Brasil perde posição de credor internacional após redução da folga entre ativos e dívidas externas
Diferença entre recursos mantidos no exterior e compromissos com credores internacionais diminuiu ao longo dos últimos anos; mudança encerra período de 19 anos em que o país mantinha saldo positivo nessa relação
A distância entre os recursos brasileiros disponíveis no exterior e as obrigações assumidas com credores internacionais diminuiu a ponto de alterar a posição do país no balanço externo. Após 19 anos como credor internacional líquido, o Brasil voltou à condição de devedor, segundo dados do Banco Central citados pelo Estadão. O movimento está relacionado ao avanço do endividamento externo em ritmo superior ao crescimento das reservas e de outros ativos mantidos fora do país.
O estoque de reservas internacionais, somado aos créditos brasileiros no exterior, alcança aproximadamente US$ 402 bilhões. Esse montante, porém, deixou de ser suficiente para cobrir o conjunto das obrigações externas, segundo o levantamento. A mudança indica uma redução da diferença entre o que o Brasil possui em ativos internacionais e o que deve a agentes estrangeiros, cenário que contrasta com a posição de credor mantida desde 2007.
A trajetória já vinha sendo acompanhada pelo mercado financeiro. Em março deste ano, dados publicados pelo Poder360 apontavam que a dívida externa bruta havia alcançado US$ 397,5 bilhões em janeiro, enquanto as reservas internacionais somavam cerca de US$ 372 bilhões em março. Naquele momento, quando considerados também outros créditos brasileiros no exterior, a margem positiva havia encolhido para aproximadamente US$ 10 bilhões, ante mais de US$ 70 bilhões registrados uma década antes.
Endividamento exige atenção, mas não indica crise imediata
A mudança de posição não significa, por si só, que o Brasil perdeu a capacidade de honrar seus compromissos ou esteja diante de uma crise de pagamentos. A avaliação da vulnerabilidade externa depende de outros fatores, como o prazo das dívidas, a disponibilidade de moeda estrangeira, a composição dos credores e as condições de financiamento internacional.
Uma parcela relevante do endividamento externo brasileiro, por exemplo, está relacionada a títulos denominados em reais que pertencem a investidores estrangeiros. Por isso, o indicador de dívida externa não deve ser interpretado automaticamente como se todo o valor precisasse ser pago em dólares pelo governo federal. Os dados divulgados pelo Poder360 em março mostravam que cerca de 70% da dívida externa correspondiam a títulos em reais detidos por não residentes.
A composição dos devedores também é relevante. O endividamento externo inclui compromissos do governo, do Banco Central, de bancos e de outros setores da economia. Assim, a mudança na posição internacional do país reflete uma relação mais ampla entre ativos e passivos externos, e não apenas as contas da administração federal.
O principal ponto de atenção é a redução da margem disponível para absorver choques externos. Em períodos de instabilidade internacional, restrição de crédito ou saída de capitais, uma posição externa menos confortável pode aumentar a sensibilidade da economia às condições de financiamento. A dimensão desse risco, contudo, depende da evolução das reservas, do perfil das obrigações e da capacidade de obtenção de recursos no mercado internacional.
Com informações da Folha de São Paulo
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