Áudio de Vorcaro pode implodir a campanha de Lula no segundo turno?
Gravação atribuída ao ex-banqueiro cita dinheiro para filme sobre o presidente; defesa diz desconhecer o áudio e especialistas avaliam possíveis efeitos na disputa pelo 2º turno
Bruno Goulart
Um suposto áudio atribuído ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master, é mais um problema para a campanha do presidente Lula da Silva (PT). Divulgado pela revista Veja, o conteúdo menciona um possível repasse de R$ 30 milhões, em dinheiro vivo e por fora, ao Instituto Lula para financiar um documentário sobre o presidente no exterior. A revelação ocorre a 16 dias do segundo turno e levanta uma questão: até que ponto a denúncia pode afetar a campanha de Lula?
Para o mestre em História e especialista em políticas públicas Tiago Zancopé, o episódio é uma tentativa de aproximar Lula dos questionamentos que atingem seus adversários. Segundo ele, o segundo turno costuma ser menos uma disputa para conquistar novos eleitores por meio de propostas e mais uma batalha para aumentar a rejeição ao concorrente. “Me parece muito mais um desses vazamentos que busca jogar Lula para o mesmo nível ou patamar que Flávio Bolsonaro”, avalia Zancopé. Na visão do especialista, a divulgação pode enfraquecer a estratégia petista de se apresentar como uma alternativa diferente dos adversários quando o assunto é corrupção.
O analista considera que a estratégia busca criar dúvidas sobre as diferenças entre os candidatos. “Se eu sou igual a ele, o que é que me faz diferente?”, questiona, ao explicar como a associação de Lula ao caso pode afetar a imagem construída pela campanha.
Zancopé também ressalta que a divulgação do áudio pode funcionar como resposta a eventuais críticas de Lula ao Banco Master e ao financiamento do filme Dark Horse. “É uma maneira de mostrar que o Banco Master não é só uma coisa da direita, a esquerda também teve no Master”, afirma.
O especialista, entretanto, faz uma distinção entre a tentativa de envolver diferentes grupos políticos e a identificação de responsabilidades. Em sua avaliação, os nomes ligados ao campo da direita que aparecem nas discussões sobre o banco não deixam de precisar de explicações por causa de uma nova acusação contra integrantes ou pessoas próximas ao PT.
Disputa de narrativas
O consultor em marketing político e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás (UFG) Felipe Fulquim também aponta o risco de o caso dominar o debate eleitoral. “Primeiro, lamentável se os fatos desse áudio forem reais”, afirma. Para ele, o segundo turno deve ser marcado por uma disputa cada vez mais intensa entre propostas e acusações.
“O que estamos vendo e vivendo é uma guerra de narrativas que irá perdurar pelos próximos dias nos noticiários e no horário eleitoral”, avalia Fulquim. Segundo o consultor, os candidatos tentarão fortalecer a própria imagem enquanto procuram desgastar a do adversário. Politicamente falando, o estrago já foi feito na campanha do petista.
Fulquim avalia que Lula já enfrenta dificuldades para superar a rejeição de parte do eleitorado e os desgastes acumulados ao longo de seus mandatos. “Seu desafio será convencer parte do eleitorado que se absteve para mostrar que tem condições de governar o país por mais um ciclo”, afirma.
O cientista político e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Pedro Pietrafesa, ouvido pelo O HOJE, avalia que ainda é cedo para medir o tamanho da repercussão. “Não sei se vai ter repercussão, porque já desmentiram, né? […] Mas, sim, isso pode prejudicar bastante a campanha do Lula”, afirma.
Entenda
A defesa de Vorcaro afirma desconhecer tanto o áudio quanto o suposto patrocínio ao filme. Segundo a Veja, Vorcaro teria relatado a negociação com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto em documentos encaminhados à Procuradoria-Geral da República (PGR). O órgão não teria levado o caso adiante por considerar que faltavam provas suficientes, já que os pagamentos mencionados teriam sido feitos em dinheiro vivo. A defesa do banqueiro, por sua vez, teria afirmado que existiriam mensagens de WhatsApp, registros de saques e informações sobre as pessoas e os trajetos usados para entregar os valores. A existência dessas supostas provas, no entanto, ainda não confirma que os pagamentos ocorreram.
Na gravação divulgada pela revista, Vorcaro afirma que Vaccari teria pedido dinheiro para a produção do documentário. “O cara (Vaccari) pede para colocar dinheiro no filme do Lula”, diz o trecho atribuído ao banqueiro. Em outro momento, ele diferencia o suposto repasse para o filme sobre o petista do patrocínio à produção Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro (PL). “O do Lula foi por fora, foi errado. O do Flávio não foi, porque foi patrocínio normal”.”, afirma, conforme a transcrição publicada.
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