Bolsa aciona circuit breaker após reeleição de Lula e economistas avaliam rumos da economia
Sustentabilidade fiscal e controle da taxa de juros são apontados como os principais desafios para o novo mandato
A vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial iniciou uma forte reação no mercado financeiro nesta segunda-feira (26). A volatilidade foi tão intensa que a B3 precisou acionar o circuit breaker, mecanismo de defesa que suspende as negociações após uma queda de 10% do Ibovespa, pela primeira vez desde março de 2020. Ao final do pregão, a Bolsa brasileira chegou a 13,43%, fechando aos 177.539,81 pontos, enquanto o dólar encerrou cotado a R$ 5,40.
Pela manhã, o risco-Brasil saltou 22% e as taxas dos contratos de Depósitos Interfinanceiros (DI) avançaram até 290 pontos-base. A economista Greice Guerra aponta que a fuga de capitais chegou ao exterior, com o índice EWZ (ações brasileiras em Wall Street) amanhecendo com queda de 27%.
Para a economista, essa situação espelha o temor dos investidores com a trajetória das contas públicas. “Sabemos que o governo do presidente Lula é um governo que não tem muito compromisso com o fiscal. A responsabilidade fiscal do governo Lula, ela praticamente inexiste”, afirma.
Apesar do pânico inicial, a presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), Adriana Pereira de Sousa, avalia que o acionamento do circuit breaker e a disparada da moeda norte-americana refletem mais um ajuste abrupto de posições financeiras especulativas do que um cenário real de queda. “Esses movimentos são compatíveis com uma combinação de reversão das apostas eleitorais e aumento da preocupação fiscal”, explica.
Adriana ressalta que o país possui baixa taxa de desemprego e uma avaliação internacional positiva. “O circuit breaker mostra a intensidade da turbulência, mas não constitui, por si só, um diagnóstico de insolvência do país, aliás, o Brasil está longe disso”, pontua.
Para o professor de economia da Universidade Federal de Goiás (UFG), Pedro Henrique Evangelista, a retração da Bolsa é uma reação previsível de um setor que esperava a vitória e a agenda do adversário político. Evangelista prevê que o cenário se normalize nas próximas semanas, ancorado em indicadores sólidos, como as elevadas reservas internacionais brasileiras e os efeitos práticos da nova reforma tributária.
Desafio
Há um consenso de que a relação dívida-PIB, que se aproxima dos 90%, exige atenção máxima. A economista Greice Guerra lista alguns desafios, como construir um arcabouço fiscal crível, acomodar os compromissos bilionários e negociar com um Congresso de maioria conservadora.
Sobre a pressão nos juros, a presidente do Corecon-GO esclarece que a alta nos contratos de DI não significa repasse imediato da taxa Selic aos empréstimos reais, mas avisa que a persistência desse encarecimento pode levar as empresas a “adiar expansão, reduzir estoques e contratar menos”.
Para evitar isso, Adriana defende agilidade na formulação do Orçamento de 2027. “A prioridade deve ser reduzir a incerteza com medidas verificáveis. O governo precisa apresentar uma estratégia fiscal de médio prazo”, destaca.
O professor da UFG concorda que o endividamento e a taxa básica de juros formam o grande entrave econômico. Para Evangelista, o caminho para atrair investimentos de forma sustentável passa por aliar responsabilidade nos gastos com um projeto de industrialização. Mesmo assim, o Estado deve exigir contrapartidas do setor privado ao conceder isenções fiscais. “O setor privado não pode ser só beneficiado. Ele tem que ofertar alguma coisa também”, defende.
Além disso, outro ponto de destaque são as reservas de terras raras brasileiras, que darão ao governo forte poder de barganha no mercado internacional.
A presidente do Corecon-GO destaca que o Executivo precisará “combinar sustentabilidade fiscal, investimentos e inclusão social” para recuperar a previsibilidade exigida pelo setor produtivo, acalmar os ânimos do capital externo e sustentar o crescimento do País.
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