Terceira proposta de delação de Vorcaro cita ACM Neto e Rueda em negócios com o Banco Master
Documento atribuído ao ex-banqueiro relata supostos pagamentos ligados à captação de investimentos e menciona operações com fundos de previdência e o BRB
Uma proposta de delação premiada atribuída a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, apresenta relatos sobre a atuação de integrantes do União Brasil na aproximação de investidores e instituições públicas com o banco. Entre os nomes citados estão Antônio Carlos Magalhães Neto, candidato ao governo da Bahia, e Antônio de Rueda, presidente nacional do partido e candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro.
Segundo o documento, ao qual o UOL afirma ter tido acesso, Vorcaro teria estabelecido um modelo de remuneração de 10% sobre determinados valores captados por meio da atuação dos dois políticos. O ex-banqueiro também teria relatado que os pagamentos relacionados às operações poderiam beneficiar, além de ACM Neto e Rueda, o então presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa.
Um dos episódios descritos envolve justamente o BRB. De acordo com a versão apresentada por Vorcaro, Rueda teria intermediado uma aproximação com Paulo Henrique Costa em 2024, quando o banco público enfrentava dificuldades para viabilizar uma proposta de aumento de capital estimada em R$ 1 bilhão. O encontro teria ocorrido na casa de Rueda, em Brasília.
A narrativa apresentada na proposta afirma que o então presidente do BRB teria buscado auxílio para conseguir investidores antes do encerramento da operação. Vorcaro relata que um colaborador teria sido mobilizado para aportar recursos e que, posteriormente, o grupo ligado ao Master teria aplicado aproximadamente R$ 750 milhões no banco.
A operação teria sido acompanhada por uma movimentação ainda maior: segundo o relato atribuído a Vorcaro, o BRB adquiriu cerca de R$ 6 bilhões em carteiras do Banco Master durante 2024. O documento afirma ainda que, paralelamente, teria sido exigida uma comissão correspondente a 10% dos valores efetivamente desembolsados pelo BRB na compra de ativos do Master.
O próprio documento apresenta uma divisão dos supostos pagamentos. Em um dos trechos, Vorcaro afirma que as vantagens indevidas seriam repartidas entre Rueda, Paulo Henrique Costa e ACM Neto. A proposta também menciona que, para cada grupo político responsável por captar investimentos, seria destinado o equivalente a 10% do valor aplicado ou 1% ao ano enquanto os recursos permanecessem no Banco Master. A forma exata de escolha e operacionalização desse percentual, porém, não é detalhada no material.
No caso específico de ACM Neto, o documento descreve quatro formas pelas quais os supostos repasses teriam ocorrido. Uma delas seria por meio de recursos de empresas e pessoas ligadas a Augusto Lima e Antônio Freixo, da Entre Investimentos e Participações. Outra envolveria contratos de consultoria entre a A&M Consultoria Ltda., empresa ligada a ACM Neto, e o Banco Master.
Também são mencionados contratos entre a A&M e a Reag, além de acordos com a B6 Capital, gestora relacionada a ACM Neto. A proposta sustenta que esses mecanismos teriam sido utilizados para viabilizar os pagamentos.
Em relação a Rueda, Vorcaro aponta dois caminhos. O primeiro seria a utilização de recursos de empresas e pessoas ligadas a Augusto Lima e Antônio Freixo. O segundo envolveria contratos entre empresas do conglomerado Master e o escritório Rueda & Rueda Advogados, que, segundo o relato, somariam aproximadamente R$ 3 milhões mensais.
O ex-banqueiro também cita mensagens trocadas com integrantes do Master que, segundo ele, ajudariam a demonstrar a relação. Em uma delas, uma funcionária teria recebido pedido para incluir na agenda uma reunião com Rueda. Em outra conversa, aparece uma pergunta sobre um helicóptero destinado a ACM Neto e Rueda. Vorcaro teria respondido afirmativamente à solicitação.
Outro episódio narrado envolve novamente Rueda e o BRB. Vorcaro afirma que recebeu uma ligação do dirigente do União Brasil em junho de 2024 para participar de uma reunião com Paulo Henrique Costa. Na ocasião, segundo a proposta, o objetivo seria discutir uma maneira de viabilizar o aumento de capital do banco público.
A versão apresentada pelo ex-banqueiro afirma que Costa teria se comprometido a comprar ativos do Master por valor até dez vezes superior ao montante que fosse investido pelo colaborador na operação. Ainda segundo o documento, esse investidor teria adquirido ações por meio de fundos administrados por Reag, Trustee e Master Corretora.
A proposta também atribui a Rueda e Paulo Henrique Costa uma cobrança de 10% sobre os valores desembolsados pelo BRB na compra de ativos do Master. Vorcaro afirma que os pagamentos seriam divididos em três partes. O documento aponta ainda João Carlos Mansur, da Reag, como uma das pessoas que poderiam confirmar parte dos relatos.
