sábado, 12 de setembro de 2026
Preconceito

Intolerância religiosa expõe diferentes violências contra comunidades de fé em Goiás

Em Goiânia, um boletim de ocorrência por intolerância religiosa é registrado a cada 15 dias

Renata Ferrazpor em
Intolerância religiosa expõe diferentes violências contra comunidades de fé em Goiás

O retorno ao trabalho após um período de iniciação no Candomblé teria terminado em demissão para a profissional Míria Cristina Rodrigues Monteiro. Segundo o relato apresentado à liderança religiosa, Míria seguia preceitos do período de resguardo quando voltou às atividades, em 8 de setembro, no Centro de Movimento Morbeck, em Goiânia.

Míria afirma que estava vestida de branco, com a cabeça e o quelê cobertos e evitava sentar-se em cadeiras. Durante o expediente, uma aluna teria tentado tocar sua cabeça para retirar um inseto. A trabalhadora pediu que não fosse tocada. No Candomblé, o Orí, associado à cabeça, possui significado religioso.

Após a aula, enquanto preenchia relatórios sentada no chão para respeitar os preceitos, Míria afirma ter percebido que era observada pela proprietária e pela gerente do estabelecimento. Em seguida, teria sido chamada para uma conversa reservada.

Ainda conforme o relato, a profissional permaneceu sentada no chão por causa das restrições religiosas. A proprietária teria demonstrado desconforto e comunicado o desligamento, ao alegar que o estúdio “não havia se adaptado” a Míria.

O episódio foi posteriormente comunicado à liderança do Ilê Asé Obirin Omin Osun. Mãe Isabel de Oxum, nome religioso de Isabel Cristine Dias dos Santos, afirma que Míria é uma de suas filhas de santo e classifica o caso como possível intolerância e racismo religioso.

Antes do retorno ao trabalho, Míria havia passado por um período de recolhimento ritual entre 30 de agosto e 5 de setembro. Segundo a profissional, a empresa foi comunicada previamente sobre sua ausência e suas aulas foram substituídas por outro profissional. Durante o recolhimento, porém, teria recebido cobranças relacionadas à folha de ponto.

A profissional afirma que explicou as limitações impostas pela rotina religiosa e informou ter realizado os registros de atendimento pelo aplicativo utilizado pela empresa. As circunstâncias do desligamento ainda precisam ser apuradas, especialmente quanto à eventual relação entre a demissão e os preceitos religiosos seguidos pela trabalhadora.

Empresa contesta motivação religiosa

Procurada pela reportagem, a proprietária do Centro de Movimento Morbeck, Thaise Naia Alves Morbeck, negou que o desligamento de Míria tenha ocorrido por motivação religiosa. A manifestação foi encaminhada pela advogada Letícia Montans Passos, que solicitou a inclusão da versão da empresária na reportagem.

Segundo Thaise, Míria trabalhava no estabelecimento havia aproximadamente um mês e apresentava dificuldades de adaptação à dinâmica das aulas e ao atendimento dos alunos. A empresária afirma que a decisão de encerrar a relação profissional foi tomada antes da viagem realizada pela fisioterapeuta entre 29 de agosto e 5 de setembro.

A advogada afirma ainda que, em 27 de agosto, Thaise procurou Míria pelo WhatsApp para marcar uma conversa presencial após a aula. Conforme a manifestação, a profissional informou que precisava sair para outro trabalho e sugeriu que o assunto fosse tratado por mensagem. Para a empresária, o registro da conversa demonstra que a intenção de comunicar o desligamento era anterior à viagem e que a comunicação acabou ocorrendo no retorno.

Thaise também declarou que não foi informada sobre a finalidade religiosa da viagem e negou que a roupa branca utilizada por Míria no retorno tenha motivado a demissão. A empresária contestou ainda a existência de constrangimentos relacionados às práticas religiosas da profissional.

Por meio da advogada, Thaise reafirmou respeito à liberdade religiosa e negou que o desligamento tenha ocorrido por discriminação ou intolerância religiosa.

