Envelhecer com dignidade está entre os sonhos dos 70+
Enquete destaca demandas por saúde, moradia e reconhecimento social
Viajar, cuidar da saúde, ter uma casa e continuar participando das decisões da família. Os planos não desaparecem depois dos 70 anos, mas podem esbarrar na renda, na dificuldade de acesso aos serviços e no preconceito contra a idade. Uma enquete sobre o Brasil que pessoas mais velhas desejam encontrar mostra que, ao lado de demandas materiais, permanece uma reivindicação simples: ser ouvido.
A consulta “O Brasil que os 70+ sonham”, promovida pelo Movimento Voto 70+ e conduzida pelo hub data8, contabilizou 18.622 participações por diferentes meios: 3.535 respostas a questionários fechados, 159 depoimentos espontâneos e 14.928 assinaturas de petições. Um canal automatizado reuniu ainda 1.508 cadastros e 814 manifestações. Esses números correspondem a modalidades distintas de participação, não a uma amostra representativa de todos os brasileiros com mais de 70 anos.
Entre os temas identificados na análise, a desigualdade social respondeu por 35% das referências classificadas. O etarismo e os direitos das pessoas idosas apareceram em 25%; corrupção e polarização política, em 20%; e reforma agrária, em 5%. Os percentuais dizem respeito aos conteúdos examinados, não à proporção de toda a população que compartilha essas preocupações.
O que os participantes descrevem, porém, vai além das grandes questões nacionais. Há quem queira uma aposentadoria suficiente para viver, atendimento médico acessível e a possibilidade de sair de casa sem depender de outras pessoas. Também surgem relatos de quem percebe que, ao envelhecer, passou a ter menos voz nas decisões familiares. O etarismo se manifesta quando a idade se torna motivo para desconsiderar escolhas e opiniões.
Para Cléa Klouri, líder do movimento, os relatos expõem essas desigualdades. “São demandas que revelam como o envelhecimento ainda é atravessado por desigualdades e pelo sentimento de invisibilidade social. O levantamento mostra que essa geração tem muito a dizer sobre o futuro do país e quer participar das decisões que afetam não apenas a sua vida, mas também a das próximas gerações. Ouvir essas vozes é fundamental para que o envelhecimento tenha o espaço que merece na agenda pública”, afirma.
Nos 159 depoimentos do formulário aberto, mais de 90% não citaram diretamente partidos nem políticos. “Saúde” e “casa” foram mencionadas 19 vezes cada; “viajar” e “respeito”, 11; “igualdade” e “liberdade”, dez. As palavras revelam preocupações que atravessam o orçamento doméstico e chegam ao desejo de aproveitar a vida sem perder independência.
“A combinação dessas palavras permite identificar dois campos semânticos. O primeiro está relacionado ao cuidado e à sobrevivência, reunindo saúde, moradia, aposentadoria e alimentação. O segundo envolve justiça e instituições, com referências à corrupção, à política, às leis e às disputas ideológicas. As demandas materiais, contudo, ocupam posição relevante no conjunto das respostas espontâneas”, analisa Adriana de Queiroz, pesquisadora responsável pelo mapeamento.
As respostas também variaram conforme o canal utilizado. Na conversa automatizada, 55% foram classificadas como negativas ou indignadas, 30% como esperançosas e 15% como mistas ou neutras. No formulário aberto, cerca de 60% expressaram esperança, 25% foram neutras ou diretas e 15%, negativas ou indignadas. As diferenças podem refletir tanto a forma de participação quanto o perfil de quem respondeu.
A enquete não permite generalizações sobre todos os maiores de 70 anos. Ainda assim, os relatos mostram que envelhecer não significa abandonar projetos. Para quem respondeu, o futuro envolve tanto a segurança de ter onde morar e como se sustentar quanto a liberdade de fazer planos e participar das decisões que afetam a própria vida.
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