Há, porém, diferenças importantes entre os valores narrados na proposta e os registros mencionados no próprio material. O documento não esclarece quanto teria sido efetivamente pago aos políticos. Em relação aos investimentos, a soma atribuída aos quatro fundos de previdência citados chega a aproximadamente R$ 3,62 bilhões: R$ 2,97 bilhões aplicados pela RioPrevidência entre 2023 e 2025, R$ 400 milhões pela Amprev, do Amapá, R$ 200 milhões pela Cedae e R$ 50 milhões pela Amazonprev.
Vorcaro, entretanto, teria mencionado R$ 2 bilhões como resultado da atuação de ACM Neto e Rueda na captação de recursos. O documento não explica a origem dessa diferença nem apresenta, segundo o material analisado, a parcela correspondente a cada uma das instituições.
Há ainda outra divergência apontada no levantamento. Dados provenientes da quebra dos sigilos bancário e fiscal do Banco Master e de relatórios do Coaf indicariam repasses de R$ 6,4 milhões para escritórios relacionados a Rueda entre 2022 e 2025. A empresa de consultoria ligada a ACM Neto teria recebido R$ 5,4 milhões entre 2023 e 2025. Os demais pagamentos que Vorcaro afirma terem ocorrido não aparecem nesses registros.
A relação com os fundos de previdência também aparece em investigações anteriores. O ex-presidente da Rioprevidência Deivis Marcon Antunes foi preso pela Polícia Federal em fevereiro deste ano e, segundo a investigação mencionada no material, teria sido indicado ao cargo por Rueda em articulação com o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL).
No Amapá, a aplicação de R$ 400 milhões no Master teria passado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Davi Alcolumbre (União Brasil), que o indicou para a função. Já no Amazonas, a autorização para uma aplicação de R$ 50 milhões teria sido assinada por um presidente que havia assumido o cargo 28 dias antes e que, segundo o documento, era ex-contador da campanha de reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil).
Outro elemento citado na proposta diz respeito à existência de contratos entre o Banco Master e empresas ou escritórios ligados aos dois políticos. Vorcaro afirma que determinados contratos de consultoria teriam servido para justificar pagamentos. Ele também menciona encontros presenciais com ACM Neto e Rueda para acompanhar demandas relacionadas às chamadas contrapartidas.
Apesar da quantidade de informações reunidas no documento, há pontos que permanecem sem esclarecimento. A própria proposta, segundo o material, não identifica quanto cada fundo teria pago, não detalha atos específicos praticados por ACM Neto ou Rueda para cada investimento e não apresenta, de forma individualizada, quais valores teriam sido efetivamente repassados a cada político.
A defesa de João Carlos Mansur informou que não comentaria os relatos e classificou como absurdas as informações divulgadas. Já Antônio de Rueda afirmou ter dificuldade para se manifestar sobre um documento ao qual não teve acesso e negou qualquer irregularidade. A defesa sustenta que os contratos firmados pelo escritório Rueda & Rueda são legais, correspondem a serviços efetivamente prestados e fazem parte da atuação profissional do escritório, que representa mais de 2 mil processos, acumula mais de 20 mil protocolos, cerca de 400 audiências e aproximadamente 200 acordos firmados junto ao Judiciário.
ACM Neto também rejeitou as acusações. Em manifestação reproduzida no material, ele classificou as alegações como “absurdas, completamente fantasiosas e mentirosas” e afirmou que não é possível verificar a origem, autenticidade ou validade dos trechos apresentados. O político questionou ainda o vazamento de um documento que, segundo sua defesa, não teria sido aceito, assinado ou homologado.
Neto acrescentou que, no período mencionado, não ocupava cargo público e afirmou que os serviços de sua empresa foram contratados formalmente, com recolhimento de impostos e execução efetiva das atividades previstas.
A situação ganhou repercussão no contexto da investigação envolvendo o Banco Master depois que o ministro Alexandre de Moraes tornou público um relatório de inteligência da Polícia Federal relacionado ao caso. O material também está no centro do conflito institucional que levou o ministro André Mendonça a determinar o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Segundo a decisão de Mendonça, o relatório teria prejudicado a investigação relacionada a Rueda. A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, se posicionou contra medidas de busca e apreensão contra o dirigente do União Brasil, apontando fragilidade nas provas apresentadas.
A proposta de delação mencionada na reportagem não foi homologada. O próprio conteúdo apresentado pelas defesas questiona sua validade e autenticidade, enquanto os relatos atribuídos a Vorcaro permanecem sujeitos à apuração das autoridades. Portanto, as acusações descritas no documento não equivalem, por si só, a comprovação de que os fatos ocorreram.
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