Com novos ataques às pesquisas de intenção de votos, Bolsonaro escancara tentativa de descredibilizar eleições

Postado em: 11-04-2022 às 18h45
Por: Augusto Diniz
O presidente da República incentivar, mesmo que com informações falsas, seus apoiadores a não acreditarem em institutos e instituições não é novidade, mas insistência no discurso dá ideia de como será a plataforma em busca da reeleição | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Ninguém acredita em pesquisa, a não ser que ela esteja casada com possível fraude lá na frente. A gente espera que não haja fraude e trabalha pra que ela não aconteça.” A declaração dada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) em questionamento ao resultado das intenções de votos na corrida ao Palácio do Planalto nesta segunda-feira (11/4) em entrevista ao grupo O Liberal não é novidade. Bolsonaro tem como tática eleitoral forçar o maior número de apoiadores fiéis a desconfiarem cada vez mais da Justiça Eleitoral, da votação na urna eletrônica e nos resultados de levantamentos com a preferência momentânea do eleitorado brasileiro.

Durante a entrevista, Bolsonaro demonstrou parte de sua tática eleitoral, que é atacar os institutos de pesquisa eleitoral. O presidente, mesmo com crescimento de quatro pontos porcentuais na rodadas do Ipespe divulgada hoje feita com o eleitorado paulista, Estado no qual o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera as intenções de votos com 34% e Bolsonaro aparece com 30%, disse que, confirmados os números apresentados nas pesquisas, a eleição presidencial será resultado de uma fraude.

Não é de hoje que Bolsonaro questiona, sem apresentar qualquer prova, o resultados das eleições de 2018, mesmo tendo sido eleito presidente, e as rodadas de pesquisas de diferentes institutos. Todos aparecem com Lula à frente do chefe do Palácio do Planalto, como no último levantamento Quaest/Genial, com o petista em primeiro com 45% da preferência do eleitorado brasileiro e pré-candidato a reeleição com 31% após crescimento de Bolsonaro de cinco pontos porcentuais.

Depois do segundo turno em 2018, quando foi eleito presidente, e nos 3 anos e quase 4 meses de governo, Bolsonaro se manteve no palanque, em uma tentativa de fazer uma constante busca da reeleição, e alegou falsamente várias vezes que, na verdade, teria vencido as eleições de quase quatro anos atrás no primeiro turno. Inclusive, inventa informações falsas sobre “três ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)” terem candidato pelo qual trabalham para ajudar a eleger em outubro.

Comportamento esperado

Essa é mais uma tentativa de se fortalecer ao mesmo tempo em que busca criar na população alguma desconfiança sobre o processo eleitoral no Brasil. Se vencer, Bolsonaro vai dizer que sua votação foi maior do que aquela apurada e divulgada pelo TSE. E se perder para qualquer outro candidato, o presidente irá alegar que o pleito foi fraudado, o que justificaria a possível não aceitação do resultado.

Uma bomba-relógio prestes a causar tumulto e confusão, bem nos moldes da invasão ao Capitólio nos Estados Unidos, movimento incentivado pelo derrotado ex-presidente Donald Trump, que conseguiu dividir o país norte-americano com a insistência na falsa informação da fraude nos votos enviados pelo correio.

Mas ao menos Bolsonaro reconhece que a tendência, pelo menos por enquanto, há cinco meses do primeiro turno, e de que ele tenha como adversário o petista na votação final. “Tudo demonstra que [no segundo turno] vai ser eu e o Lula”, afirmou na entrevista de hoje ao grupo O Liberal.

Desenho da campanha

Por um lado, Bolsonaro irá incentivar seus eleitores a atacar nas ruas e virtualmente a credibilidade do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF), como faz o deputado federal Daniel Silveira (PTB-RJ) ao pedir a suspeição de nove ministros do STF, justamente os que não foram indicados pelo presidente da República em seu mandato – nove dias antes de ser julgado por atacar integrantes da Corte. O discurso está pronto para defender a versão de que não consegue governar porque seria perseguido pelas instituições, que incluem na lista dos supostos “opositores” o Supremo.

Do outro, o pré-candidato tentará defender que em seu governo não existe corrupção. E aproveitará para discutir na Justiça Eleitoral a manifestação livre de artistas ou de eleitores que mostrarem apreço por adversários, como os advogados do PL fizeram ao tentar criminalizar no TSE o Festival Lollapalooza ao inventarem que a organização do evento atuaria para incentivar que cantores pedissem voto para Lula nos palcos e criticassem Bolsonaro durante os shows. Nem o CNPJ da empresa que realiza o Lollapalooza os representantes do PL acertaram.

Escândalos depois

Ao mesmo tempo, já foram acionadas as redes de líderes religiosos e partidos ligados ao bolsonarismo para atacar as gestões do PT e tentar apagar os holofotes das crises enfrentadas pela gestão de Bolsonaro. Várias deles no Ministério da Educação (MEC).

A primeira envolve a investigação aberta pelo Ministério Público Federal (MPF), por meio da Procuradoria-Geral da República (PGR), e da Polícia Federal (PF) para apurar as denúncias de atuação de dois pastores, Arilton Moura e Gilmar Santos, em uma espécie de gabinete paralelo no MEC com o aval de Bolsonaro para cobrar propina de prefeitos que buscavam recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), com depoimentos de prefeitos de cobrança de R$ 15 mil, R$ 30 mil e até um quilo de outro em troca de projetos e dinheiro do ministério.

Agora começa a ser divulgada uma série de supostos benefícios a políticos do PP pelo ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, que é presidente do Progressistas, por meio de liberação de ônibus escolares para redutos eleitorais do partido e contratos para entrega de kits robótica a colégios do interior de Alagoas que sofrem até com falta de água.

Inclui também a suspeita de uma empresa supostamente fantasma ligada a parlamentares ter vencido licitações para realizar obras por meio da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) que tiveram execução de baixa qualidade ou não teriam sido construídas. A autorização de liberação de recursos, no último caso, pode chegar a R$ 3 bilhões.

Sem esquecer um áudio de uma irmã do miliciano Adriano da Nóbrega, que precisa ser investigado, no qual Daniela da Nóbrega indica um possível interesse do Palácio do Planalto na morte do chefe do Escritório do Crime como uma forma de tornar o ex-policial militar um “arquivo morto”.

Rachadinha

Fora os casos em investigação de “rachadinha”, que é o desvio de recursos do gabinete de um parlamentar por meio do salário de funcionários fantasmas, no tempo em que Bolsonaro foi deputado federal e que o filho Flávio era deputado estadual no Rio.

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