Saiba como uma luva criada por cientistas da USP é capaz de detectar pesticidas em alimentos

Postado em: 25-01-2022 às 11h07
Por: Ícaro Gonçalves
A invenção foi o resultado de pesquisas na universidade, com apoio do Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) | Foto: Divulgação: Agência Fapesp

Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram recentemente o desenvolvimento de uma luva com dispositivos sensores capazes de detectar resíduos de pesticidas em alimentos. A invenção foi o resultado de pesquisas na universidade, com apoio do Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O trabalho foi idealizado e liderado pelo químico Paulo Augusto Raymundo-Pereira, pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP). Segundo Paulo Augusto, o dispositivo sensor da luva possui três eletrodos, que ficam acoplados nos dedos indicador, médio e anelar. Eles foram impressos na luva por meio de serigrafia, com uma tinta condutora de carbono, e permitem a detecção das substâncias como:

  • Carbendazim (fungicida da classe dos carbamatos),
  • Diuron (herbicida da classe das fenilamidas),
  • Fenitrotiona (inseticida do grupo dos organofosforados) e
  • Paraquate (herbicida incluído no rol dos compostos de bipiridínio)

No Brasil, os três primeiros são empregados em cultivos de cereais como trigo, arroz, milho, soja e feijão, além de frutas cítricas, café, algodão, cacau, banana, abacaxi, maçã e cana-de-açúcar. Já o uso de paraquate foi banido no país pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A detecção dos pesticidas pode ser feita diretamente em líquidos, apenas mergulhando a ponta do dedo contendo o sensor na amostra, e também em frutas, verduras e legumes, bastando tocar na superfície da amostra.

Sergio Antonio Spinola Machado, professor do Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP) e coautor da pesquisa, diz que não há nada semelhante no mercado e que os métodos mais utilizados atualmente para detecção de pesticidas se baseiam em técnicas muito complexas.

“Essas metodologias têm custo alto, demandam mão de obra especializada e um tempo longo entre as análises e a obtenção dos resultados. Os sensores são uma alternativa às técnicas convencionais, pois, a partir de análises confiáveis, simples e robustas, fornecem informação analítica rápida, in loco e com baixo custo.”

Na luva criada pelo grupo, cada dedo é responsável pela detecção eletroquímica de uma classe de pesticida. A identificação é feita na superfície do alimento, mas em meio aquoso.

Imagem: Divulgação/Fapesp

Sensores

O processo de verificação de presença de pesticidas é simples. Coloca-se um dedo de cada vez na amostra: primeiro, o indicador; depois, o médio e, por último, o anelar. No caso de um suco de frutas, basta fazer a imersão dos dedos no líquido, um de cada vez. A detecção é feita em um minuto e, no caso do dedo anelar, em menos de um minuto.

“O sensor no dedo anelar usa uma técnica mais rápida. Ele é composto por um eletrodo de carbono funcionalizado, enquanto os dos outros dois dedos por eletrodos modificados com nanoesferas de carbono [dedo indicador] e carbono printex, um tipo específico de nanopartícula de carbono [dedo médio]. Após a detecção, os dados são analisados por um software instalado no celular”, explica Raymundo-Pereira.

Outro destaque do dispositivo está na possibilidade de detecção direta, sem exigir preparo de amostra, o que torna o processo rápido. Além disso, o método preserva o alimento, permitindo o consumo após a análise.

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