Outras religiões

Apesar de as religiões de matriz africana aparecerem com frequência entre os grupos mais atingidos por episódios de intolerância no Brasil, a violência motivada por crença não se restringe ao Candomblé e à Umbanda. Em Goiás, integrantes da comunidade muçulmana também passaram a denunciar ataques após a inauguração da primeira mesquita de Goiânia.

A abertura do espaço religioso em agosto de 2026, que representou a presença e a diversidade da comunidade islâmica na Capital, foi acompanhada por manifestações de ódio e preconceito nas redes sociais. Integrantes da comunidade procuraram a Delegacia Estadual de Atendimento às Vítimas de Crimes Raciais e de Intolerância (Deacri) para registrar boletins de ocorrência relacionados a conteúdos publicados na internet.

A comunidade muçulmana de Goiânia reúne pessoas de diferentes origens, como libaneses, sírios, palestinos e afegãos. Alguns chegaram ao Brasil após fugir de conflitos e situações de violência em seus países de origem. Mesmo em um novo território, continuam a ter assegurado o direito de praticar sua religião.

Os episódios que envolvem muçulmanos mostram que a intolerância religiosa pode assumir diferentes formas. Ofensas em redes sociais, ameaças, constrangimentos, discriminação no trabalho e ataques contra templos são manifestações distintas de um mesmo problema: a tentativa de limitar o direito de uma pessoa professar sua crença.

Dados da Deacri apontam que Goiânia registrou 16 ocorrências de intolerância religiosa em 2026 até setembro, uma média de aproximadamente um caso a cada 15 dias. Em 2025, foram 36 registros na Capital. Os casos investigados incluem ofensas, injúrias, ameaças, danos ao patrimônio e ataques contra espaços religiosos.

Educação é apontada como ferramenta contra o preconceito

Para a professora de História Daiane Gonçalve, a intolerância religiosa no Brasil possui raízes históricas profundas. Dayane explica que a perseguição às religiões de matriz africana foi construída ao longo de diferentes períodos e deixou marcas que ainda aparecem na sociedade.

Segundo Daiane, no entanto, o combate à intolerância precisa considerar a diversidade religiosa como um todo. A liberdade de crença não deve ser compreendida como um direito destinado a apenas um grupo, mas como uma garantia para diferentes tradições religiosas.

A professora também destaca que, no caso das religiões de matriz africana, a intolerância frequentemente se aproxima do racismo, já que essas tradições foram preservadas historicamente por populações negras.

Para a professora, a escola possui papel importante na desconstrução de preconceitos. O ensino sobre a diversidade religiosa, dentro de uma perspectiva laica, pode ajudar estudantes a compreender diferentes tradições e evitar que determinadas crenças sejam apresentadas como inferiores ou ameaçadoras.

O problema também se manifesta no ambiente virtual. Redes sociais podem ampliar discursos de ódio e fazer com que ataques direcionados a uma pessoa ou comunidade alcancem um público maior. A disseminação de conteúdos preconceituosos, portanto, também pode contribuir para a normalização da intolerância.

Denúncias e proteção às vítimas

A preocupação com os casos de intolerância também levou instituições públicas a ampliar ações de proteção em Goiás. A Defensoria Pública do Estado de Goiás lançou o projeto Terreiro de Direitos, iniciativa voltada ao atendimento de comunidades de terreiro e ao enfrentamento do racismo religioso.

O projeto prevê visitas itinerantes, rodas de conversa, oficinas sobre direitos e orientação jurídica. A iniciativa também contempla a instalação de placas nos espaços visitados, ao identificar os terreiros como locais sagrados e reforçar a proteção garantida pela legislação.

A atuação institucional é considerada importante diante da subnotificação. Muitas vítimas não registram ocorrência por medo de retaliação, desconhecimento dos canais de denúncia ou receio de que a situação não seja investigada.

Em Goiânia, casos relacionados a crimes raciais e de intolerância podem ser encaminhados à Deacri. Também existe o Disque 100, canal nacional destinado ao recebimento de denúncias de violações de direitos humanos. Em situações de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190.

 

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