quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Segundo turno

Lula corre contra o tempo para virar jogo contra Flávio

Presidente muda estratégia no segundo turno, aposta em vídeos diretos e mobilização nas ruas, mas especialistas questionam se dará resultados

Bruno Goulartpor em
Lula
Mudança de postura levanta uma questão incômoda para o PT: a campanha percebeu tarde demais que estava perdendo o eleitor médio? Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Bruno Goulart

A campanha de Lula da Silva (PT) entrou no segundo turno em modo de reação. Depois de um primeiro turno que terminou com Flávio Bolsonaro (PL) em vantagem, o presidente passou a adotar uma comunicação mais direta, com maior presença nas redes sociais e vídeos gravados pelo próprio celular. Nas ruas, movimentos sociais e setores da juventude também começaram a se mobilizar. Em Goiânia, uma manifestação com a juventude de esquerda acontece na noite desta quarta-feira (7), na Praça Universitária. 

A mudança de postura, no entanto, levanta uma questão incômoda para o PT: a campanha percebeu tarde demais que estava perdendo o eleitor médio? O resultado do primeiro turno aponta justamente para esse problema. De acordo com análise apresentada pelo jornalista Pedro Dória, do O GLOBO, Flávio Bolsonaro construiu sua maior vantagem entre os eleitores da classe C, com 53,5% dos votos contra 37,2% de Lula. É justamente a faixa intermediária de renda, formada em parte por brasileiros que ascenderam das classes D e E, que pode estar no centro da dificuldade petista.

O desempenho revela um eleitor que mudou e pode não estar respondendo às mesmas mensagens que funcionaram para o PT em eleições anteriores. A ascensão econômica de parte dessa população, nos governos do PT, criou novas demandas. Não basta apenas apresentar programas sociais. Essa classe quer empreender e formar um país de incontáveis empresas pequenas.

Desafios

Para o cientista político e professor da PUC-GO Pedro Pietrafesa, a vantagem construída por Flávio torna a tarefa de Lula difícil. “Não sei se o Lula vai conseguir reverter a diferença”, afirma. Segundo o especialista, a campanha petista terá de buscar também os eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno, enquanto enfrenta o desafio da migração dos votos destinados aos candidatos eliminados.

Pietrafesa, entretanto, identifica uma diferença importante entre as duas campanhas neste início de segundo turno. Na avaliação dele, a mobilização dos eleitores de Lula, dos movimentos sociais e de setores políticos está maior do que no primeiro turno da eleição. “Ele vai tentar e está tendo uma mobilização de rua agora no começo do segundo turno maior do que a do primeiro”, afirmou. O problema, acrescenta, é saber se essa mobilização será suficiente para produzir uma mudança concreta no resultado.

A dificuldade, porém, pode ser maior do que simplesmente recuperar votos. Para o mestre em História e especialista em políticas públicas Tiago Zancopé, a campanha de Lula teria identificado tardiamente uma deficiência na própria estratégia de comunicação. A presença mais intensa do presidente no Instagram, TikTok e outras plataformas seria uma tentativa de ocupar um espaço que, segundo ele, foi negligenciado durante boa parte do governo. “Me parece que agora o PT entendeu: existe uma comunicação social, existe TikTok, existe Instagram. Existe todo o universo que a gente sempre negligenciou e agora a gente vai utilizar ele para se comunicar”, afirmou.

Zancopé também argumenta que o eleitor que ascendeu socialmente nos governos do PT, passou a esperar mais do Estado. Programas de transferência de renda continuam relevantes, mas não seriam suficientes para atender a uma população que também deseja crescimento econômico, estabilidade e serviços públicos eficientes. Para ele, esse descompasso ajuda a explicar parte da vantagem construída por Flávio na classe C.

O especialista também vê um problema na mensagem política apresentada pelo PT. Lula chegou ao segundo turno sem conseguir mobilizar uma perspectiva de futuro tão forte quanto em outras campanhas. Em 2002, lembra Zancopé, a promessa de que o brasileiro poderia melhorar de vida funcionou como uma espécie de horizonte político. Agora, a referência à volta da “picanha” não teria produzido o mesmo efeito. Para ele, a campanha petista agora corre o risco de substituir uma promessa de futuro por uma estratégia baseada no medo de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. “Não veio a picanha, vai vir algo pior, que é a campanha do medo. Pode ser que dê certo, mas também acho que pode ser que não”, disse.

Por outro lado, o sociólogo e analista político Jones Matos evita considerar a eleição decidida. Para ele, ainda há espaço para mudanças, principalmente porque uma parcela significativa do eleitorado não compareceu às urnas no primeiro turno. “O cenário ainda não está consolidado para cravar a vitória de nenhum dos dois, especialmente porque houve muita abstenção”, afirmou. Na avaliação de Matos, debates, discursos, contradições e a capacidade de mobilização das campanhas serão determinantes nas próximas semanas. “O que vai definir essa eleição são os próximos dias, a movimentação e o discurso, as contradições e os debates que não tiveram no primeiro turno”, disse.

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