Debate perde força na eleição e sabatina vira espaço mais seguro para candidatos
Ausência de líderes nas pesquisas mostra como candidatos passaram a evitar o confronto direto e preferir ambientes mais controlados
Bruno Goulart
Os debates eleitorais continuam sendo importantes, mas já não ocupam o mesmo espaço que tiveram em outras eleições. Em 2026, uma situação tem chamado atenção: candidatos que lideram ou aparecem bem colocados nas pesquisas estão, com mais frequência, escolhendo não participar desses encontros. Em Goiás, o exemplo mais recente é o debate da TV Sucesso/Band, marcado para este sábado (12), em Rio Verde. Daniel Vilela (MDB) não vai participar. Wilder Morais (PL) também pode ficar de fora.
Ao O HOJE, a campanha de Daniel Vilela afirmou que o governador não comparecerá ao debate porque estará cumprindo agenda na região do Entorno do Distrito Federal ao lado do presidenciável Ronaldo Caiado (PSD). Wilder, por sua vez, sinalizou que só deverá participar caso Daniel também esteja presente. Com isso, a tendência é que o encontro tenha apenas Marconi Perillo (PSDB) e Luis Cesar Bueno (PT).
A situação chama atenção porque Daniel já havia faltado ao primeiro debate da TV Sucesso, realizado em Goiânia antes do início oficial da campanha. Na época, o governador justificou que o encontro havia ocorrido antes do período eleitoral e, portanto, não poderia pedir votos. Depois, Daniel afirmou que participaria dos demais debates. No encontro promovido pela PUC TV, Difusora e Diário de Goiás, os quatro candidatos estiveram presentes. Também há expectativa de que todos participem de outros debates previstos para as próximas semanas.
Mas o que explica essa mudança?
A resposta passa menos por uma perda de importância dos debates e mais pelo próprio formato que eles assumiram. O confronto direto entre candidatos, que deveria servir para comparar propostas, muitas vezes acaba se transformando em uma disputa de ataques. E isso pode ser um problema principalmente para quem está na frente.
O consultor em marketing político e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Felipe Fulquim, avalia que o debate não perdeu relevância. O problema, segundo o especialista, é que os candidatos estão usando o espaço cada vez mais para atacar os adversários.
“O debate não perdeu a relevância. O que está acontecendo é que a gente tem um cenário duplo, em que os adversários estão usando os debates apenas para se atacar”, afirma Fulquim. Para o especialista, quando o encontro fica concentrado em agressões e acusações, o espaço para discutir propostas diminui.
“Em um cenário em que há um confronto direto de ideias ou de agressões verbais, você perde a qualidade e perde o ambiente adequado para discutir ideias, propostas e soluções”, explica.
Essa mudança ajuda a entender por que as sabatinas ganharam tanto espaço. Nesse formato, o candidato não precisa dividir o palco com um adversário que tem interesse direto em atacá-lo. Ele responde a jornalistas, pode ser questionado sobre assuntos difíceis e até sobre problemas de seu histórico político, mas dentro de um ambiente com regras e dinâmica mais previsíveis.
Para Fulquim, essa diferença é importante. “O ambiente é menos hostil do que ter um adversário direto te confrontando, tentando te desestabilizar”, afirma.
Previsibilidade da sabatina
Na prática, a sabatina permite ao candidato desenvolver uma resposta por mais tempo e apresentar propostas sem precisar reagir, a todo momento, a provocações. Para quem lidera uma disputa, isso pode ser ainda mais interessante. O candidato que está na frente não precisa necessariamente convencer o eleitor de que é melhor que todos os outros; muitas vezes, precisa apenas evitar um erro que mude o cenário da eleição.
É aí que está uma das principais razões para o enfraquecimento dos debates. Quanto maior a possibilidade de um candidato perder o controle, cometer uma frase infeliz ou ser colocado contra a parede diante das câmeras, maior também o risco político da participação. Nas redes sociais, uma resposta de poucos segundos pode ganhar mais repercussão do que todo o restante do debate.
Isso não significa, porém, que os debates tenham perdido sua função. Pelo contrário. O problema é que eles precisam voltar a cumprir um papel que está sendo deixado de lado: colocar projetos diferentes frente a frente. O eleitor deveria conseguir, ao final de um debate, entender melhor o que cada candidato pensa e quais soluções apresenta para os principais problemas do Estado ou do país.
O cenário nacional reforça essa tendência. O debate presidencial que seria realizado pelo consórcio de veículos “O Momento da Decisão”, em 14 de setembro, foi cancelado depois que Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) não confirmaram presença dentro do prazo. O primeiro debate presidencial televisionado deste ano, realizado pela Band, em 23 de agosto, também teve um quórum baixo: apenas 3 candidatos participaram, o menor número desde 1989.
Fulquim considera que essa tendência já vem sendo percebida nas últimas eleições. “Isso não acontece apenas nestas eleições, mas também nas últimas duas ou três eleições, especialmente nas disputas presidenciais”, afirma.
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