“Uma profunda reflexão sobre a passagem do tempo em todos nós”

Vera Fischer apresenta ‘Doce Pássaro da Juventude’ ao lado de Pierre Baitelli

Postado em: 28-04-2018 às 06h00
Por: Sheyla Sousa
Vera Fischer apresenta ‘Doce Pássaro da Juventude’ ao lado de Pierre Baitelli

GABRIELLA STARNECK E SABRINA MOURA*

O espetáculo Doce Pássaro da Juventude, protagonizado por Vera Fischer  e Pierre Baitelli, será apresentado, no sábado (28) e no domingo (29), no Teatro Sesi. O texto, dirigido por Gilberto Gawronski e traduzido pela atriz Clara Carvalho, é uma adaptação da obra de mesmo nome de Tennessee Willams, feita por Marcos Daud, para dez atores. Segundo Vera, é uma satisfação pessoal poder participar de um projeto teatral em meio a uma crise financeira e cultural no País. 

Continua após a publicidade

“Estamos fazendo uma peça grandiosa. Todos estão muito felizes, pois ninguém está contratando dez atores para fazer um espetáculo atualmente”, afirma a atriz. Trabalhando como uma companhia de teatro, o diretor Gilberto destaca a união de todos a serviço de Tennessee: “Temos o mesmo objetivo, o trabalho é colaborativo. O que nos une é a dramaturgia”.

Espetáculo

A trama se passa na década 1950, no sul dos Estados Unidos, em meio ao surgimento do KuKluxKlan – época marcada pela oposição aos movimentos civis, violência e discriminação racial. “Me identifiquei muito com a personagem, é como se o Tennessee fosse meu amigo e tivesse escrito tudo isso para mim”, conta Vera, que vive o papel de Alexandra Del Lago, uma atriz decadente, inteligente, ególatra, talentosa, manipuladora e sem censura alguma.

O diretor Gilberto Gawronski completa a fala da atriz: “A Vera escolhe personagens certos, sabe o que falar e se conhece muito bem”. Ele ainda explica que a proposta da montagem é fazer uma encenação realista que trabalhe os signos teatrais.  Esta é a primeira vez que Gawronski trabalha com um texto do autor. Vera sobe ao palco do Sesi ao lado de uma grande equipe: além de Pierre Baitelli, divide o palco com Mario Borges, Ivone Hoffmann, Bruno Dubeux, Clara Garcia, Dennis Pinheiro, Juliana Boller, Pedro Garcia Netto e Renato Krueger.

A atriz conta um pouco sobre seu papel no espetáculo Doce Pássaro da Juventude: “A personagem é uma experiente artista, que se olha no espelho e enxerga uma velha fracassada. Com isso, foge para o interior e acaba conhecendo um homem mais novo, que almeja poder e sucesso”, conta Vera, que também é produtora do espetáculo, juntamente com Luciano Borges e Edson Fieschi. Já Pierre Baitelli é o jovem galã ambicioso Chance Wayne, interpretado no cinema por Paul Newman. 

O cenário, assinado por Mina Quental, é um espaço neutro onde a cama e o palanque político são o mesmo lugar, fazendo uma metáfora entre sexo e poder. O figurino, de Marcelo Marques, remete aos anos 50, apenas o essencial entra em cena. A trilha sonora original foi especialmente desenvolvida para o espetáculo, por Alexandre Elias, que se inspirou no cinema americano da década de 1950.  “Entre músicas, canções e vinhetas, misturamos instrumentos como saxofone, baixo acústico e piano com a música eletrônica” explica Elias. 

Expectativa

O espetáculo Doce Pássaro da Juventude estreou apenas no Rio de Janeiro; Goiânia é a segunda cidade a receber o trabalho teatral: “Tivemos uma recepção muito boa na estreia! Vale lembrar que não é sempre que temos a oportunidade não só de encenar, mas também de assistir a um dos maiores autores do teatro contemporâneo”, afirma Vera.

A atriz ainda fala sobre a Capital – onde apresentará o espetáculo em duas sessões: “Já visitei Goiânia inúmeras vezes, sempre levando peças teatrais e tendo alegria de lotar os teatros. A cidade é rica, linda, o público muito elegante e inteligente. Tenho certeza de que mais uma vez seremos bem recebidos”, finaliza.

