Bolsonaro tem como sustentar nas eleições o discurso de que em seu governo a corrupção acabou?

Postado em: 16-04-2022 às 16h04
Por: Augusto Diniz
Presidente precisa se preparar, mesmo que não queira falar, para responder a acusações de desvio de recursos da União, lavagem de dinheiro, superfaturamento, obras fantasma, rachadinha e tráfico de influência na campanha | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro (PL) tem repetido em diversas oportunidades que seu governo acabou com a corrupção. Foi um dos lemas da campanha eleitoral de 2018, quando venceu no segundo turno o ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) nas urnas. Mas o que não falta é suspeita de desvio de recursos, lavagem de dinheiro e corrupção em órgãos do Palácio do Planalto e entre os membros da família Bolsonaro, inclusive o chefe do Executivo. E todas elas precisarão ser explicadas. Se não responder, os adversários vão explorar exaustivamente.

A começar pelo próprio Bolsonaro, que responde a ação de improbidade administrativa apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) por contratar uma funcionária fantasma em seu gabinete quando era deputado federal. A servidora Walderice Santos da Conceição, a Wal do Acaí, confirmou em depoimento ao MPF que nunca foi a Brasília. Durante os mais de 15 anos em que esteve lotada no gabinete de Bolsonaro, Walderice continuou a vender açaí em uma loja da Vila Histórica de Mambucada, em Angra dos Reis (RJ), onde o presidente tem uma casa de veraneio. Ela só foi demitida depois que a Folha de S.Paulo revelou o caso.

O suposto esquema de rachadinha, para ficar com parte do salário dos comissionados do gabinete de Flávio Bolsonaro quando o senador era deputado estadual no Rio, pode envolver os gabinetes de Jair e Eduardo na Câmara dos Deputados. O vereador Carlos Bolsonaro também é investigado pela mesma prática na Câmara Municipal carioca.

Morte de Adriano da Nóbrega

Áudio da irmão do miliciano Adriano da Nóbrega, Daniela da Nóbrega, levanta a suspeita de que o Palácio do Planalto tinha interesse na morte do chefe da milícia Escritório do Crime, em Rio das Pedras (RJ), como “arquivo morto”. Em ligação para uma tia dias depois do assassinato do irmão pela polícia da Bahia, Daniela disse que teriam oferecido cargos em troca do homicídio de Adriano. O amigo da família e ex-comissionado do gabinete de Bolsonaro, o ex-PM Fabrício Queiroz, saiu em defesa de Jair e disse que a mulher teria se confundido. Para Queiroz, ao dizer “Palácio do Planalto”, ela queria falar “Palácio Guanabara”.

Desde março, Bolsonaro vê seu governo envolvido em suspeita de desvio de recursos, superfaturamento, contratos fraudulentos e cobrança de propina no Ministério da Educação. O MPF e a Polícia Federal investigam as denúncias de cobrança de dinheiro, até barra de ouro, para liberar recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) a municípios e Estados. O intermédio ocorreria em uma espécie de gabinete paralelo pelos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura com o suposto aval do presidente da República.

Interferência na PF

O ex-juiz Sergio Moro (União Brasil), que deixou a magistratura para se tornar ministro da Justiça e da Segurança Pública na gestão Bolsonaro, acusa o presidente de interferência na Polícia Federal (PF) para atrapalhar investigações que prejudiquem o governo e a família Bolsonaro. Na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, Jair Bolsonaro deixou claro que iria interferir na PF se fosse necessário. Até o momento, o presidente já trocou o comando da Polícia Federal três vezes.

O hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Augusto Heleno, cantou no evento de lançamento da candidatura de Bolsonaro em 2018: “Se gritar pega Centrão/Não fica um, meu irmão“. Era uma paródia de “Reunião de Banaca (Se Gritar Pega Ladrão)”, composta por Ari do Cavaco e imortalizada na voz de Bezerra da Silva. Atualmente, Bolsonaro, que antes dizia na campanha que não aceitaria “toma lá, dá cá” em seu governo, diz que sempre foi do Centrão.

As chaves do cofre no Palácio do Planalto, inclusive, foram entregues ao senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, que ocupa o Ministério da Casa Civil e, por decisão de Bolsonaro, passou a ter a palavra final na decisão de como o governo deve gastar o orçamento.

Escolha de Aras

A indicação de Augusto Aras, que foi reconduzido para um novo mandato à frente da Procuradoria-Geral da República, não atendeu à eleição da lista tríplice enviada pelos integrantes do Ministério Público Federal. A atuação de Aras é avaliada como a de uma autoridade disposta a engavetar toda denúncia, investigação e processo que possa comprometer Bolsonaro e seu governo. Muitos lembraram do ex-procurador-geral da República Geraldo Brindeiro, que durante a gestão Fernando Henrique Cardoso (PSDB) era chamado de “engavetador-geral da República”.

E esses são só alguns casos que colocam o discurso de Bolsonaro de que a corrução não existe em seu governo em xeque. Não citamos aqui a suspeita de desvio de recursos por meio da Codevasf, a liberação para construir escolas sem orçamento previsto, o superfaturamento na compra de kits robótica, ônibus escolares, o empenho para importar vacina contra covid-19 com cobrança de propina por dose, o abandono da saúde pública durante a pandemia, os gastos militares por meio do Ministério da Defesa com remédios para calvície, impotência sexual, carne de primeira, cerveja e lubrificante sexual, além da investigação por lavagem de dinheiro e tráfico de influência contra o filho Jair Renan.

Mesmo que Bolsonaro prefira discutir “liberdade de expressão” e WhatsApp na pré-campanha enquanto faz motociata no feriado com dinheiro público, vai ser preciso se preparar para enfrentar esses temas. Porque eles serão usados contra o postulante a reeleição de agosto a outubro.

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