“Ranking de participação da mulher na política brasileira é vergonhoso”, afirma Antônio Lavareda ao Face do Poder

Lavareda acredita que este deve ser um ano com baixa renovação no legislativo, tendo em vista o aumento de distribuição de recursos públicos para parlamentares

Postado em: 14-02-2022 às 09h31
Por: Raphael Bezerra
Lavareda acredita que este deve ser um ano com baixa renovação no legislativo, tendo em vista o aumento de distribuição de recursos públicos para parlamentares | Foto: Reprodução

Doutor em Ciências Políticas explica que há no Brasil uma necessidade crescente de renovação política e inclusão de mulheres em espaços como diretorias e conselhos de empresas, mas que é fundamental uma maior inclusão e participação das mulheres na política. O Programa Face do Poder do O Hoje News recebeu o Doutor em Ciências Políticas e diretor-presidente da MCI-Estratégia, e presidente do Conselho Científico do Ipespe, Antônio Lavareda. 

Segundo Lavareda, este deve ser um ano com uma baixa renovação no legislativo, tendo em vista o aumento de distribuição de recursos públicos para parlamentares. As chamadas emendas do relator não têm controle de transparência e podem ser direcionadas a aliados do governo. 

WILSON – Começo com a pergunta mais óbvia: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, é apontado pelas pesquisas de intenção de votos como praticamente eleito. Na sua avaliação e conhecimento do comportamento do cidadão-eleitor, esse cenário tende a se concretizar?

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Responder essa questão deve ser levado em conta como as pesquisas eleitorais foram feitas, as respostas dadas nessas pesquisas, seja nas perguntas espontâneas ou nas estimuladas. As espontâneas não apresentam os candidatos para os eleitores, já a estimulada apresenta uma lista de candidatos para uma escolha. É importante que nós tenhamos nessas duas respostas dois tipos de atitudes com leituras diferentes. 

A primeira é a seguinte: as pessoas já tem uma intenção de voto, que pode mudar, mas ela já tem uma intenção. Já a segunda, em relação à estimulada, é uma inclinação, ela vale menos e tem menor importância. 

Eu acredito que a mídia e as próprias pesquisas devessem deixar mais explícitos que intenção de votos mesmo é a pesquisa espontâneas. As outras são inclinações do momento. 

Na última pesquisa do Ipesp, que representa a última quinzena de janeiro, apareceu Lula com 35% e Bolsonaro com 23%, Sergio Moro com 4% e Ciro Gomes com 5%. 

Na estimulada, Lula tem 44%, Bolsonaro fica com 26% e Moro e Ciro sobem para 8%. 

O ex-presidente Lula lidera em todas as pesquisas, até o Paraná pesquisa que tem números mais expressivos para o atual presidente Bolsonaro também mostra que Lula ultrapassou os 40% nas estimativas.  Isso quer dizer que ele tem uma elevada probabilidade de levar a eleição, mas isso não quer dizer que campanha não vai ter nenhum efeito. Teremos 8 meses de campanha e muita água para passar debaixo dessa ponte. 

WILSON – É possível a unificação das forças que vão da centro-esquerda à centro-direita capitaneadas por Ciro Gomes (PDT), Sergio Moro (Podemos), João Doria (PSDB), Simone Tebet (MDB) e Alessandro Vieira (Cidadania) para ‘quebrar’ a polarização Lula/Bolsonaro?

Primeiro eu gostaria de inserir na nossa análise uma observação, o Ciro Gomes é um corpo estranho nesse conjunto de forças que você mencionou. Ele é um candidato de centro-esquerda, da esquerda propriamente. O partido dele tem uma tradição na esquerda e, na verdade, Ciro apresenta uma grande super oposição ao presidente Lula do ponto de vista dos eleitores. Ele é a segunda escolha de praticamente metade dos eleitores de Lula. 

Esses outros nomes são candidatos de centro e direita, uns mais perto do centro e outros mais perto da direita. Não vejo essa possibilidade de Ciro Gomes estar nesse campo de uma candidatura unificada, embora ele dialogue. A dificuldade desses outros candidatos é que eles e seus eleitores votaram no segundo turno de 2018 em Jair Bolsonaro. 

Os próprios candidatos são ex-eleitores de Bolsonaro então eles não são candidatos que pretendem quebrar a polarização. Os que se colocam nesses termos estão falsificando a realidade. Votaram em Bolsonaro e se decepcionaram e eles pretendem ocupar o lugar dele no segundo turno. Seria mais útil eles dizerem que se frustraram com Bolsonaro por esse e outro motivo é que agora acreditam que o presidente não os representa mais é que eles pretendem substituir Bolsonaro no enfrentamento do segundo turno. 

WILSON – Gostaria que o sr. explicasse para nossa audiência por que não  renovação dos quadros políticos no Brasil é quase insignificante. Raramente aparece nomes diferentes para disputar o executivo, seja no governo federal, estaduais ou nos municípios.

No Brasil nós vamos ter uma taxa de reeleição muito maior que nos últimos anos. Isso sempre acontece, quem está no cargo e tem o conhecimento da máquina utiliza essa posição em benefício da reeleição. Em segundo lugar, nós tivemos nessa legislatura as famosas emendas de relator que beneficiam os deputados e senadores com verbas vultosas para eles e para seus municípios e áreas de influência e como estão sendo maiores que nos últimos anos deve se reverter para uma montanha de votos para esses políticos.

Tudo mais na política, candidaturas a prefeitos, a governador, senadores e deputados, vem do parlamento que é a porta de entrada das elites políticas. Primeiro que o próprio sistema político, ainda mais com as emendas do relator, e o financiamento eleitoral que vai ser concentrado pelos partidos, sobretudo, os atuais detentores de mandatos, mata a própria atuação regular dos parlamentares e levará uma expressiva taxa de reeleição este ano.

Renovação é sempre importante, oxigena o espaço específico. É importante até para as profissões como advogados e médicos que incorporem diretos novos e mulheres para aumentar a participação das mulheres em conselhos de empresas e representação política. Nesse sentido, o Brasil está em um ranking vergonhoso, inferior até a de nações muçulmanas, onde há preconceito e onde há uma dificuldade estrutural para participação feminina. 

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