quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Economia

Goiás está entre os estados com mais pedidos de recuperação judicial no agronegócio

Mesmo com crescimento do PIB e destaque nacional em liberdade econômica, micro e pequenas empresas e produtores rurais enfrentam recorde de solicitações para se manterem ativos

Letícia Leitepor Letícia Leite em
Goiás está entre os estados com mais pedidos de recuperação judicial no agronegócio
Especialista aponta fragilidade na gestão e falta de crédito como fatores que empurram produtores e pequenas empresas goianas para ação judicial. Foto: iStock

O aumento do Produto Interno Bruto (PIB) de Goiás, que posiciona o Estado como um dos mais dinâmicos do País, não tem se refletido em estabilidade para empresas e produtores rurais. Ao contrário: micro, pequenas e médias companhias, além de agricultores, enfrentam um cenário de fragilidade financeira que se traduz em recordes sucessivos de pedidos de recuperação judicial.

Dados da Serasa Experian apontam que o agronegócio brasileiro registrou 1.272 pedidos de recuperação judicial em 2024, mais que o dobro do ano anterior (534). No ranking dos estados mais afetados, Mato Grosso e Goiás ocupam as primeiras posições. 

Somente em 2024, produtores rurais pessoa física protocolaram 566 solicitações em todo o País, sendo 122 apenas em Goiás. No primeiro trimestre de 2025, a tendência se manteve: 389 novos pedidos foram registrados no setor agrícola em nível nacional, aumento de 44,6% em relação ao mesmo período de 2024, com Goiás figurando novamente entre os estados mais críticos.

Segundo o advogado e especialista em recuperação judicial Rafael Brasil, o peso do agronegócio para Goiás ajuda a explicar parte dessa realidade. “Embora seja um setor econômico de destaque, ele não é imune às crises econômica, climática e política. Os reflexos, por exemplo, da política externa impactam diretamente na produção aqui em Goiás. Além disso, o agro brasileiro é formado, de maneira preponderante, por pequenos produtores, que são mais sensíveis a esses impactos, seja por falta de estrutura e profissionalização adequada de seu negócio ou pela atual escassez da concessão de crédito no agronegócio. Quanto maior o índice de inadimplência, mais dificuldade o produtor encontra para tomar novos créditos e isso o leva para um cenário de maior dificuldade”, analisa.

O especialista aponta que as micro e pequenas empresas também estão entre as mais afetadas. Para ele, o problema é estrutural. “São formadas, via de regra, por empreendedores que não têm um domínio adequado de seu próprio negócio. Sem uma gestão eficiente, um cenário de crise econômica na empresa se agrava e isso pode levar a um processo de recuperação judicial ou até mesmo uma falência”, pontua. Ele acrescenta que hoje, o crédito está escasso e mais caro, até mesmo para empresas saudáveis, e para aquelas que dependem exclusivamente de crédito para sobreviver, o cenário é ainda mais preocupante.

Apesar do avanço do PIB goiano, o descompasso entre crescimento econômico e a realidade empresarial permanece. Para Rafael, a explicação está no chamado “Custo Brasil” e na ausência histórica de políticas de incentivo ao empreendedorismo. 

“Atualmente, o Estado de Goiás é o estado com maior liberdade econômica do País, e os reflexos disso serão sentidos com o tempo. O aquecimento da economia leva tempo e “fazer a máquina girar” é algo lento, no entanto, as empresas goianas não são imunes ao contexto nacional e internacional. Ou seja, embora o PIB de Goiás apresente alta, se o cenário a nível nacional não melhorar (com a redução do chamado Custo Brasil, por exemplo), a realidade não mudará”.

O advogado alerta que empresários goianos precisam adotar uma postura preventiva. Ao perceber sinais de endividamento, é essencial agir rápido: renegociar dívidas, firmar novos acordos e buscar suporte jurídico especializado antes que a crise se agrave. A recuperação judicial não pode ser vista como última cartada, mas como um instrumento de reestruturação consciente.

Apesar da gravidade do momento, o especialista vê em Goiás um cenário de maior possibilidade de recuperação em comparação a outras regiões do País. “O cenário econômico em Goiás é pujante, especialmente no agronegócio.” Isso dá mais perspectiva de soerguimento para empresas em crise, se houver planejamento e perspectiva de melhoria, a recuperação judicial tende a ser mais eficaz aqui, já que a economia local ainda oferece condições para a retomada.

Com o avanço dos pedidos de recuperação judicial em ritmo acelerado, Goiás se consolida como um retrato da contradição brasileira: ao mesmo tempo em que apresenta crescimento econômico, expõe a fragilidade de pequenos empresários e produtores rurais que, diante da falta de crédito e da instabilidade do cenário nacional, acabam recorrendo à Justiça como única saída para manter suas atividades.

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