Vera Fischer

A atriz e modelo brasileira nasceu em Blumenau (SC) no dia 27 de novembro de 1951. Miss Brasil em 1969, Vera logo iniciou sua trajetória artística, estreando em novelas em 1976. O primeiro trabalho foi Espelho Mágico, de Lauro César Muniz. Em 1977 e 1982, foi premiada como Melhor Atriz pelos filmes Amor Estranho Amor e Intimidade.  A atriz se define como “um bicho de teatro” e relembra a primeira vez em que pisou no palco: “Eu achava que teatro tinha que ser feito por atrizes quase deusas. Achava tão importante estrear, que tive uma gastrite nervosa no meu primeiro espetáculo”. 

A primeira peça produzida por Vera foi Os Desinibidos, de Roberto Athayde, em 1983 – daí em diante, a atriz participou de muitos espetáculos. “Pisar no palco é comigo mesmo”, completa Vera. Seu encontro com Tennessee Williams se deu em 2000, quando atuou e produziu a peça Gata em Teto de Zinco Quente, sucesso em todo o Brasil. Seus últimos trabalhos no teatro foram Relações Aparentes, em 2016, e Ela é o Cara, uma comédia surrealista, que terminou temporada em maio de 2017. E, para falar um pouco mais sobre a sua carreira e apresentação em Goiânia, Vera concedeu uma entrevista ao Essência. Confira abaixo. 

*Integrantes do programa de estágio do jornal O HOJE sob orientação da editora Flávia Popov

SERVIÇO

‘Doce Pássaro da Juventude’

Quando: sábado (28) e domingo (29)

Onde: Teatro Sesi (Av. João Leite, nº 1.013, Setor Santa Genoveva – Goiânia)

Horário: 21h (sábado) e 20h (domingo)

Entrada: R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia)

Estudantes, idosos acima de 60 anos e industriários, mediante comprovação, pagam meia-entrada

 

Entrevista: Vera Fischer 

Como é a personalidade da sua personagem? (Alexandra Del Lago)

Alexandra é uma mulher, uma atriz que, como tantas, sente o peso do tempo em sua vida. Uma estrela decadente de Hollywood tentando esquecer seu presente nas drogas e no sexo. Acredita que, através do seu poder financeiro, poderá ressuscitar aquilo que se perdeu, a juventude.

Como você se preparou para interpretá-la? Encontrou alguma dificuldade?

Toda a abordagem de um personagem, na minha opinião, dever ser feita minuciosamente e com uma aproximação delicada, já que são muitas as  camadas que existem, particularmente, nesse personagem. Tivemos o trabalho com o diretor de esmiuçar essas camadas para que pudéssemos  atingir toda a complexidade dessa mulher, sempre debruçados no texto, e, claro, sempre buscando em mim aquilo que servia a personagem. Tudo se estabeleceu muito com o jogo que eu e o Pierre propusemos pra cena. Sim, as dificuldades sempre existem. Temos um texto forte, muitas palavras a serem ditas e muitas conclusões a serem tiradas, e o melhor: estamos sempre em processo, descobrindo a cada sessão nova uma face diferente, não só da personagem, como de nós mesmos.

O que você aprendeu com essa personagem?

Não apenas com essa, mas com todas as personagens é possível aprender um pouco. Alexandra deixou um pouco dela em mim e levou um pouco de mim com ela. É troca entre atriz e personagem; é sabia, faz bem.

Como é para você interpretar no teatro uma das primeiras peças de Tennessee Williams adaptada até para as telas de cinema?

Minha relação com esse autor é antiga e de muita paixão. Adoro toda a dramaturgia americana, e essa é a segunda peça dele que eu faço. A primeira foi Gata em Teto de Zinco Quente, que também foi um grande sucesso. Gosto dos textos fortes, densos, que exigem de mim um grande mergulho no humano. 

Em sua opinião, qual mensagem  Tennessee Williams quis passar com essa história?

A que ele mesmo diz: que, se existe uma maneira pela qual o homem pode superar a condição moral a ele imposta ao nascer, e muito antes de nascer, pela natureza de sua raça, acho que é pela determinação de conhecer sua própria natureza, de encarar a existência dela dentro de si; e acho que, pelo menos abaixo do nível consciente, todos nós a encaramos. E, claro, uma profunda reflexão sobre a passagem do tempo em todos nós.

Sobre seu próximo trabalho na TV, o que o público pode esperar de Carmo, sua personagem?

Não sei muito sobre a Carmo ainda. Recebi apenas os 24 primeiros capítulos para a leitura inicial, e estou muito empolgada com o que li. Fazer grandes personagens como essa me deixam revigorada. Carmo é uma atriz de cinema muito glamorosa que acaba de chegar a uma cidade do interior mineiro para encenar um filme sobre uma história da cidade. É drama, é comédia, é cinema, é sobre o amor e as voltas que a vida dá, é novela daquelas boas com texto de novela mesmo. Estou animada! 

Veja Também