União e bets entram em embate no STF sobre validade da proibição do setor
Enquanto operadoras alegam quebra de confiança após pagarem para operar no País, AGU sustenta argumento no avanço do crime organizado e custo anual de R$ 30,6 bi no SUS
A disputa em torno da medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 25 de setembro, que proibiu as apostas esportivas e os cassinos online no Brasil, chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto operadoras, clubes de futebol e emissoras tentam suspender o texto sob o argumento de quebra de segurança jurídica, a Advocacia-Geral da União (AGU) defende a manutenção do bloqueio para conter a lavagem de dinheiro e os danos sociais e sanitários.
O embate corre na relatoria do ministro Luiz Fux, dentro de uma ação ajuizada em 2024 pela Confederação Nacional do Comércio (CNC). A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) pediram a derrubada imediata da norma e o retorno das regras vigentes desde 2024. As entidades sustentam que o setor emprega milhares de pessoas e apontam que a medida foi editada a nove dias das eleições, sem análise técnica ou estimativa de perda de arrecadação.
Nesta terça-feira (6), após o fim do prazo para saque nas plataformas encerrado na segunda-feira (5), a ANJL concordou com o pedido da AGU para uma audiência pública e manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR), mas reiterou o pleito por uma liminar. “Não se identifica um fato quantitativo novo, extraordinário e superveniente capaz de explicar a passagem de uma política pública de regulamentação intensiva para a necessidade constitucionalmente excepcional de proibição imediata do setor por medida provisória”, afirmam as associações na petição.
Na resposta enviada a Fux, a AGU argumenta que as leis de 2018 e 2023 foram insuficientes para barrar o crime organizado, citando relatório divulgado pela revista Veja sobre a movimentação de R$ 7 bilhões por facções em plataformas clandestinas com uso de influenciadores. O órgão destaca ainda o salto de 140% nos atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) ligados a jogo patológico entre 2018 e 2025, quase 1,3 milhão de pedidos de autoexclusão e um custo anual estimado em R$ 30,6 bilhões na saúde pública.
Análise constitucional e efeitos práticos
Para o advogado Clodoaldo Moreira, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), o pagamento de outorgas não garante às empresas o direito adquirido de operar por prazo indeterminado quando há razões de interesse público, mas abre debate sobre a quebra de confiança. “O Estado criou um mercado regulado, estabeleceu exigências, recebeu valores pelas outorgas e, pouco tempo depois, determinou a extinção das autorizações. Isso pode ser utilizado pelas empresas para sustentar que houve quebra abrupta da boa-fé objetiva e da segurança jurídica”, explica.
Embora a MP negue devolução de valores ou indenizações, o ponto pode ser questionado no STF mediante comprovação de investimentos não amortizados.
Segundo Moreira, o Supremo costuma ter controle restrito sobre os requisitos de relevância e urgência, mas avaliará a base técnica do governo e a proporcionalidade da proibição total. Caso Fux conceda uma liminar, o ministro pode tanto restaurar provisoriamente a operação e a publicidade quanto modular a decisão, exigindo travas extras de fiscalização.
Nos patrocínios com clubes e emissoras, cada contrato deverá ser analisado individualmente quanto a cláusulas de força maior e multas.
Outro eixo no STF é o risco de migração para plataformas ilegais. O IBJR cita monitoramento do site Bet Legal apontando 953 páginas clandestinas ativas após a proibição, enquanto o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, informou a ordem de bloqueio de mais de 10 mil sites até sexta-feira (2). “Em síntese, o combate à clandestinidade é uma finalidade constitucionalmente legítima, mas uma norma proibitiva somente será considerada proporcional se demonstrar capacidade real de atingir esse objetivo”, avalia Moreira.
Plataformas de apostas retiraram R$ 4,7 bi por mês das famílias
O debate jurídico sobre as apostas online reflete o peso econômico da atividade. Levantamento feito pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) aponta que as apostas drenaram R$ 62,5 bilhões da renda das famílias brasileiras ao longo de 2025.
Segundo o estudo, entre outubro de 2024 e março de 2026, o setor provocou uma transferência líquida média de R$ 4,7 bilhões por mês do orçamento doméstico para as plataformas.
De acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, após a publicação da MP em 25 de setembro, a movimentação diária das plataformas, antes estimada em mais de R$ 600 milhões, praticamente cessou.
Para a economista Greice Guerra, o setor agrava o orçamento doméstico e reduz o consumo no varejo. “Aposta não é investimento, é entretenimento. Esse entretenimento está endividando as pessoas e isso é muito preocupante”, afirma a economista.
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