Um em cada seis brasileiros possui dívidas em banco tradicional e fintechs
Levantamento aponta que o valor médio das pendências é maior entre os consumidores que acumulam débitos em bancos tradicionais e plataformas digitais
A ampliação do acesso aos serviços bancários transformou a dinâmica do crédito no País e alterou significativamente o perfil dos devedores, em um cenário onde os bancos tradicionais já não detêm a exclusividade sobre a dívida do brasileiro. Uma análise recente da Serasa Experian revela um salto no número de pessoas que estão negativadas simultaneamente em grandes bancos e em fintechs.
O estudo mostra que o contingente de consumidores com dívidas atrasadas ao mesmo tempo em instituições financeiras tradicionais e em aplicativos financeiros saltou de 1,96 milhão em dezembro de 2019 para 8,92 milhões em julho de 2026. Hoje, essa fatia subiu para 16,5%, o equivalente a cerca de um em cada seis brasileiros endividados.
A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, pontua que as mudanças acompanham a intensa bancarização acelerada pela pandemia. “A partir do Auxílio Emergencial e, posteriormente, com a criação e disseminação do PIX, ampliou o acesso de muitas pessoas ao sistema financeiro. A dinâmica da inadimplência está muito mais ligada às condições macroeconômicas e ao custo do crédito”, analisa.
Mais dívidas por pessoa
A descentralização das dívidas aponta para um acúmulo de compromissos por indivíduo. Em julho de 2026, cada inadimplente brasileiro possuía, em média, 4,15 dívidas negativadas. Já no grupo com débitos simultâneos nos bancos e nas fintechs, a média sobe para 4,18 dívidas por pessoa.
O valor médio das pendências desse público chegou a R$ 7.963, bem acima dos R$ 5.753 registrados entre os negativados apenas nas instituições tradicionais e dos R$ 1.026 dos que devem exclusivamente para as fintechs. Segundo Camila, a participação dos devedores exclusivos de bancos caiu, o que prova que o avanço da inadimplência se deve à presença de obrigações distribuídas entre diferentes credores.
Desafio na recuperação de crédito
O modelo de negócios das fintechs enfrenta agora um desafio para receber de volta os recursos emprestados. Entre as instituições financeiras tradicionais, a taxa de recuperação de crédito caiu de 70% em 2024 para 66% em 2025, enquanto nos bancos exclusivos digitais recuou de 39% para 30% no mesmo período.
Para o economista Luiz Carlos Ongaratto, a diferença nos índices reflete a relação de risco e retorno, uma vez que bancos e fintechs não são um grupo homogêneo. “Pode ser que uma pessoa recorra a uma fintech e já tenha usado seu limite de crédito em um banco, porém a fintech decidiu conceder crédito a uma taxa maior”, explica.
Ongaratto ressalta que essas plataformas atingem um público historicamente mais inadimplente. “A análise é a mesma, a questão é que uma instituição decide correr mais risco do que outra. Então é como se olhássemos dois negócios diferentes e tentássemos comparar”, comenta o economista.
Outro fator fundamental que asfixiou ambos os modelos de crédito foi a taxa básica de juros. “O período também foi marcado por um ciclo de aperto monetário que elevou a taxa Selic e o custo do crédito. Com isso, a análise da inadimplência passa a ocorrer em um ambiente diferente daquele observado há poucos anos”, conclui Camila.
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