quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Análise

Debate perde força na eleição e sabatina vira espaço mais seguro para candidatos

Ausência de líderes nas pesquisas mostra como candidatos passaram a evitar o confronto direto e preferir ambientes mais controlados

Bruno Goulartpor em
Debate Band
Na prática, a sabatina permite ao candidato desenvolver uma resposta por mais tempo e apresentar propostas sem precisar reagir, a todo momento, a provocações. Foto: TV Sucesso Band/Youtube

Bruno Goulart

Os debates eleitorais continuam sendo importantes, mas já não ocupam o mesmo espaço que tiveram em outras eleições. Em 2026, uma situação tem chamado atenção: candidatos que lideram ou aparecem bem colocados nas pesquisas estão, com mais frequência, escolhendo não participar desses encontros. Em Goiás, o exemplo mais recente é o debate da TV Sucesso/Band, marcado para este sábado (12), em Rio Verde. Daniel Vilela (MDB) não vai participar. Wilder Morais (PL) também pode ficar de fora.

Ao O HOJE, a campanha de Daniel Vilela afirmou que o governador não comparecerá ao debate porque estará cumprindo agenda na região do Entorno do Distrito Federal ao lado do presidenciável Ronaldo Caiado (PSD). Wilder, por sua vez, sinalizou que só deverá participar caso Daniel também esteja presente. Com isso, a tendência é que o encontro tenha apenas Marconi Perillo (PSDB) e Luis Cesar Bueno (PT).

 

A situação chama atenção porque Daniel já havia faltado ao primeiro debate da TV Sucesso, realizado em Goiânia antes do início oficial da campanha. Na época, o governador justificou que o encontro havia ocorrido antes do período eleitoral e, portanto, não poderia pedir votos. Depois, Daniel afirmou que participaria dos demais debates. No encontro promovido pela PUC TV, Difusora e Diário de Goiás, os quatro candidatos estiveram presentes. Também há expectativa de que todos participem de outros debates previstos para as próximas semanas.

Mas o que explica essa mudança?

A resposta passa menos por uma perda de importância dos debates e mais pelo próprio formato que eles assumiram. O confronto direto entre candidatos, que deveria servir para comparar propostas, muitas vezes acaba se transformando em uma disputa de ataques. E isso pode ser um problema principalmente para quem está na frente.

O consultor em marketing político e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Felipe Fulquim, avalia que o debate não perdeu relevância. O problema, segundo o especialista, é que os candidatos estão usando o espaço cada vez mais para atacar os adversários.

“O debate não perdeu a relevância. O que está acontecendo é que a gente tem um cenário duplo, em que os adversários estão usando os debates apenas para se atacar”, afirma Fulquim. Para o especialista, quando o encontro fica concentrado em agressões e acusações, o espaço para discutir propostas diminui.

“Em um cenário em que há um confronto direto de ideias ou de agressões verbais, você perde a qualidade e perde o ambiente adequado para discutir ideias, propostas e soluções”, explica.

Essa mudança ajuda a entender por que as sabatinas ganharam tanto espaço. Nesse formato, o candidato não precisa dividir o palco com um adversário que tem interesse direto em atacá-lo. Ele responde a jornalistas, pode ser questionado sobre assuntos difíceis e até sobre problemas de seu histórico político, mas dentro de um ambiente com regras e dinâmica mais previsíveis.

Para Fulquim, essa diferença é importante. “O ambiente é menos hostil do que ter um adversário direto te confrontando, tentando te desestabilizar”, afirma.

Previsibilidade da sabatina

Na prática, a sabatina permite ao candidato desenvolver uma resposta por mais tempo e apresentar propostas sem precisar reagir, a todo momento, a provocações. Para quem lidera uma disputa, isso pode ser ainda mais interessante. O candidato que está na frente não precisa necessariamente convencer o eleitor de que é melhor que todos os outros; muitas vezes, precisa apenas evitar um erro que mude o cenário da eleição.

É aí que está uma das principais razões para o enfraquecimento dos debates. Quanto maior a possibilidade de um candidato perder o controle, cometer uma frase infeliz ou ser colocado contra a parede diante das câmeras, maior também o risco político da participação. Nas redes sociais, uma resposta de poucos segundos pode ganhar mais repercussão do que todo o restante do debate.

Isso não significa, porém, que os debates tenham perdido sua função. Pelo contrário. O problema é que eles precisam voltar a cumprir um papel que está sendo deixado de lado: colocar projetos diferentes frente a frente. O eleitor deveria conseguir, ao final de um debate, entender melhor o que cada candidato pensa e quais soluções apresenta para os principais problemas do Estado ou do país.

O cenário nacional reforça essa tendência. O debate presidencial que seria realizado pelo consórcio de veículos “O Momento da Decisão”, em 14 de setembro, foi cancelado depois que Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) não confirmaram presença dentro do prazo. O primeiro debate presidencial televisionado deste ano, realizado pela Band, em 23 de agosto, também teve um quórum baixo: apenas 3 candidatos participaram, o menor número desde 1989.

Fulquim considera que essa tendência já vem sendo percebida nas últimas eleições. “Isso não acontece apenas nestas eleições, mas também nas últimas duas ou três eleições, especialmente nas disputas presidenciais”, afirma.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
debates Governo de Goiás presidência do Brasil sabatinas

Veja também

Flávio e Lula

Eleições 2026

Lula tem chance de virar disputa com Flávio no 2° turno? Analistas avaliam

Pesquisa Quaest mostra o senador do PL com 45% das intenções de voto, contra 44% do petista que te...
O que Flávio e Lula devem fazer (eleição de 2022 foi decidida na bala)

OPINIÃO

O que Flávio e Lula devem fazer (eleição de 2022 foi decidida na bala)

É impossível dizer com qualquer grau de certeza quem vai ganhar a eleição presidencial, pois as ...
TSE avalia suspender canais políticos do WhatsApp perto do segundo turno

ELEIÇÕES 2026

TSE avalia suspender canais políticos do WhatsApp perto do segundo turno

Minuta propõe desativar canais com mais de 200 mil seguidores por 72 horas ao redor da votação; s...
Campanhas de Flávio e Lula mobilizam apoiadores nas redes na reta final

Eleições 2026

Campanhas de Flávio e Lula mobilizam apoiadores nas redes na reta final

Com apoio de aliados na coordenação da disputa, presidenciáveis disputam atenção do eleitor nas...
Votar no domingo vale como prova de vida no INSS para aposentados e pensionistas

ELEIÇÕES 2026

Votar no domingo vale como prova de vida no INSS para aposentados e pensionistas

Para eleitores com 70 anos ou mais, o comparecimento às urnas no segundo turno é registrado automa...
Flávio Bolsonaro

Eleições 2026

Flávio Bolsonaro é único presidenciável a recusar sabatina do SBT

Senador alegou compromissos de agenda para não participar da entrevista
Lula aceita desafio de Flávio e inclui filhos e ex-assessor na proposta de abertura de sigilos

Segundo turno

Lula aceita desafio de Flávio e inclui filhos e ex-assessor na proposta de abertura de sigilos

Campanha de Lula promete resposta ao TSE sobre quebra de sigilos de 20 anos
Celina descarta novo debate com Grass: “Não pretendo encontrar com ele”

POLÍTICA

Celina descarta novo debate com Grass: “Não pretendo encontrar com ele”

Governadora afirma que estratégia é conquistar indecisos e eleitores que votaram em outros candida...