Juros sobem na Europa e nos EUA e Banco Central brasileiro pode adiar corte da Selic
Europa eleva juros, inflação dos EUA preocupa e Brasil avalia se mantém corte da Selic
A alta dos juros na zona do euro e a pressão inflacionária nos Estados Unidos mudam o cenário externo às vésperas das próximas decisões do BCE, do Fed e do Copom
A política monetária brasileira entra em uma semana de decisões diante de um cenário internacional diferente do que estava previsto há poucos dias. Enquanto o Banco Central Europeu (BCE) elevou sua taxa básica para 2,5%, os Estados Unidos registraram inflação de 5,4% no atacado em agosto. Com isso, aumentou a atenção dos mercados sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed) e do Banco Central brasileiro.
No Brasil, a Selic está em 14% ao ano. O mercado vinha trabalhando com a possibilidade de um corte de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Agora, porém, economistas avaliam que a decisão dependerá também do comportamento do câmbio, dos preços de energia e das medidas adotadas pelos bancos centrais das principais economias.
O que mudou no cenário internacional
A decisão do BCE ocorreu em meio à persistência da inflação na zona do euro. Em agosto, a inflação da região chegou a 3,3%, acima da meta de 2%. Ao mesmo tempo, os preços de energia avançaram mais de 14%.
O movimento ganhou força com a alta do petróleo, que ultrapassou US$ 100 por barril, e com as incertezas provocadas pela situação geopolítica no Oriente Médio. A região também enfrenta preocupações relacionadas ao fluxo de mercadorias pelo Estreito de Ormuz.

A combinação desses fatores elevou os rendimentos dos títulos europeus e aumentou a possibilidade de novos ajustes nos juros até o fim do ano. O BCE, entretanto, indica que os próximos passos dependerão da evolução do conflito e de seus efeitos sobre salários e preços.
Nos Estados Unidos, a inflação ao produtor também colocou o mercado em alerta. O índice chegou a 5,4% em agosto. Embora o resultado tenha ficado dentro das expectativas, a leitura reforçou as apostas de que o Federal Reserve poderá elevar os juros.
A probabilidade de uma alta na próxima reunião chegou a 74%, segundo as projeções citadas no levantamento. Além disso, os juros dos títulos do Tesouro americano de dez anos ultrapassaram 4,9%, maior nível desde outubro de 2023.
Por que os juros lá fora importam para o Brasil
As decisões tomadas pelos bancos centrais das economias desenvolvidas afetam o Brasil principalmente por meio do fluxo de capital e do câmbio. Quando os juros nos Estados Unidos e na Europa sobem, os investimentos em ativos dessas economias podem se tornar mais atrativos.
Nesse cenário, o diferencial entre os juros brasileiros e os praticados no exterior pode diminuir. Como consequência, o real pode sofrer pressão. Um dólar mais valorizado, por sua vez, encarece produtos importados e pode aumentar os custos de empresas brasileiras.
O petróleo também entra nessa equação. Mesmo com menor dependência de importações em comparação com países europeus, o Brasil sente os efeitos das cotações internacionais sobre combustíveis, fretes e custos industriais.
Para Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, o comportamento do BCE e do Fed está relacionado a uma mesma preocupação com a inflação. Segundo ele, o conflito no Oriente Médio ampliou os efeitos sobre os preços de energia.

Já João Debom, sócio da Supernova Investimentos, avalia que a combinação entre a alta do BCE e a inflação ao produtor nos Estados Unidos reduz o espaço para o Brasil cortar juros de forma mais intensa.
Copom terá de equilibrar inflação e câmbio
O cenário doméstico, contudo, apresenta fatores que sustentam a possibilidade de continuidade do ciclo de cortes. A inflação brasileira vem desacelerando, enquanto a atividade econômica apresenta sinais de moderação.
Além disso, a taxa básica permanece em um nível considerado restritivo. O Banco Central já reduziu os juros nas últimas quatro reuniões, em um processo de ajuste gradual da política monetária.
O novo cenário externo, entretanto, pode influenciar o ritmo desse processo. Um corte de juros em um momento de alta das taxas internacionais pode aumentar a pressão sobre o câmbio. Caso o real se desvalorize, parte da pressão sobre os preços pode retornar à economia brasileira.
Debom afirma que o Copom pode adotar uma postura mais cautelosa diante das novas condições internacionais. Para ele, o comitê pode optar por esperar mais informações antes de confirmar um novo corte ou reduzir a intensidade do movimento.
Vital, por outro lado, mantém a avaliação de que o ambiente externo não necessariamente impedirá a continuidade do ciclo de flexibilização. Segundo o estrategista, as projeções do Banco Central já apontam para uma inflação mais próxima do centro da meta, enquanto os efeitos dos juros elevados sobre a atividade econômica se tornam mais evidentes.
Assim, a próxima decisão do Copom deverá considerar simultaneamente a trajetória da inflação brasileira, o comportamento do dólar, os preços do petróleo e as decisões do Fed e do BCE. O resultado também poderá indicar qual será o ritmo dos cortes da Selic nas próximas reuniões.
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