Fim da escala 6×1 pode prejudicar a economia? Países mostram outro cenário
Fim da escala 6×1 divide economistas sobre impacto na economia brasileira
A discussão sobre o fim da escala 6×1 voltou ao centro do debate econômico no Brasil. A proposta em análise no Congresso prevê reduzir a jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução de salários, além de garantir dois dias de descanso remunerado por semana.
A mudança encerraria o modelo em que o trabalhador atua por seis dias consecutivos para ter apenas um dia de folga. Segundo dados do Ministério do Trabalho, 14,8 milhões de trabalhadores estão atualmente nessa escala. O número representa pouco mais de um terço da mão de obra formal.
O debate, porém, envolve uma questão central: a redução da jornada poderia prejudicar a economia brasileira?
As avaliações dos especialistas são diferentes. Enquanto alguns defendem que menos horas de trabalho podem estimular a produtividade, o consumo e a contratação, outros calculam possíveis perdas para o Produto Interno Bruto (PIB), além de aumento de custos para as empresas.
Brasil já reduziu a jornada e aumentou a produtividade
A última redução nacional da jornada ocorreu em 1988, com a Constituição Federal. Naquele momento, o limite semanal caiu de 48 para 44 horas, enquanto o teto diário ficou estabelecido em oito horas.
Desde então, a produtividade do trabalho no Brasil avançou 34,2% até 2025, segundo dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, ligado ao Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre).
O período também registrou mudanças importantes na economia brasileira. Entre 2000 e 2025, o PIB passou de US$ 596 bilhões para US$ 2,27 trilhões. Em 1988, o indicador estava em US$ 320 bilhões.
Para defensores da redução da jornada, esses números mostram que a produção não depende exclusivamente da quantidade de horas trabalhadas. Tecnologia, qualificação e organização do trabalho também podem aumentar a produtividade.

A proposta atual prevê uma jornada de 40 horas semanais e dois dias de descanso remunerado, sem redução salarial.
Na Câmara dos Deputados, a proposta recebeu 472 votos favoráveis e 22 contrários em primeiro turno, em maio. No Senado, o texto passou pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em setembro e precisa cumprir etapas de discussão antes da votação em plenário.
Experiências europeias mostram outro caminho
Países europeus também passaram por mudanças na jornada de trabalho. Um estudo publicado em 2022 na revista World of Labour, ligada ao Instituto de Economia do Trabalho (IZA), analisou reformas realizadas em Portugal, Itália, França, Bélgica e Eslovênia.
Segundo os pesquisadores, os países registraram crescimento do PIB entre 1995 e 2007, período escolhido para evitar os efeitos da crise financeira internacional de 2008. O estudo também apontou que as mudanças não provocaram impactos significativos sobre o nível de emprego.
As reformas, entretanto, tiveram características diferentes.
Portugal reduziu a jornada semanal de 44 para 40 horas em 1996, sem diminuir os salários mensais. Na Itália, a jornada padrão passou para 40 horas em 1997.
Na França, a jornada foi reduzida de 39 para 35 horas a partir de 1998. O país também adotou redução nas contribuições sociais para determinados trabalhadores.
A Bélgica estabeleceu jornada padrão de 38 horas semanais em 2001. Já a Eslovênia reduziu a jornada de 42 para 40 horas em 2002, mantendo os salários.
Os pesquisadores concluíram que o aumento do custo da mão de obra por hora foi absorvido pelas economias analisadas sem efeitos significativos sobre o emprego.
O estudo também aponta possíveis ganhos de produtividade. Uma jornada menor pode ajudar empresas a atrair e manter trabalhadores, além de estimular mudanças na organização da produção.
Rotatividade pode pesar no resultado das empresas
No Brasil, outro fator entra na discussão: a dificuldade de algumas empresas em contratar e manter trabalhadores.
Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) indicam uma taxa de rotatividade entre 51% e 56% ao ano. No setor de bares e restaurantes, que utiliza com frequência a escala 6×1, o índice chega a 79%.
Nesse cenário, trabalhadores têm buscado empregos com jornadas mais flexíveis, sem trabalho aos fins de semana e com menor tempo de deslocamento.
Para a socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a redução da jornada pode contribuir para diminuir esse problema.
Ela avalia que empresas poderiam contratar mais trabalhadores para compensar a redução das horas individuais. Além disso, o aumento da massa salarial poderia estimular o consumo.

Marcolino também aponta possíveis ganhos de produtividade. Segundo ela, trabalhadores mais descansados podem produzir mais. As empresas, por sua vez, poderiam acelerar investimentos em tecnologia para compensar a redução da mão de obra disponível.
Um exemplo citado pela socióloga é a expansão dos caixas de autoatendimento em supermercados.
Economistas divergem sobre o impacto no PIB
O efeito sobre o PIB é um dos principais pontos de divergência entre os especialistas.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a redução da jornada poderia provocar retração de 0,7% no PIB, equivalente a aproximadamente R$ 76,9 bilhões. A entidade considera que o aumento dos custos com trabalhadores formais poderia ser repassado aos preços.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apresenta argumento semelhante em relação ao impacto sobre os custos das empresas.
Já o economista Ladislau Dowbor, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), considera que o fim da escala 6×1 não reduziria o PIB. Para ele, a produtividade da economia moderna depende cada vez mais de conhecimento, tecnologia e capacidade de inovação, e não apenas do número de horas trabalhadas.
Dowbor também defende que uma redução da jornada pode contribuir para ampliar o mercado interno, melhorar a produtividade e estimular investimentos tecnológicos.
Por outro lado, o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV-Ibre, projeta uma queda de 2,9 pontos percentuais no PIB caso a escala 6×1 seja eliminada.
Segundo ele, a mudança poderia aumentar a rotatividade, elevar o desemprego em setores nos quais a automação substituir trabalhadores e reduzir a oferta de determinados serviços.
Ele cita como exemplo o transporte público, que já enfrenta dificuldades para contratar motoristas. Com jornadas menores, afirma, algumas empresas poderiam ter dificuldades para manter a oferta atual.
A economista Silvia Matos, também pesquisadora do FGV-Ibre, defende uma transição mais longa. Para ela, a redução poderia ocorrer em um período de dois a três anos, em vez dos 14 meses previstos na proposta.
Matos também aponta que a economia brasileira passa por uma desaceleração. No segundo trimestre, o PIB cresceu 0,5%, abaixo da expansão de 1,1% registrada nos três primeiros meses do ano.
Ao mesmo tempo, a economista reconhece que a redução da jornada é uma tendência observada internacionalmente. Segundo ela, a jornada média dos trabalhadores brasileiros, considerando os setores formal e informal, caiu de mais de 43 horas semanais em 1981 para 38,5 horas em 2025.
Assim, o debate sobre o fim da escala 6×1 envolve diferentes projeções. De um lado, há avaliações de que a mudança pode aumentar a produtividade, reduzir a rotatividade e estimular o consumo. De outro, existem estimativas de aumento de custos, desemprego e redução do PIB.
A experiência de países europeus mostra que a redução da jornada não impediu o crescimento econômico entre 1995 e 2007. No entanto, os modelos adotados nesses países tiveram regras, períodos de transição e mecanismos de compensação diferentes dos previstos atualmente no Brasil.
COM INFORMAÇÕES DA BBC
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