamentar, Lula tenta criar uma cortina de fumaça diante do avanço da crise. “Ele está querendo abrir uma caixa de Pandora para mostrar tudo isso. É uma sacada eleitoreira, mas vai dar um tiro no pé”, afirma.
Sacada eleitoreira
O episódio também revela outra dificuldade para Lula: o presidente tenta transformar uma investigação que não controla em instrumento político. Ao cobrar a quebra do sigilo, Lula ganha espaço no debate público, mas não ganha necessariamente poder para fazer com que a medida aconteça. Se o Judiciário decidir manter informações sob sigilo, o presidente terá feito um forte discurso político sem produzir qualquer mudança prática.
E esse parece ser o ponto mais importante da declaração. Lula provavelmente sabe que não basta pedir para que um processo judicial tenha seu sigilo quebrado. Sabe também que não cabe ao presidente ordenar ao STF ou à Polícia Federal como devem conduzir uma investigação. Por isso, a fala deve ser entendida muito mais como uma mensagem ao eleitorado do que como uma ordem capaz de alterar o curso do caso Master.
A crise institucional, entretanto, oferece riscos para todos os lados. Nos últimos dias, decisões conflitantes dentro do STF que envolvem a Polícia Federal aumentaram a tensão. O ministro André Mendonça havia determinado o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, mas a decisão foi posteriormente revertida pelo ministro Flávio Dino e, em seguida, pelo presidente da Corte, Edson Fachin. O episódio expôs publicamente divergências dentro da própria Corte e ampliou a dimensão política do caso. (Especial para O HOJE)
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